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Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

A pressa na passagem das contas do rosário

Sempre me maravilhou a forma como Deus consegue nos ensinar grandes lições a partir de coisas pequenas do dia a dia...

Já sei muito bem que a luta contra a impaciência e o combate pela virtude da paciência e da temperança acompanhar-me-ão todos os dias da minha vida aqui na terra. Um dia destes, estava eu a rezar o Terço, como o faço diariamente, e dei por mim a reparar na forma como passava as contas do rosário. Pela primeira vez, apercebi-me que, ainda que eu estivesse a rezar as palavras do meio dum Pai Nosso ou Avé Maria, os meus dedos se apressavam a alcançar o início da conta seguinte, uma e outra e outra vez... Caramba Marisa, até aqui se expressa a tua impaciência! 

A impaciência costuma ser facilmente visível em pequenos comportamentos do nosso dia a dia, em casa, no trabalho, no trânsito, nas relações com os outros, na comunicação - e, pelos vistos, até na nossa forma de rezar! Mas esses comportamentos são, na verdade, expressões duma realidade mais profunda dentro de nós. Não sabemos esperar pelos outros, nem pelo próprio Deus. Não sabemos esperar pelo tempo ou os caminhos do Senhor. Achamos que sabemos mais e melhor, que sabemos fazer tudo da forma mais rápida e eficaz. Temos pressa, nem sei bem de quê nem para quê, de passar à tarefa seguinte, à actividade seguinte, à etapa seguinte. Somos descontentes e ingratos pelo momento presente, que os outros e o Senhor nos oferecem, e que desejam viver connosco. E, dou por mim a pensar, se reflectirmos com atenção, a impaciência, muitas vezes, mais não é do que soberba disfarçada...

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Assim, desde esse dia, fiz um forte propósito (por mais tolo que pareça) de apenas mexer os meus dedos para alcançar a conta seguinte apenas quando terminasse, realmente, a oração do Pai Nosso, da Avé Maria, do Glória ... Não foi um hábito fácil de adquirir, e de vez enquanto ainda caio no meu comportamento anterior mas ... É meramente um sinal, que expressa, na verdade, um propósito mais profundo e importante: a luta constante contra a minha soberba e impaciência, a minha rebeldia e pecado; a humildade de saber esperar pelo tempo e os caminhos de Deus, sempre mais perfeitos e maravilhosos do que tudo o que eu possa imaginar; o permanecer em paz e quietude de espírito, sabendo que Deus tem tudo no Seu divino controlo, que não existe nada que aconteça sem a Sua vontade ou consentimento; o aceitar que "para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu" (Ecl 3,1) ou que, nas palavras de Jesus

«Não se vendem dois passarinhos por uma pequena moeda? E nem um deles cairá por terra sem o consentimento do vosso Pai! Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados! Não temais, pois valeis mais do que todos os passarinhos» (Mt 10, 29-31)

Fala, Senhor, que o Teu servo escuta ...

Shekina - a presença visível de Deus que connosco habita

Pentecostes - a Solenidade gloriosa em que celebramos de forma muito especial a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, Deus Espírito Santo!

Durante muito tempo (aliás, até ter iniciado a leitura dum maravilhoso livro acerca da Santa Missa, da autoria do Pe James Luke Maegher), sempre tinha associado a presença do Espírito Santo à imagem corpórea de uma pomba, ao pensar, por exemplo, no episódio do baptismo de Jesus nas margens do rio Jordão

Uma vez baptizado, Jesus saiu da água e eis que se rasgaram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do Céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o Meu agrado.» (Mt 3,16-17)

Ou então, associava a presença do Espírito Santo até junto de nós pensando na imagem das línguas de fogo, capazes de irromper através dos nossos muros defensivos e das nossas portas fechadas por medo, para nos vir abrasar o coração, como nos é relatado no episódio dos Atos dos Apóstolos que ouvimos neste Domingo

Quando chegou o dia de Pentecostes, os Apóstolos estavam todos reunidos no mesmo lugar. Subitamente, fez se ouvir, vindo do Céu, um rumor semelhante a forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram então aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que se exprimissem. (At 2,1-4)

Mas ... alguma vez pensaram na presença de Deus Espírito Santo através da imagem duma nuvem?

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Em pleno Pentecostes: conseguem ver a nuvem com a forma duma asa de pomba?

«Shekina» foi, segundo o livro do Pe James Luke Maegher, a palavra hebraica que os primeiros judeus escolheram para tentar descrever Aquele que, muitos séculos mais tarde, Jesus nos veio apresentar como Espírito Santo. «Shekina» significa uma «presença visível», uma «presença que habita connosco» - a Presença Divina, Deus Espírito Santo. 

No princípio, Deus criou os céus e a terra e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas. (Gn 1,1b)

Logo nos primeiros versículos das Sagradas Escrituras é-nos apresentado esta Presença Divina, que se movia sobre as águas, tal qual uma nuvem, e que quis habitar com Adão e Eva na sua casa, o jardim do Éden. Deparamo-nos novamente com esta palavra, «Shekina», quando Deus fala com Noé para construir a arca, como um sopro de vento, e depois no chamamento de Abraão desde Ur dos Caldeus até à Terra Prometida.

Um Deus que se move sobre, que habita com, que chama pelo nosso nome e que sussurra ao nosso ouvido ... assim é Deus Espírito Santo!

Quatrocentos anos de silêncio mais tarde, esta Presença Divina volta a aparecer na Bíblia, chamando Moisés a libertar o povo judeu cativo no Egipto, através duma sarça ardente. É também esta a palavra usada para descrever a Presença de Deus que habitava junto do povo hebreu sob a forma duma nuvem ao longo da sua travessia do Mar Vermelho e depois nos 40 anos no deserto ...

O Senhor caminhava diante deles; durante o dia, numa coluna de nuvem para os conduzir na estrada, e de noite, numa coluna de fogo para os iluminar, para que pudessem caminhar de dia e de noite. (Ex 13,21)

E aconteceu que, na vigília da manhã, o Senhor olhou da coluna de fogo e de nuvem, para o acampamento dos egípcios, e lançou a confusão no acampamento dos egípcios. (Ex 14,24)

O Senhor disse a Moisés: «Eis que Eu venho ter contigo no coração duma nuvem, para que o povo oiça quando Eu falar contigo e também acredite em ti para sempre.» (Ex 19,9)

E eis que, no terceiro dia, ao amanhecer, houve trovões e relâmpagos e uma nuvem pesada sobre a montanha, e um som muito forte de trombeta, e todo o povo que estava no acampamento tremia. (Ex 19,26)

O povo manteve-se à distância e Moisés aproximou-se da nuvem escura, onde estava Deus. (Ex 20,21)

A glória do Senhor permaneceu sobre a montanha do Sinai, e a nuvem envolveu-o durante seis dias. No sétimo dia, o Senhor chamou por Moisés do meio da nuvem. Moisés entrou pelo meio da nuvem e subiu à montanha, e ali esteve Moisés durante quarenta dias e quarenta noites. (Ex 24,16.18)

Uma nuvem foi a imagem que Deus Espírito Santo escolheu para poder falar com Moisés, tanto lá em cima no topo do Monte Sinai, para lhe ensinar os 10 Mandamentos do Amor; como também cá em baixo, dentro da Tenda da Reunião, para poder guiar todo o povo judeu até à abundância da Terra Prometida. Uma nuvem que fala e guia, uma sombra que cobre e protege ... donde me lembro eu de ter lido isto?

Ah, sim, na Anunciação do Anjo Gabriel a Maria ...

Disse-lhe o anjo: «Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus.»

Maria disse ao anjo: «Como será isso, se eu não conheço homem?» O anjo respondeu-lhe: «O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a Sua sombra. Por isso, Aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus. (Lc 1,30-31.34-35)

E depois, também, na Transfiguração de Jesus no topo do Monte Tabor ...

Ainda [Jesus] estava a falar, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e uma voz dizia da nuvem: «Este é o Meu Filho muito amado, no qual pus todo o Meu agrado. Escutai-O.» (Mt 17,5)

Ah, sim, e também na Ascenção de Jesus aos Céus ...

Disse-lhes Jesus: «Ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.» Dito isto, elevou-Se à vista deles e uma nuvem subtraiu-O a seus olhos. (At 1,9)

Ena, como é que eu nunca tinha reparado antes?

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Digam lá se não é mesmo uma nuvem coma forma duma asa? Ah, as maravilhas de Deus ... 

Eu sempre gostei muito de contemplar as nuvens no céu e de brincar com elas, tentando imaginar as formas, figuras, animais, pessoas ou histórias que os seus formatos - sempre dinâmicos, sempre a mudar e nunca iguais - me faziam lembrar e imaginar. Agora compreendo porquê - as nuvens foram uma das imagens que Deus Espírito Santo escolheu para se tornar visível, para habitar connosco e Se dar a conhecer ...

É maravilhoso pensar como as nuvens se mostram, ao mesmo tempo que velam o seu interior. Apesar de as vermos, permanecem um mistério. Não é possível delinear com exatidão os seus limites. Encontram-se numa transformação contínua das suas formas e formatos, apesar de nunca perderem a sua essência e de deixarem de ser quem são. Representam uma certa leveza de espírito e jovialidade da alma. São capazes de nos proteger dos raios quentes do sol. E a sua presença promete-nos a vinda duma chuva fecunda e geradora de vida...

Assim é, se me permitirem dizer, de certa forma também Deus Espírito Santo ... 

 

Vinde, Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis
e acendei neles o fogo do Vosso amor.
Enviai, Senhor, o Vosso Espírito, e tudo será criado,
e renovareis a face da terra. Amén!

O divino Jardineiro

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava.  (Jo 20,1)

Recentemente, por inspiração dum querido padre, tive a oportunidade de olhar com novos olhos para aquele que é um dos meus episódios favoritos em toda a Bíblia.

Conta-nos São João, o discípulo tão amado pelo Senhor

Maria estava junto ao túmulo, da parte de fora, a chorar. Sem parar de chorar, debruçou-se para dentro do túmulo, e contemplou dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha estado o corpo de Jesus, um à cabeceira e o outro aos pés. Perguntaram-lhe: «Mulher, porque choras?» E ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram.»
Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus, de pé, mas não se dava conta que era Ele. E Jesus disse-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que era o jardineiro, disse-lhe: «Senhor, se foste tu que O tiraste, diz-me onde O puseste, que eu vou buscá-Lo.» 

Disse-lhe Jesus: «Maria!» Ela, aproximando-se, exclamou em hebraico: «Rabbuni!» - que quer dizer: «Mestre!» Jesus disse-lhe: «Não Me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os Meus irmãos e diz-lhes: 'Subo para o Meu Pai, que é vosso Pai, para o Meu Deus, que é vosso Deus.'» Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: «Vi o Senhor!» E contou o que Ele lhe tinha dito.

Jo 20, 11-18

E se Maria Madalena, na verdade, não se enganou? E se ela viu, verdadeiramente, o divino Jardineiro?

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Para perceber temos de voltar ao início, lá bem atrás no Génesis, do início da Criação, como nos mostrou tão belamente o Papa João Paulo II, ao oferecer-nos a todos o dom da revelação da Teologia do Corpo...

 

No início, Deus criou um jardim, rico em frutuosas virtudes e em belos actos de amor. Era o jardim mais bonito deste mundo - o coração unido dum homem e duma mulher. Feitos à imagem e semelhança de Deus - a Santíssima Trindade, plena comunhão de Amor - nada podia ser mais belo ou perfeito.

O homem, formado a partir da rudeza da terra, cumpria perfeitamente a sua vocação - ser aquele que providencia, que governa, que cuida e protege, que inicia o amor. A força, a firmeza e a segurança eram a sua própria essência. 

Já a mulher, formada a partir da carne e do sangue, cumpria a sua própria vocação, diferente e complementar à do homem. Ela era aquela rica em sentimentos e emoções, aquela capaz de acolher no seu seio de mulher e mãe, capaz de receber o amor de Adão e de o frutificar, ao tornar o seu próprio ser num autêntico lar. O cuidar, o acarinhar, o compadecer-se, o ajudar a crescer e fortalecer era o seu chamamento.

 

Mas a serpente era esperta e matreira, e conseguiu descobrir, no meio de tantas virtudes, uma pequena brecha onde pudesse deitar - bastou umas meras gotas - do seu veneno mortal. 

Sendo a mulher naturalmente mais notada a estar atenta aos outros e às suas necessidades - enquanto o homem tende a focar-se no dever, no trabalho, na conquista e na luta diária - e sendo ela a chave certeira para alcançar as profundezas do coração do homem, claro que a maldita serpente se dirigiu primeiramente a Eva. E assim, no coração da mulher, o diabo gerou pela primeira vez a dúvida e a suspeita....

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«E se ...» E se eu ouvir só um bocadinho, esta voz que me sussurra ao ouvido? E se aquilo que a serpente diz for verdade? Porque não deseja Deus que nós comamos do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal? Estará Deus a esconder-nos alguma coisa? Se nos ama, porque não nos permite comer de todos os frutos? Porque não podemos ter tudo? E se, em vez de morrermos ao comer do fruto proibido, nos tornar-nos ainda melhores, mais sábios, mais belos, mais santos - afinal, é a árvore do conhecimento do bem e do mal ... 

A cada novo pensamento o fruto proibido se tornava mais apetitoso, apeticível, desejável ... Se eu quero, se me apetece, se está aqui mesmo à mão, que me impede de o fazer? Não sei eu, porventura, livre? (é impressionante como esta linha de pensamento tem ressoado e ecoado até aos dias de hoje ...)

 

Então a mulher toma a iniciativa - não era essa a vocação de Adão? - pega no fruto e come. E onde está Adão? Porque não está ele a cumprir a sua vocação e a proteger o seu bem mais precioso, a sua esposa e irmã, formada a partir do seu próprio coração? Oh, a ele já não era preciso que uma serpente o seduzisse e enganasse, pois ele próprio já se tinha deixado levar pelo mundo que o rodeava, focado nos seus próprios projetos de conquista de todo o mundo ....

Ambos comeram do fruto proibido, porque ambos almejavam tornar-se como deuses. E assim, os olhos de ambos, que antes apenas viam o amor sincero e verdadeiro, o bom e o belo, tornaram-se capazes de contemplar aquilo que eles próprios tinham construído - o pecado, a desconfiança, o medo, a vergonha, a maldade. 

Porque não me protegeste? Eu confiava em ti! A culpa é dele! - diz Eva a Adão e ao Senhor.

Porque me ofereceste algo que me levou à morte? Eu confiava em ti! A culpa é dela! - diz Adão a Eva e ao Senhor. 

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E assim, as nossas próprias escolhas, o nosso próprio pecado - a recusa e a desconfiança no amor que Deus e o outro tem para nos dar - levam-nos do belo jardim ao mais inóspito deserto, onde vagueamos sem cessar, à procura da verdadeira fonte de água vida e do verdadeiro maná que vem do céu ... 

É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração (Os 2,16) 

Deus é incapaz de suportar esta separação, esta divisão, este abismo enorme que nós próprios cavámos. É o próprio Deus, qual divino Jardineiro, que vem dar uma nova vida ao deserto do coração humano:

Eis que venho renovar todas as coisas (Ap 21,5)

 

Jesus, como novo Adão, demonstrou na Cruz o seu perfeito amor - livre, total, fiel e fecundo - capaz de dar a própria vida para proteger a Sua amada - cada um de nós. 

No sítio em que [Jesus] tinha sido crucificado havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. (Jo 19,41)

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Jesus é o divino Jardineiro, capaz de transformar o coração de cada homem e mulher dum deserto hostil e árido num autêntico jardim cheio de vida, luz e cor - a nova Jerusalém celeste, santa e imaculada, tal como nos promete o último livro da Bíblia.

Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo.

E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: «Esta é a morada de Deus entre os homens». (Ap 21,1-3)

Mostrou-me, depois, um rio de água viva, resplendente como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça da cidade e nas margens do rio está a árvore da Vida que produz doze colheitas de frutos; em cada mês o seu fruto, e as folhas da árvore servem de remédio para as nações.  (Ap 22,1-2)

 

Talvez, no final das contas, Maria Madalena tenha tido razão ao identificar Jesus Ressucitado como o divino Jardineiro, que a todos traz a vida e a vida em abundância ... 

O véu que se rasga e a porta que se abre ... para sempre!

Jesus, com um grito forte, expirou. E o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo (Mt 15, 38)

Com a morte de Jesus rasga-se o véu do templo de Jerusalém. Este véu localizava-se no interior do templo, à entrada do Santo dos Santos, o local mais sagrado para os judeus, onde apenas o Sumo Sacerdote podia entrar (e apenas uma só vez no ano) para estar na presença do Altíssimo e pronunciar o Seu Nome santo.

Este véu, ao contrário dos véus a que estamos habituados, não era de renda, nem de nenhum tecido fininho, transparente ou frágil. Era mais uma tapeçaria, um têxtil que apenas podia ser produzido pelo melhor artesão, sujeito a inúmeras regras, utilizando fios de lã de cor azul (simbolizando o Criador do mundo), de cor roxa (significando a realeza do Senhor dos Exércitos) e de cor escarlate (simbolizando o sangue dos sacrifícios) juntamente com fios do linho mais puro, pela pureza do Santo de Israel. Depois, tinha ainda de ser bordada a ouro, com a imagem de dois querubins, de dois anjos que guardavam, de dia e de noite, a porta que dava acesso ao Senhor. E o que se dizer das suas dimensões? Nada mais nada menos que 5m de largura, 5m de altura e 5cm de espessura de acordo com as Escrituras...

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Imagem retirada daqui

Com a morte de Jesus rasga-se o véu do templo de Jerusalém. Este véu espesso e forte, que impedia o acesso a Deus, é dividido em dois e rasgado de alto a baixo. O rosto de Deus, que sempre tinha estado, até aquele momento, escondido e velado - até mesmo de Moisés, que falava com o Senhor como se fosse um amigo - é então revelado a todos, judeus e pagãos. 

É o próprio Deus que retira o véu e que Se mostra e releva livremente, como Aquele que ama até ao fim, Aquele que ama até dar a própria vida pelo ser amado... 

O véu foi rasgado. A porta foi escancarada. O peito foi aberto. O acesso a Deus está livre!

No primeiro dia da semana, ao romper do dia, as mulheres foram ao sepulcro, levando os perfumes que tinham preparado. Encontraram removida a pedra da porta do sepulcro e, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus. Apareceram-lhes dois homens em trajes resplandecentes, que lhes disseram: «Porque buscais entre os mortos Aquele que vive? Não está aqui: ressuscitou!» (Lc 24, 1-3.4b.5b)

Temos o azul do céu, o roxo dos perfumes, o escarlate das marcas do sangue e o branco da mortalha e das ligaduras. À entrada, dois anjos guardam a porta que dá acesso ao Senhor e a porta está completamente aberta ... Já nada, nem mesmo o pecado nem a morte, nos pode separar do amor de Deus!

Aleluia! Aleluia! 

A Verdade

«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida». (Jo 14,6)

Jesus é a Verdade. Deus é a Verdade. A Verdade é Deus.

Assim, o mundo torna-se cada vez mais verdadeiro na medida em que reflectir Deus - o amor de Deus e o Deus de amor. Assim, o mundo torna-se tanto mais verdadeiro quanto mais se aproximar de Deus e do Seu Reino de verdade, vida, liberdade, amor. 

O homem torna-se cada vez mais verdadeiro, cada vez mais ele mesmo, cada vez mais parecido com o ser que deveria ser, quanto mais se conformar com o próprio Deus, quanto mais se tornar a Sua imagem e semelhança. 

Deus é a realidade que nos confere a natureza e o sentido do nosso ser. 

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Imagem retirada daqui

«Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. (Jo 17,37)

Dar testemunho da Verdade significa então pôr Deus em realce, dar-Lhe o primeiro lugar em todos os instantes e em todos os aspectos da nossa vida. Dar testemunho da Verdade significa estar atento, colocar-nos em atitude constante de escuta e pôr em prática a Sua vontade.

«Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. (Jo 17,37)

A Redenção que Cristo nos veio oferecer foi assim, de certo modo, o tornar a Verdade perfeitamente reconhecível, identificável, perceptível - para todos. 

Que é a Verdade?

«Que é a Verdade?» (Jo 18,38)

Esta é a pergunta que Pilatos faz a Jesus, já no final do seu interrogatório. Realmente, ele faz a pergunta - mas não quer ouvir a resposta. É por isso que Pilatos foge - "dito isto, foi ter de novo com os judeus" (Jo 18,39). Porque, se ouvisse a resposta, algo, depois, teria de mudar... Ninguém pode permanecer o mesmo, viver da mesma forma, agir do mesmo modo - depois de fazer uma pergunta destas Àquele que tudo criou. Não depois de ouvir a resposta ...

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Imagem retirada daqui

Jesus sabia que Pilatos não ia querer ouvir a resposta à sua própria pergunta - «Que é a Verdade?» (Jo 18,38) a pergunta que brotou espontaneamente do seu coração, sem que ele a pudesse impedir de se expressar, sem que a razão - fria, política, calculista, como era seu hábito - dominasse a questão profunda que a sua alma procurava ...

Mas foi para poder responder clara e definitivamente a esta questão - que surge não só no coração de Pilatos, mas também de cada homem, mais tarde ou mais cedo ao longo da sua vida - que Jesus encarnou, viveu, morreu e ressuscitou. É por isso que Jesus oferece a Pilatos, subtilmente, a resposta, antes mesmo de este a pronunciar em voz alta, quando ainda só o tinha feito no fundo da sua alma. E esta é a única resposta capaz de o (e de nos) saciar 

«Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade.

Todo aquele que vive da Verdade, escuta a Minha voz». (Jo 18,37)

A voz doce e verdadeira d'Aquele que nos diz

«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida». (Jo 14,6)

Fala, Senhor, que o Teu servo escuta ... 

Vivendo hoje mesmo a Vida Eterna

Assim falou Jesus, levantando os olhos para o céu, exclamando: «Pai, chegou a hora! Manifesta a glória do Teu Filho, de modo que o Filho manifeste a Tua glória, segundo o poder que Lhe deste sobre toda a Humanidade, a fim de que dê a vida eterna a todos os que Lhe entregaste. Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste».

Jo 17,1-3

No outro dia, apercebi-me da tendência que tenho em pensar na «vida eterna» como sendo apenas a vida que começará depois da nossa morte. Oh, quando formos para o Céu! Oh, viveremos eternamente no Reino do amor de Deus! Como seremos felizes, felizes!.... 

Mas não, não é assim. Ao meditar nesta passagem de São João, apercebo-me do meu grave erro. A vida eterna não é algo que ainda vai começar. É algo que já começou!

Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste.           (Jo 17,3)

A partir do momento que ocorre esta conversão no nosso coração, esta  no Senhor nosso Deus, Criador do céu e da terra, nosso Pai que tanto nos ama, ao ponto de nos enviar o Seu Filho para nos redimir de todos os pecados que nós fizémos, apenas para podermos ter a possibilidade de entrarmos novamente em plena comunhão de amor com Ele ... É aí, aí mesmo, que começa a nossa vida eterna...

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Imagem retirada daqui

Diz-nos Jesus, no relato da ressurreição do Seu querido amigo Lázaro:

«Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em Mim não morrerá para sempre.»       ( Jo 11,25-26)

Os primeiros cristãos compreenderam logo esta realidade, profunda e transformadora, que Jesus nos veio oferecer. Chamavam-lhes "os viventes", segundo nos conta o nosso Papa Bento XVI, porque tinham encontrado aquilo que todos procuravam (e que continuam, ainda hoje, a procurar): a própria vida, a vida plena, verdadeira, imperecível, invencível, contra a qual a morte não tem nenhum poder ...

Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste.           (Jo 17,3)

Cada homem encontra esta vida que tanto procura, a «vida eterna», através do conhecimento de Deus, do verdadeiro e único Deus. Conhecer, segundo a linguagem bíblica, significa comunhão, intimidade, entrega, identificação plena com aquele que queremos conhecer... 

A vida eterna torna-se assim, de certa forma, numa relação do mais profundo amor com Aquele que é em Si mesmo a verdadeira fonte da vida.

 

A "Passagem" do Amor

Queridos leitores, queridos amigos

Começo a pensar que digo o mesmo todos os anos (apesar de ainda só ter vivo 6 Quaresmas na minha vida), mas digo-vos com toda a sinceridade que a Quaresma deste ano tem sido, sem qualquer sombra de dúvida, a Quaresma mais difícil e excruciante de que me lembro de viver ... As razões são mais que muitas, as consequências e implicações, então, são ainda mais numerosas. Mas a causa ... a causa é só uma, vim eu a descobrir - o meu orgulho, a minha soberba.

 

Ao ler algumas reflexões de outras pessoas sobre esta Quaresma, tão particular e única, notei que muitas partilhavam o quanto esta Quaresma lhes ensinou a ouvir - a voz do Senhor e a voz dos irmãos. Bem, para mim, tendo sido uma Quaresma que me tem ensinado não só a ouvir mas também a ver ... eu, que tão, tão cega andava ... À semelhança do cego de Betsaida, que Jesus chama de parte, tomando-o pela mão para longe da cidade, para aí conversar com ele e curá-lo através da graça que provém da Palavra da Sua boca... 

Chegaram a Betsaida e trouxeram-lhe um cego, pedindo-lhe que o tocasse. Jesus tomou-o pela mão e conduziu-o para fora da aldeia. Deitou-lhe saliva nos olhos, impôs-lhe as mãos e perguntou: «Vês alguma coisa?». Ele ergueu os olhos e respondeu: «Vejo os homens; vejo-os como árvores a andar». Em seguida, Jesus impôs-lhe outra vez as mãos sobre os olhos, ele começou a ver e ficou curado. 

Mc 8,23-25

 

Sei que este ano a Igreja nos chama a ler o Evangelho de São Mateus, mas eu tenho sentido uma necessidade inexplicável de ler o Evangelho de São João e é sobre algumas passagens deste Evangelho que gostava de ir partilhando convosco ao longo destes dias - talvez sejam umas reflexões um pouco soltas e um pouco atrasadas em relação ao programa litúrgico, eu sei, mas sei também que para a graça actuante do Senhor não existe tarde demais ... 

 

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a Sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os Seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.

Jo 13,1

A festa judaica da Páscoa celebrava a saída e libertação do povo hebraico das terras do Egipto, passando da condição de escravos para filhos livres do Senhor. Agora - sim, agora - em que vivemos o pleno cumprimento de todas as Escrituras através de Jesus, é chegada a hora da "passagem" de Jesus, a hora do amor "até ao fim". Realmente, se pensarmos bem, o amor é um processo de transformação, em que cada um é chamado a sair de si mesmo e dos seus limites humanos, para chegar até ao ente amado, ao irmão, ao Senhor. Para amarmos como Jesus, é preciso estarmos dispostos a fazer - e a sofrer, sim, porque dói - esta passagem, esta transformação...

Para que o amor pelo irmão e pelo Senhor cresça no nosso coração (e na nossa vida), é preciso fazer espaço, é preciso criar espaço dentro dos nossos corações. Como? Pois, essa é a parte dolorosa, porque a resposta é só uma - esvaziando-nos de nós próprios, esvaziando-nos do amor que temos por nós próprios, despojando-nos do nosso querer, do nosso egoísmo ...

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Imagem retirada daqui

Jesus, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que pôs à cintura. Depois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura.

Jo 13, 3-5

Chegou a "hora" de Jesus, a hora do amor, perfeito, total, profundo, radical; chegou a hora de passar deste mundo para o Pai. Como vive Jesus essa hora de passagem, de mudança? Em pleno serviço, em pleno despojamento de Si mesmo ... 

Por amor à ovelha perdida e presa no pecado, por amor a mim, por amor a ti, Jesus saiu de junto de Deus Pai, e desceu até nós, assumindo a nossa condição humana. Nisto consiste o amor - sair de nós mesmos para alcançar o outro que amamos, descendo o que for preciso, abaixando-nos, humilhando-nos, até chegarmos junto do ser amado. 

Num gesto completamente contrário ao de Adão no jardim do Éden (e à minha própria acção, diária, aliás, inúmeras vezes ao longo do dia...), que tentou apoderar-se do que era divino pela sua própria vontade e através das suas próprias forças, Jesus esvazia-se de Si mesmo, colocando-se na posição de escravo e servo; retirando o Seu manto, despojando-se de todo o Seu esplendor divino; Jesus ajoelha-se diante de cada um de nós, lavando e enxugando os nossos pés sujos ... 

Jesus desceu do Céu, de certa forma, sozinho. Mas já não regressará para junto de Deus Pai sozinho. Levar-nos-á, a todos, com Ele, para o Céu, para o Reino de amor que Deus tanto anseia por nos oferecer - para todo o sempre!