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Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Cristo, o nosso eterno Profeta, Rei e Sacerdote

Durante toda a Quaresma, diariamente as leituras da Santa Missa mostram-nos a tripla missão de Jesus, o perfeito e eterno Profeta, Rei e Sacerdote. Esta tripla missão é especialmente visível nas leituras do julgamento de Jesus. 

O Sumo Sacerdote voltou a interrogar [Jesus]: «És Tu o Messias, o Filho do Deus Bendito?» Jesus respondeu: «Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vir sobre as nuvens do céu.» O Sumo Sacerdote rasgou, então, as suas vestes e disse: «Que necessidade temos ainda de testemunhas? Ouvistes a blasfémia! Que vos parece?» E todos sentenciavam que Ele era réu de morte. (Mc 14, 61b-64)

Perante o povo judeu, representado por Caifás, o Sumo Sacerdote do templo de Jerusalém naquele ano, foi julgado Cristo-Profeta. Profeta é alguém que se coloca em escuta atenta da Palavra de Deus e que depois a transmite a cada um de nós, ajudando-nos a interpretá-la e a pô-la em prática, retirando-nos as máscaras e as vendas dos nossos olhos - que insistimos em colocar, tanto em nós, como nos outros - auxiliando-nos a reconhecer o nosso pecado e as nossas culpas e indicando-nos o caminho seguro a seguir. Quem foi o mais perfeito Profeta, se não Jesus Cristo?

E qual a razão da condenação de Cristo-Profeta? Jesus ter-Se declarado Filho de Deus, o Messias há muito prometido e desejado. Mas os judeus consideraram-n'O demasiado "terreno", demasiado humano e parecido connosco, para poder ser verdadeiramente Filho de Deus. E, assim, condenaram o Verbo de Deus por blasfémia.

Cristo-Profeta foi ridicularizado ao vendarem-Lhe os olhos e questionando-O se conseguia adivinhar quem era que Lhe batia no rosto - um rosto que, apesar dos inúmeros golpes, lhes oferecia sempre a outra face...

Cuspiam-Lhe no rosto e batiam-Lhe. Outros esbofeteavam-n'O, dizendo: «Profetiza, Messias: quem foi que Te bateu?» (Mt 26, 67-68)

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Imagem retirada daqui

[Pilatos] chamou Jesus e perguntou-Lhe: «Tu és Rei dos judeus?» Respondeu-lhe Jesus: «Tu perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de Mim? (...) A Minha realeza não é deste mundo» Disse-Lhe Pilatos: «Logo, Tu és Rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou Rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade».(Jo 18, 33-34. 36a. 37)

Perante os gentios, representados pela figura de Pilatos, foi julgado Cristo-Rei. Rei é alguém que tem uma justa e suprema autoridade sobre o seu reino e sobre cada pessoa que lhe pertence. Uma vez que o rei é responsável por cada pessoa que lhe é confiada, ele tem o dever de as proteger dos perigos e de garantir o seu bem estar. Assim, por causa desse dever paternal, cada súbdito lhe deve a devida reverência.

Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e reuniram toda a coorte à volta Dele. Despiram-n'O e envolveram-n'O com um manto escarlateTecendo uma coroa de espinhos, puseram-Lha na cabeça, e uma cana na mão direita. Dobrando o joelho diante Dele, escarneciam-n'O, dizendo: «Salve! Rei dos Judeus!» (Mt 27, 27-29)

Cristo-Rei foi humilhado ao ser despido das Suas vestes e ao ser coberto por um manto cor de sangue; ao ser coroado com uma coroa de espinhos; ao receber como trono uma cruz, como ceptro uma cana e como jóias três longos cravos, que O prenderam na Cruz. 

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Imagem retirada daqui

Por fim, unindo-se pela primeira vez judeus e gentios (só Jesus poderia usar uma situação tão horrível, como a Sua crucifixão, para unir antigos inimigos), condenaram Cristo-Sacerdote. O sacernote serve de ponte medianeira entre Deus e os homens. O sacerdote apresenta ao Senhor os nossos sacrifícios mas também as nossas preces e necessidades. Assim, Jesus é o mais perfeito e eterno Sacerdote.

Os que passavam injuriavam-n'O e, abanando a cabeça, diziam: «Olha o que destrói o templo e o reconstrói em três dias! Salva-Te a Ti mesmo, descendo da cruz!» Da mesma forma, os sumos sacerdotes e os doutores da Lei troçavam Dele entre si: «Salvou os outros mas não pode salvar-Se a Si mesmo!» (Mc 15, 29-31)

Judeus e gentios, juntos, escarneceram de Cristo crucificado, desafiando-O a salvar-Se a Si mesmo e a descer da Cruz. Mas este eterno Cristo-Sacerdote já Se tinha oferecido a Si mesmo como a mais perfeita vítima de holocausto, através da Qual todos nós recebemos o perdão dos nossos incontáveis pecados.

 

Em resumo, o Sinédrio dos judeus desprezou e ridicularizou Cristo-Profeta; o Império Romano dos gentios julgou e escarneceu de Cristo-Rei; por fim, ambos se juntaram para condenar e crucificar Cristo-Sacerdote. Que paradoxo tão grande - Caifás, aquele que era Sumo Sacerdote por apenas um ano, desprezou o Eterno Sumo Sacerdote do Deus Altíssimo. E Aquele que Se revelou como o Caminho e a Vida é condenado ao caminho do Calvário e à morte...

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Mas nós sabemos muito bem que a história não acaba aqui. Nem a morte, nem o demónio, nem o pecado, nem as dificuldades têm a última palavra - mas sim Cristo, o alfa e o ómega, o princípio e o fim, o primeiro e o último, o nosso Salvador. 

Quando Jesus se preparava para voltar para o Reino dos Céus, no dia da Sua Ascenção, Ele distribuiu estas três dimensões pelos Seus Apóstolos: o serviço profético ou de ensino, ao prometer-Lhes que lhes enviaria o Espírito da Verdade, que os ajudaria a recordar e a compreender tudo o que Ele lhes tinha ensinado; o serviço real, ao dar-lhes as chaves do Reino de Deus, com o dever de defender e cuidar deste Reino e de cada pessoa que nele habitará; e, por fim, o serviço sacerdotal, para que fizessem memória contínua da Sua entrega Eucarística e conferindo-lhes o poder de perdoar os nossos pecados.

Aproximando-Se deles, Jesus disse-lhes: «Foi-Me dado todo o poder no Céu e na Terra. Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.» (Mt 28, 18-20)

Não posso deixar de sorrir ao pensar que, neste ano 2021, a Quinta-feira da Ascensão do Senhor será a 13 de Maio - quem melhor do que Nossa Senhora para nos transmitir as graças do Senhor neste dia e para sempre? 

Acompanhando Jesus no Jardim das Oliveiras

Depois de cantarem os salmos, saíram para o Monte das Oliveiras. (Mt 26,30)

Acompanhemos Jesus no início da Sua Paixão. Sempre achei curioso que esta fosse a única ocasião em que os Evangelhos nos dizem que Jesus cantou. Ele sabia de antemão tudo o que ía acontecer e, ainda assim, cantou. Junto dos discípulos por Ele amados, Ele cantou as maravilhas do Deus que salva. Louvou e adorou o Senhor, Deus de Israel, cantando-Lhe, agradecido, todos os Seus feitos maravilhosos até aquela altura - e, mais ainda, todas as Suas Obras a partir daquele momento, para sempre memorável.

Jesus saiu com os discípulos para o outro lado da torrente do Cédron, onde havia um horto, e ali entrou com os Seus discípulos. Judas, aquele que O ia entregar, conhecia bem o sítio, porque Jesus Se reunia ali frequentemente com os discípulos. (Jo 18, 1-2)

Estamos em plena noite, após a Última Ceia no Cenáculo, em que Jesus Se ofereceu como verdadeiro Alimento, o Pão Vivo descido do Céu, que nos promete dar acesso à Vida Eterna do amor de Deus. É de noite, mas o caminho é conhecido, tanto por Jesus, como pelos discípulos. Já o fizeram antes várias vezes. Sabem que têm primeiro que descer, até passarem perto da casa do Sumo Sacerdote Caifás, e depois começar a subir. Os discípulos não podiam adivinhar, mas Jesus sabia perfeitamente que, horas mais tarde, no início do novo dia, seria trazido pelos soldados até àquela casa, algemado e maltratado pelo caminho, para aí ser julgado e condenado pelos judeus. 

Mas, por agora, é tempo de subir a rua e passar a grande ponte que, naquela altura, ligava a zona principal da cidade de Jerusalém até ao Monte das Oliveiras, na direção de Betânia, onde era a casa dos irmãos Lázaro, Maria e Marta, a 3km de distância. 

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Getsemani na actualidade - foto tirada em 2019, na minha viagem à Terra Santa

O local do Getsemani, ou o Monte das Oliveiras, devia o seu nome ao extenso olival que ali tinha sido plantado, séculos antes. Era, assim, um jardim de oliveiras - o que, claro, me faz lembrar do jardim do Éden. Jesus é o novo e eterno Adão. Em vez do velho Adão, que se deixou levar pelo pecado de rebelia contra a vontade expressa de Deus - comendo do fruto proibido que lhe trouxe a morte e, através dele, a toda a humanidade - Jesus, o novo Adão, vencerá o pecado, escolhendo fazer, com toda a liberdade que só o verdadeiro amor pode exercer, a Divina vontade do Senhor - e assim redimir, a partir daquele momento, todo o género humano - passado, presente e futuro. 

No centro desse jardim das oliveiras encontrava-se uma prensa que permitia fazer o azeite a partir das azeitonas, à semelhança da árvore do conhecimento do bem e do mal localizada no centro do jardim do Éden. Na altura certa do ano, depois de terem sido arrancadas dos ramos das árvores, as azeitonas eram lançadas nessa prensa, para primeiro serem moídas e trituradas e depois prensadas. Sobre elas era colocado um enorme peso, que ía ficando cada vez mais e mais forte, apertado, constritivo. Até que, por fim, desse processo asfixiante, acontecia um autêntico "milagre" do "martírio" das pobres azeitonas: um líquido dourado, de aroma intenso e textura suave, o azeite. Este azeite, além de ser usado para cozinhar e assim alimentar todo o povo, também era usado na cicatrização das feridas, na iluminação das casas se colocado em candeias, ou usado para purificar, abençoar e ungir tanto coisas como pessoas ao serviço do Senhor no Templo de Jerusalém. 

Podia o Senhor ter usado um local melhor para nos ensinar o que estava a acontecer a Jesus, naquele jardim de agonia? 

Jesus chegou com os Seus discípulos a um lugar chamado Getsémani e disse-lhes: «Sentai-vos aqui, enquanto Eu vou além orar.» E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se. Disse-lhes, então: «A Minha alma está numa tristeza de morte; ficai aqui e vigiai Comigo.» (Mt 26, 36-38)

A oração de Jesus no Monte das Oliveiras é de tal importância e teve tão grande impacto nas primeiras comunidades cristãs, que dela temos, até hoje, 5 versões, uma por cada Evangelista e ainda outra pelo autor da Carta aos Hebreus. 

Diz-nos o papa Bento XVI, acerca da angústia que assalta Jesus neste momento: 

"É a perturbação particular d'Aquele que é a própria Vida diante do abismo de todo o poder da destruição, do mal, daquilo que se opõe a Deus e que agora Lhe cai directamente em cima, que Ele de modo imediato deve agora tomar sobre Si, aliás deve acolher dentro de Si até ao ponto de ser pessoalmente «feito pecado» (cf 2 Cor 5,21).

Precisamente porque é o Filho, vê com extrema clareza toda a amplitude da maré imunda do mal, todo o poder da mentira e da soberba, toda a astúcia e a atrocidade do mal, que se apresenta com a máscara da vida mas serve continuamente a destruição do ser, a deturpação e o aniquilamento da vida. Precisamente porque é o Filho, sente profundamente o horror, toda a imundície e perfíria que deve beber naquele «cálice» que Lhe está destinado - todo o poder do pecado e da morte. Ele tem de acolher tudo isso dentro de Si mesmo, para que n'Ele fique despojado do poder e superado."

Livro do Papa Bento XVI, "Jesus de Nazaré",  pág. 130 e 131

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Uma das imagens que melhor representa o que Jesus viveu na agonia do Getsemani - imagem retirada daqui

Cheio de angústia, [Jesus] pôs-Se a orar incessantemente e o suor tornou-Se-lhe como grossas gotas de sangue, que caíam na terra. (Lc 22,44)

Os Apóstolos deviam estar habituados ao estado sempre sereno de Jesus, mesmo perante discussões com os fariseus, ou perseguições dos habitantes das aldeias da Judeia, ou até mesmo durante as violentas tempestades em pleno mar da Galileia. Esta deverá ter sido a primeira vez que os discípulos O viram tão transtornado, tão desfigurado, tão esmagado pela dor e o peso do pecado do mundo. Nem mesmo naquela outra vez, em que Jesus revirou as mesas dos comerciantes dentro do Templo sagrado do Senhor, usando um chicote para os expulsar da casa do Seu Pai - nem mesmo dessa vez, O tinham visto como agora.

[Jesus] disse-lhes: «Orai, para que não entreis em tentação.» Depois afastou-Se deles (...) e, pondo-Se de joelhos, começou a orar, dizendo: «Pai, se quiseres, afasta de Mim este cálice; contudo, não se faça a Minha vontade, mas a Tua.» (Lc 22, 40-42)

Disse-lhes então [Jesus]: «A Minha alma está numa tristeza de morte; ficai aqui e vigiai Comigo.» E, adiantando-Se um pouco mais, caiu com a face por terra, orando e dizendo: «Meu Pai, se é possível, afaste-se de Mim este cálice. No entanto, não seja como Eu quero, mas como Tu queres.» (Mt 26, 38-39)

É a primeira vez, nos Evangelhos, que nos é descrita a posição que Jesus adopta ao rezar. Põe-se primeiro de joelhos, numa postura de vulnerabilidade e pequenez, e depois prostra-Se no chão duro e frio, com o rosto por terra. Assim, o Seu rosto enche-se de pó, transformado em lama pela mistura com as gotas de suor e sangue. Pó da terra - como tu e eu e toda a humanidade. Abaixando-Se em infinito, humilhando-Se, Jesus chega até nós, mero pó da terra, para mais tarde nos erguer Consigo (no ano passado, escrevi um post sobre esta analogia). Não há como os Apóstolos não compreenderem que, aquele momento na vida de Jesus, é absolutamente importante, decisivo e cheio de significado. Tanto para Ele, como para nós ... 

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Interior da Igreja da Agonia, em Jerusalém (2019), erguida sobre o exacto local da agonia de Jesus. É uma igreja (adequadamente) muito escura e silenciosa. A pedra sobre a qual Jesus terá passado a noite em oração, encontra-se imediatamente à frente do altar, e está rodeada duma escultura com a forma duma coroa de espinhos, com um cálice no centro. 

Jesus disse aos discípulos: «Ficai aqui enquanto Eu vou orar.» Tomando consigo Pedro, Tiago e João, começou a sentir pavor e a angustiar-Se. (Mc 14, 32-33)

Era necessário que todos os díscipulos O acompanhassem e vivessem o que ía acontecer naquela noite e naquela madrugada, para mais tarde o testemunharem. Mas apenas Pedro, Tiago e João podiam experienciar de forma detalhada, próxima e íntima, aquilo que estava prestes a acontecer com Jesus. Porquê? 

Porque eram os únicos que podiam compreender - realmente compreender - o que ía a acontecer. Eram os únicos que tinham sido preparados e fortalecidos, ao longo daqueles três anos de ministério de Jesus, para o que iam ver, sentir e viver naquela noite do início da nossa Redenção. Pedro, Tiago e João tinham sido os únicos a poderem estar presentes naquele dia extraordinário em que Jesus trouxe de novo à vida a filha de Jairo. A sua ressurreição era um sinal do que ia acontecer com Jesus e, através Dele, com a Igreja. 

Mais tarde, no topo de outro monte, como o qual se encontram nesta noite, Pedro, Tiago e João tinham testemunhado a Transfiguração de Jesus, o Seu rosto brilhante como a luz do sol e as Suas vestes brancas como a maior pureza de sempre. Tinha sido a manifestação plena da Sua Divindade. Agora iriam testemunhar a manifestação plena da Sua Humanidade. Nesta noite interminável, eles voltarão a ver outra tranfiguração de Jesus - Seu rosto modificado pela dor e pelo suor de sangue, as Suas vestes rasgadas e manchadas de sangue pela Sua paixão. Mais tarde, em apenas três dias, tal como Jesus tinha prometido, voltarão a vê-Lo mais uma vez transfigurado, desta vez com uma alegria eterna no rosto e um glorioso corpo ressuscitado.

Como deve ter sido grande a desilusão de Jesus, naquela noite. Estes três discípulos tinham sido amorosamente escolhidos e preparados para O acompanharem naquele momento, mas até eles falecem e adormecem, até eles sucumbem aos poderes da carne e do mundo. Até eles O abandonam ... Nunca Jesus Se sentiu tão só como naquela noite ... 

Voltando para junto dos discípulos, [Jesus] encontrou-os a dormir e disse a Pedro: «Nem sequer pudeste vigiar uma hora Comigo! Vigiai e orai, para não cairdes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é débil.»

Afastou-Se, pela segunda vez, e foi orar, dizendo: «Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que Eu o beba, faça-Se a Tua vontade!» 

Depois voltou e encontrou-os novamente a dormir, pois os seus olhos estavam pesados. Deixou-os e foi orar de novo pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. (Mt 26, 40-44)

Por três vezes Jesus pede-lhes (implora-lhes!) que rezem, que vigiem e que O acompanhem naquele momento de agonia. Faz-me lembrar das três tentações pelas quais Jesus passa no deserto, sendo tentado por Satanás. Também aqui volta a sê-Lo. Uma vez ouvi alguém dizer que, na primeira parte da noite, Jesus viveu a agonia de todos os pecados e maldades que já tinham sido cometidos no passado; na segunda parte, pelos pecados e iniquidades que estavam a ser cometidos naquele momento da História e, por fim, já de madrugada, por todos os pecados que viriam a ser cometidos no futuro (como os meus e os teus). 

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Oportunidade única e inesquecível de poder tocar nesta pedra e de rezar neste local sagrado (foto gentilmente tirada por outro peregrino, na altura sem eu me aperceber) - peregrinação à Terra Santa 2019.

Reunindo-Se finalmente aos discípulos, disse-lhes [Jesus]: «Continuai a dormir e a descansar! Já se aproxima a hora, e o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos! Já se aproxima aquele que Me vai entregar.» (Mt 26, 45-46)

Como fico sempre que o leio, estas palavras surpreendem-me. Então Jesus? É para continuar a dormir e descansar, ou é para nos levantarmos com pressa? Ambos. Paradoxalmente, é para fazermos ambos. Por um lado, devemos, sim, ter uma santa pressa em seguir Jesus e em pôr em prática aquilo que Ele nos pede e partilha connosco durante a nossa oração. Devemos ter pressa em servir, em obedecer, em fazer a vontade do Senhor. Mas devemos fazê-lo de forma tranquila, serena, confiantes no poder do Deus que nos chama e na Sua infinita graça, capaz de alcançar tudo em nós. Lembra-te, Marisa, que é assim que deverá sempre viver um cristão ... 

 

As tentações de Jesus e as nossas

O início da Quaresma leva-nos, com Jesus, ao deserto.

Uma vez baptizado, Jesus saiu da água e eis que se rasgaram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do Céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no Qual pus todo o Meu agrado.» Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. (Mt 3,16-17; 4,1)

O momento em que os céus se rasgaram e o Espírito Santo desceu sobre a terra, parece ter sido um momento marcante e decisivo na caminhada de Jesus, em direcção ao pleno conhecimento da vontade do Pai. Parece ter sido o momento em que Cristo recebeu uma confirmação total acerca da missão a que o Pai O chamava, assim como das suas implicações, ou seja, a redenção de toda a humanidade através do Seu sacrifício de amor na Cruz. 

Ao ler estes versículos, impressiona-me como Jesus, após um acontecimento com tanta glória e louvor, obedecendo voluntariamente à doce voz do Espírito, abandona todas as consolações e presenças humanas e Se retira sozinho para o deserto. Para aí passar pela prova de ser tentado por Satanás.

 

Fala-se cada vez menos de Satanás nos dias de hoje e isto é algo que muito lhe convêm e que ele deseja que permaneça assim. Porque, nós não tentaremos combater aquilo que desconhecemos sequer que existe. E, assim, permitimos que ele continue a manipular-nos e a manipular as nossas vidas, como tanto se observa na nossa sociedade de hoje em dia, sem haver qualquer resistência da nossa parte ...

Contudo, também não podemos cair no espectro oposto, de lhe atribuir poder e capacidades que ele, na verdade, não tem. Ele bem gosta de o fingir, para que acreditemos que ele é muito poderoso e capaz e que nós somos impotentes perante o seu aparente poder. Por exemplo, Satanás, sendo um anjo (se puderem voltem a ler este post sobre os anjos), ainda que decaído, desconhece o futuro - isso só Deus conhece - e apenas conhece o presente à mesma velocidade que nós, assistindo e vivendo o acontecer de cada coisa e acontecimento tal como nós. É verdade, ele conhece o passado, porque o viveu também, e, nesse aspecto, ele é perito em fazer-nos recordar o nosso passado - mas apenas as partes que lhe dão jeito, na sua constante tentativa de nos manipular ....

Diz-nos o Arcebispo Fulton Sheen que, enquanto Deus é pura verdade, definindo-Se a Si mesmo como "Aquele que é", a essência de Satanás é a mentira, podendo ser definido como "Aquele que não é". Ele é o tentador, o mentiroso, o enganador, o fingido por excelência. Uma das poucas capacidades que ele realmente tem é de ser extremamente perspicaz. Ele sabe identificar muito bem os nossos pontos fracos, está atento a cada uma das nossas reacções, sabe estudar bem as nossas tendências, os nossos padrões de comportamento e de pecado. Ele adapta-se astuciosamente a cada circunstância e a cada personalidade, falando-nos sempre através de meias-verdades, com declarações e sugestões parcialmente verdadeiras, mas sempre distorcidas e fraudulentas. E com que objectivo? Sempre na tentativa de nos afastar total e definitivamente do amor do Senhor e de nos arrastar com ele para o Inferno, onde ele próprio está já eternamente condenado. 

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Imagem retirada daqui

Podemos comprovar tudo isto, se acompanharmos Jesus ao ser tentado no deserto pelo Demónio. São Mateus conta-nos que "o Tentador aproximou-se" de Jesus (Mt 4,3a). A sua astúcia e capacidade de manipulação é de tal modo que Satanás tenta Jesus fingindo que O tentava ajudar a descobrir a resposta à questão, que tinha sido gerada no Seu coração e na Sua mente após ter sido Baptizado: Como poderia Ele cumprir mais perfeitamente a Sua missão de redenção entre os homens?

Tinha sido para descobrir a resposta a esta pergunta que Jesus tinha-Se retirado sozinho para o deserto, para aí jejuar e orar durante 40 dias e 40 noites, escutando a voz do Pai e deixando-Se moldar por Ele. Mas, se o problema estava em como Jesus poderia "ganhar" e converter o coração dos homens, então o Diabo tinha umas quantas sugestões a dar-Lhe.

Todas elas envolviam - adivinhem só - um espécie de bypass, um atalho, à expiação dos nossos pecados através da Cruz. Deus Pai tinha-Lhe dito, nestes 40 dias de oração no deserto, que esta era a única maneira. Satanás tenta persuadi-Lo de que não, de que há outras maneiras. Hmm, onde é que eu já vi isto acontecer? 

A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» A mulher respondeu-lhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis'. A serpente retorquiu à mulher: ‘Não, não morrereisporque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal‘.» (Gn 3,1-5)

Sim, nas tentações de Jesus no deserto veremos uma repetição das tentações de Adão (e de Eva) no Jardim do Éden. Mas, enquanto os nossos primeiros pais cederam à tentação, Jesus saiu vitorioso, vencendo cada uma delas.

Recordemos: qual era o objectivo, qual era a missão primordial de Deus para Adão e Eva? Viverem e participarem plenamente no Seu reino de amor, como Seus filhos muito amados, e como colaboradores do Seu poder Criador. Tal como o Catecismo da Igreja Católica nos resume na resposta à pergunta: "Para que fomos criados? Para conhecer, amar e servir a Deus" - uma resposta aparentemente simples mas tão poderosa e transformadora, se meditarmos bem nela ...

A serpente, contudo, tenta desviá-los desse objectivo e dessa missão, à semelhança do que tentará fazer com Jesus no deserto. O Diabo tenta distraí-los. Cria e fomenta uma falsa vontade nos seus corações, uma falsa necessidade, suscitando-lhes uma curiosidade que se revelará mortífera. Ele elabora uma mentira e tenta persuadi-los de que é verdade. 

Os nossos pais acreditam nesta mentira, cedem sem aparente resistência, e pecam gravemente, rejeitando o amor de Deus e expulsando-se a si mesmos da Sua presença e do Seu reino. Grande foi a alegria de Satanás naquele dia ... 

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Imagem retirada daqui

Agora, Satanás tentará fazer o mesmo com Jesus. As suas tentações tentam distrair Jesus da Sua missão de salvação do género humano. O Diabo tenta convencer Jesus de que há outras maneiras de alcançar a desejada Redenção da humanidade. Tenta persuadi-Lo e pô-Lo a duvidar da real necessidade da Sua entrega à vontade do Pai, através do Seu sacrifício voluntário na Cruz. Em vez de ser pela dolorosa e humilhante Cruz, Satanás tenta sugerir-Lhe três outras maneiras, uma espécie de três atalhos que, aparentemente, prometiam alcançar o mesmo fim - a salvação das almas. 

 

Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele também a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu. (Gn 3,6)

Reparem: os nossos pais começaram por ver que o fruto proibido deveria ser bom para comer, repararam no seu bom e atraente aspecto e concluíram que deveria ser bastante precioso e útil para lhes esclarecer a inteligência (e, assim, tornarem-se basicamente iguais a Deus e ocuparem o Seu lugar). Se meditarmos no assunto, perceberemos que o homem tende a ser tentado e tende a pecar de uma entre três principais maneiras (ou categorias): as que estão relacionadas com os prazeres da carne (pelos pecados da gula e da luxúria), as que estão relacionadas com o desejo de posse e o amor pelas coisas do mundo (pecado da ganância e da inveja) e as que estão relacionadas com o poder e a auto-idolatria (pecado do orgulho).

Da mesma forma, e pela mesma ordem, foi Jesus tentado no deserto pelo Demónio, para nos mostrar como podemos resistir e vencer estas tentações.

Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fomeO tentador aproximou-se e disse-Lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães»  (Mt 4,1-3)

primeira tentação foi a da procura do conforto e do prazer dos sentidosQue situação mais absurda - Deus a sentir fome! Onde é que isso já se viu? Como pode tal ser possível? Se Deus alimentou miraculosamente um povo tão numeroso durante 40 anos no deserto, porque é que agora não faz surgir um banquete para Si mesmo? Porque é que o próprio Deus se permite sofrer esta humilhação e passar por esta necessidade tão humana (apenas) para redimir as Suas criaturas? Parece loucura ...

Aliás, o Diabo parece prometer e sugerir-Lhe que, se Jesus usasse o Seu poder para alimentar todos os famintos deste mundo, então Ele ganharia os seus corações e, assim, a Cruz deixaria de ser necessária. Não parece um bom negócio? 

Na verdade, Jesus recordará e passará novamente por esta tentação quando, pregado na Cruz em plena agonia, todos os que passarem por Ele Lhe disserem asperamente: «Salva-Te a Ti mesmo! Se és Filho de Deus, desce da cruz!» (Mt 27,40) 

Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» (Mt 4,4).

Sim, Jesus passou realmente fome e sede no deserto. E, assim, uniu-Se a toda a humanidade sofredora, sedenta e faminta. Uniu-Se não só àqueles que têm falta de comida e de bebida, tão numerosos no tempo de Jesus como no nosso, mas também àqueles que têm sede e fome de Deus - e esses, sim, são muitíssimo mais numerosos hoje em dia, e encontram-se em quase todas as casas deste mundo.. O homem têm necessidades muitíssimo mais profundas do que aquelas que podem ser saciadas apenas com pão. São homens e mulheres que estão carentes duma felicidade muitíssimo maior do que ter apenas um estômago cheio. Foi para saciar tanto uma, como a outra fome, que Jesus encarnou, habitou entre nós e Se entregou, fazendo de Si mesmo e do Seu corpo o verdadeiro alimento, que nos dá a Vida Eterna.

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Imagem retirada daqui

segunda tentação foi a da procura da posse e do controlo de todas as coisas: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, que o Senhor Te sustentará» (Mt 4,6). Jesus tem perfeita noção que o caminho a que o Pai O chama terá poucos adeptos. Poucos Lhe darão ouvidos. Poucos O seguirão. Poucos se converterão. Não é um caminho fácil nem atraente aquele que Jesus nos proporá: «Se alguém quiser seguir-Me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me» (Lc 9,23)

Nesta segunda tentação, o Diabo tentará persuadir Jesus a esquecer o caminho da Cruz e a substituí-lo por um caminho que demonstre chamativamente o Seu poder, que seja atractivo e cativante, a fim de tornar mais fácil que todos os homens O sigam.

Quase que oiço o Demónio a dizer-Lhe: 'Porque hás-de preferir um caminho longo e penoso, através do derramamento de sangue e de tanta dor, para converteres os homens? Porque hás-de preferir um caminho em que sejas desprezado, rejeitado e humilhado, enquanto podes escolher um caminho mais curto e eficaz se realizares um milagre vistoso e admirável? Pelo caminho da Cruz, serás como um fantoche nas mãos dos homens, farão de Ti o que eles quiseres, não poderás controlar nada - mas, se Tu quiseres, está aqui mesmo a Tua oportunidade de tomares controlo sobre tudo! Pelo caminho da Cruz, não saberás quantas pessoas conseguirás converter, mas se realizares maravilhas e feitos impossíveis prometo-Te que todos acreditarão! Se és realmente Filho de Deus, eu desafio-Te a fazeres algo heróico, para que todos possam testemunhar o Teu poder e assim acreditar!'

Então, o Diabo conduziu-O à cidade santa e, colocando-O sobre o pináculo do templo, disse-Lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: 'Dará a Teu respeito ordens aos Seus anjos; eles suster-Te-ão nas suas mãos, para que os Teus pés não se firam nalguma pedra'» Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!» (Mt 4, 5-7)

Também mais tarde Jesus recordará esta tentação quando, à Sua volta, uma multidão se reunir exigindo-Lhe um milagre, qualquer que fosse, que provasse as Suas palavras e tornasse mais fácil para eles acreditarem plenamente. "As multidões afluíram em massa e [Jesus] começou a dizer: «Esta geração é uma geração perversa, [que] pede um sinal»" (Lc 11,29) 

Realmente, se Jesus realizasse esses grandes e admiráveis feitos que O coagiam a fazer, multidões de homens O seguiriam. Mas, como é que isso os beneficiaria, se o pecado permanecesse incrustrado nas suas almas? 

Responderá Jesus: «Não tentarás o Senhor teu Deus!» (Mt 4, 7). Não, não farei nada disso que Me pedem. Não farei a vossa vontade, que mal sabeis o que pedis ou o que precisais, mas farei, sim, e sempre, a vontade de Meu Pai. Só quando Me virem pregado numa Cruz se sentirão atraídos até Mim. Só através do Meu sacrifício, do pleno uso da Minha liberdade, da Minha entrega por amor é que, verdadeiramente, os homens se converterão e deixarão os seus maus caminhos.

E responderá Jesus às multidões que O tentam chantagear: «Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não lhe será dado sinal algum, a não ser o de Jonas» (Lc 11, 29). Nenhum sinal vos será dado, a não ser o sinal de Alguém que será elevado aos Céus, após ter saído e vencido as profundezas das águas do abismo e da morte...  

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Imagem retirada daqui

Por fim, a terceira tentação foi a da procura da própria glória e louvor: «Tudo isto [reinos e poderes do mundo] Te darei, se, prostrado, me adorares» (Mt 4,9). Satanás tenta, numa última e derradeira tentativa, distrair e desviar Jesus do caminho da Cruz. Se Jesus, tal como Ele próprio o diria mais tarde, veio a este mundo para estabelecer nele o Reino de Deus, porque não escolhia Ele um caminho mais rápido para alcançar tal? Porque não Se submetia Àquele que se apresentava como Senhor deste mundo?

Levando-O a um lugar alto, o Diabo mostrou-Lhe, num instante, todos os reinos do universo e disse-Lhe: «Dar-Te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver. Se Te prostrares diante de mim, tudo será Teu.» (Lc 4, 5-7) 

Será que o mundo foi-lhe realmente dado? Será que o mundo realmente lhe pertence? A contínua escolha dos homens pelo pecado parece corroborar esta afirmação. Por voto e vontade da maioria dos homens, comprovado pelas suas acções e escolhas diárias, não haveria dúvidas de que todo o mundo lhe pertencia ... em especial nos dias e na sociedade de hoje.

Mas não, isso não é verdade. Pode-nos parecer, por vezes, sim. Mas lembrem-se que Satanás é o príncipe da mentira e do fingimento! O Diabo promete que Jesus poderia ficar com tudo o que existe no mundo, desde que Ele não o tentasse mudar. Poderia ficar com os corações de toda a humanidade, desde que Ele prometesse não os tentar salvar e redimir. 

Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» (Mt 4, 10)

Jesus responder-lhe-á: 'Vai-te Satanás! Adorar-te é servir-te e servir-te é ser escravo do pecado. Foi exactamente para tornar a humanidade livre das garras do pecado que Eu vim. Eu não desejo nada deste mundo enquanto eles estiverem presos nas amarras da maldade e da culpa. Primeiro, Eu irei vencer a maldade e a conscupiscência no coração dos homens, e então depois conquistarei o mundo e serei coroado Rei de todo o Universo! Eu prefiro perder e abdicar de tudo o que existe neste mundo, do que perder uma só alma para o Reino de amor do Meu Pai!'

Então, o Diabo deixou-O e chegaram os anjos e serviram-n'O. (Mt 4,11)

 

Por agora, a vitória foi alçancada. Ao contrário do primeiro Adão, o novo e eterno Adão, Jesus, vence as grandes tentações que continuamente assaltam a humanidade. O Diabo deixa-l'O-á mas não será por muito tempo. Uns capítulos à frente, leremos como o Tentador conseguirá apoderar-se momentaneamente do coração de Pedro. Ele, o primeiro entre os discípulos a reconhecer o Messianismo de Jesus, proferindo no versículo 16 do capítulo 16: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo», dirá também logo no versículo 22 desse mesmo capítulo: «Deus Te livre, Senhor! Isso nunca Te há-de acontecer!», quando Jesus lhes anuncia que a glória da Ressurreição só é possível através do caminho humilhante e penoso da Cruz. 

 

Nos próximos posts, se Deus o permitir e me ajudar, continuaremos a caminhar com Jesus, nesse caminho de Cruz, em direção à plena obediência à vontade do Pai. Por agora, meditemos no nosso coração, acerca das tentações de Jesus, no seu significado, de como foi possível Ele vencer cada uma delas.

Foi através deste "primeiro treino" no deserto, através destes testes e provações, que Jesus Se fortaleceu para a "grande prova". Pela graça de Deus, nós estamos em plena Quaresma, nos exercícios de "treino" por excelência, para as grandes "provas" das nossas vidas. E a maior "prova" da minha vida começará dentro de pouquíssimo tempo, nesta mesma Páscoa ... 

 

Post escrito após a leitura do livro "Life of Christ" do Arcebispo Fulton Sheen, 1958, pág 59 a 69

Abraão: o desejo de ter um filho e a caminhada de fé de Sara

O Senhor disse a Abrão: «Ergue os teus olhos e, do sítio em que estás, contempla o norte, o sul, o oriente e o ocidente. Toda a terra que estás a ver, dar-ta-ei, a ti e aos teus descendentes, para sempre. Farei que a tua descendência seja numerosa como o pó da terra, de modo que só se alguém puder contar o pó da terra é que a tua posteridade poderá ser contada. Levanta-te, percorre esta terra em todas as direcções, porque Eu ta darei.» (Gn 13, 14-17)

À semelhança de Moisés, também Abrão não chegará a ver cumprida a promessa da posse das terras de Canaã Ele testemunhará apenas o início do cumprimento da segunda promessa que o Senhor lhe faz: de que teria uma descendência e que esta seria tão numerosa como os grãos de pó da terra ou como as incontáveis estrelas do céu numa noite de deserto...

 

É absolutamente claro, em todas as passagens da história de Abrão, que o seu maior desejo era ser pai. Mas, os anos passavam, Abrão e Sarai envelheciam e nenhum filho vinha. Abrão tinha 75 anos quando o Senhor lhe prometeu, pela primeira vez, uma descendência. Sarai, sua esposa, seria mais nova mas, ainda assim, já há muito que tinha passado a idade da fertilidade. É verdade que Deus tinha demonstrado o Seu poder de diversas formas e em sucessivos acontecimentos extraordinários, mas até um Deus Todo Poderoso tem limites à Sua acção!

Não é?

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Imagem da autoria de George Hawke, adaptada por mim

Por pensar assim, as Sagradas Escrituras vão relatar-nos as várias formas que Abrão usará para tentar "facilitar" o cumprimento desta promessa de Deus. Primeiro, trará consigo Lot, seu sobrinho, desde a terra de Ur dos Caldeus até à Terra Prometida, pensando que seria ele, se o amasse e o tratasse como seu próprio filho, o herdeiro do seu nome. Mas o Senhor ensinar-lhe-á que é necessário aprender a desapegar-se da sua vida passada, para crescer em santidade.

 

Mais tarde na sua vida, Abrão pensará que irá ser Eliezer, o seu escravo tornado amigo do peito, que vira nascer e crescer com tanta alegria na sua casa, a continuar a descendência da sua família. 

O Senhor disse a Abrão numa visão: «Nada temas, Abrão! Eu sou o teu escudo; a tua recompensa será muito grande.»
Abrão respondeu: «Que me dareis, Senhor Deus? Vou-me sem filhos e o herdeiro da minha casa é Eliézer, de Damasco.» E acrescentou: «Não me concedeste descendência, e é um escravo, nascido na minha casa, que será o meu herdeiro.»
Então a palavra do Senhor foi-lhe dirigida, nos seguintes termos: «Não é ele que será o teu herdeiro, mas aquele que sairá das tuas entranhas.» (Gn 15, 1-4)

Mas um escravo não é bom o suficiente. Mesmo que um escravo representasse, como na altura de Abrão, uma posse total sobre outra pessoa, alguém que nos pertence inteiramente e que nos é totalmente fiel e dedicado; mesmo essa totalidade de posse não se compara com uma relação filial. Mal podia imaginar Abrão que, já aqui, estava expresso o profundo e radical desejo de Deus de nos tornar Seus amados filhos, após sermos redimidos e salvos pelo sangue derramado de Jesus. 

Com o tempo, Abrão compreendeu que, alguém que saia das nossas próprias entranhas e que tenha o nosso próprio sangue, que possamos amar como filho e que nos ame como pai, é absolutamente diferente de alguém que nos sirva apenas por temor e dever, por mais dedicado que ele seja. 

"Abrão confiou no Senhor e Ele considerou-lhe isso como mérito" (Gn 15,6)

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Imagem retirada daqui

Mas os anos passavam e continuavam a passar e... nada! A fé de Abrão, por esta altura, podia já ser grande e madura. Mas a de Sarai, sua mulher, ainda tinha muito que crescer. Sarai deixa-se vencer pelo desespero e pela dúvida destruidora de não se achar suficiente para Deus nem para o seu marido. Sarai deixa-se definir pela sua aparente esterilidade, o seu coração endurece-se e torna-se amargo. Assim, já que parecia que o Senhor nada fazia, ela própria faria as coisas acontecerem, com as suas próprias mãos!

Sarai, mulher de Abrão, que não lhe dera filhos, tinha uma escrava egípcia, chamada Agar. Sarai disse a Abrão: «Visto que o Senhor me tornou uma estéril, peço-te que vás ter com a minha escrava. Talvez, por ela, eu consiga ter filhos.» Abrão aceitou a proposta de Sarai. Ele abeirou-se de Agar e ela concebeu. (Gn 16, 1-2.4)

Quanta dor, quanta infelicidade, trará este acto à vida de Sarai ... Oh, como ela se vai arrepender! Quantas vezes me revejo a mim própria em Sarai, com a minha mania de querer fazer com que as coisas aconteçam pelas minhas próprias mãos, visto que o Senhor aparentemente se atrasa e eu já não consigo esperar mais ... 

 

Ismael é o primeiro filho de sangue de Abrão, que nasce 11 anos depois da primeira promessa de descendência do Senhor a Abrão. É quase como se as Escrituras nos dissessem: "Abrão já estava preparado, a sua Fé tinha crescido e amadurecido, e estava pronto para ser pai .... mas Sarai ainda não". E, num Matrimónio, sabemos que já não existem dois, mas um só.

Na verdade, passarão mais 13 anos, até ao dia em que três homens enviados por Deus passem à porta da tenda de Abraão e anunciem a chegada do seu filho primogénito. Serão precisos todos esses anos, para que Sarai conheça o Senhor e cresça em intimidade com Ele; que se deixe amar e satisfazer plenamente por Ele; que permita que seja Ele a moldá-la, com todo o Seu amor e misericórdia, até se tornar verdadeiramente numa mãe. Serão precisos esses 13 anos para que a fé de Sarai alcançe as alturas da fé do seu esposo.

Então, sim, estão ambos prontos e transformados: Abrão torna-se Abraão - que significa pai de muitos - e Sarai torna-se Sara - mãe de muitos.

Abrão tinha noventa e nove anos, quando o Senhor lhe apareceu e lhe disse: «Eu sou o Deus supremo. Anda na Minha presença e sê perfeito. Quero fazer uma aliança contigo e multiplicarei a tua descendência até ao infinito. Já não te chamarás Abrão, mas sim Abraão, porque Eu farei de ti o pai de inúmeros povos.» E Deus disse a Abraão: «Não chamarás mais à tua mulher, Sarai, mas o seu nome será Sara. Abençoá-la-ei e dar-te-ei um filho, por meio dela. Será por mim abençoada, e será mãe de nações, e dela sairão reis.» (Gn 17, 1-2.5.15-16)

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Imagem retirada daqui

Isaac nascerá exactamente quando Abraão completar 100 anos. Fazendo as contas, Isaac só nascerá 25 anos depois da primeira promessa de descendência que Deus fez a Abraão, ainda nas terras de Ur dos Caldeus. Depois, Isaac terá já 40 anos quando finalmente casar com Rebeca, que só engravidará 20 anos depois, com os gémeos Esaú e Jacob.

Assim, Abraão terá de esperar 85 anos, desde a primeira promessa do Senhor, para ver nascer os seus netos. Quando Abraão finalmente morrer, aos 175 anos de vida segundo a Bíblia, ele terá apenas um filho, já com 75 anos, e dois netos com 15 anos de vida - um começo (aparentemente) pouco favorável para o cumprimento duma descendência numerosa e duma grande nação sucessora .... 

Mas o próprio Senhor nos responde:

Haverá alguma coisa que seja impossível para o Senhor? (Gn 18, 14)

Ana, a fiel profetisa da espera

Ao reflectir sobre o início da Quaresma deste ano, dei por mim a pensar no exemplo da profetisa Ana, que nos é dada a conhecer no relato da apresentação de Jesus Menino no Templo de Jerusalém. Ana tende a passar tão despercebida entre as linhas do Evangelho como também deve ter passado despercebida ao longo da sua própria vida. Ao rezar os Mistérios Gozosos do Terço, quantas vezes dou por mim a pensar mais em Simeão e nas suas palavras do que nas de Ana?...

"Quando se cumpriu o tempo da sua purificação, segundo a Lei de Moisés, levaram o Menino a Jerusalém para O apresentarem ao Senhor. Havia uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser, a qual era de idade muito avançada. Depois de ter vivido casada sete anos, após o seu tempo de donzela, ficou viúva até aos oitenta e quatro anos". (Lc 2, 22.36-37)

À semelhança de Nossa Senhora, também a vida de Ana sofreu uma grande e inesperada reviravolta quando, tragicamente, Ana perdeu o seu amado marido, sendo ainda muito nova, após um feliz mas dolorosamente curto matrimónio. Ana terá certamente pensado: E agora, o que devo fazer? Sem filhos e sem família ... Quem cuidará de mim? Quem me protegerá? Quem me amará?

Ana, à semelhança da história do povo hebreu e à semelhança de cada um de nós em alguma altura das nossas vidas, teve de descobrir o amor carinhoso, o cuidado atencioso, a protecção segura, a firmeza da presença permanente e inabalável do Deus que nunca nos abandona e que nos acompanhada em todos os instantes da nossa vida. Pela fé, Ana permitiu que Deus transformasse um acontecimento trágico, que poderia tê-la destruído interiormente, em algo belo e frutuoso - uma vida dedicada ao serviço dos irmãos e à oração pela vinda do Messias prometido, que viria resgatar para sempre todo o povo de Israel.

Talvez por o Evangelho nos falar do seu "tempo de donzela", eu tendo a imaginar Ana como uma daquelas mulheres que desenvolvem uma beleza tão única e especial, que não parece mudar com o avançar dos anos. Aquele tipo de beleza que só é possível ser desenvolvida por quem se deixa preencher, cativar e florescer pelas graças do Senhor, numa contínua relação de intimidade de amor mútuo com Deus. Imagino Ana com um espírito jovem e vivo, típico de quem aprende a falar com o Senhor como com um amigo, mas, simultaneamente, com uma alma firmemente enraizada no profundo amor e bondade do Senhor, demonstrado e comprovado em todos os dias da sua longa vida. 

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Pintura da Profetisa Ana, da autoria da maravilhosa artista protestante Elspeth Young

Ana viveu e serviu no Templo de Jerusalém durante várias décadas, após ter ficado viúva, o que lhe terá permitido ouvir repetidamente as palavras divinas da Lei e dos Profetas, as inúmeras discussões e ensinamentos dos escribas e dos fariseus, assim como observar todos os movimentos, carregados de significado e simbolismo, dos sacerdotes do Templo. Assim, Ana estaria bem familiarizada com as diversas profecias dos autores sagrados que anunciavam a vinda do Messias. Isto, associado ao cuidado amadurecimento do seu génio feminino e a uma graça especial do Senhor, fizeram dela uma das poucas profetisas nomeadas nas Sagradas Escrituras, à semelhança de Miriam, irmã de Moisés, e de Débora no Antigo Testamento. Uma profetisa é alguém que sabe interpretar os sinais dos tempos e de discernir a vontade de Deus, tal como ela o fez, de forma aparentemente tão simples, no relato da apresentação de Jesus no Templo - um acontecimento de tal forma importante que foi imortalizado para sempre, primeiro na Tradição da Igreja, depois nas páginas da Bíblia e depois ainda nos Mistérios do Santo Terço. 

[Ana] não se afastava do Templo, participando no culto noite e dia, com jejuns e orações. (Lc 2,38)

A sua presença constante no Templo, contudo, também lhe daria hipóteses de observar atentamente o comportamento dos fariseus legalistas, o domínio crescente dos vendedores, comerciantes e cambistas, assim como todas as demonstrações de hipocrisia, desrespeito e pecado, realizadas na Casa do Senhor, aquela que devia ser "casa de oração" por excelência, e não um "covil de ladrões" como se tinha tornado (cf Mt 21,13). Questiono-me se alguma vez lhe terá passado pela cabeça fazer algo parecido ao que Jesus faria, anos mais tarde, expulsando "os que vendiam e os que compravam" e "derrubando as mesas" onde se propagava a iniquidade daquele povo? (cf Mt 21,12) Quem sabe ...

 

Ana é um belo exemplo de paciência, de quem sabe esperar fielmente pelo cumprimentos das promessas do Senhor. Mas, ao contrário do que o mundo nos diz, esperar no Senhor e esperar pelo cumprimentos das Suas promessas, não tem nada de passivo. Ana participava na vida e nas celebrações do Templo de Jerusalém, servindo o Senhor e os irmãos e dedicando-lhes toda a sua vida. Ana era activa na sua espera, jejuando e orando frequentemente. Quem já jejuou sabe que é algo que tem pouco de passivo, é necessário uma luta interior, permanente, contra o desejo natural de saciar o nosso corpo com comida.

Ana ter-se-á dedicado a preparar-se, à semelhança das virgens prudentes (cf Mt 25,1-13), para a vinda do Messias desejado. Ana é um exemplo perfeito de quem conseguiu manter acesa dentro de si a chama da esperança, da fé nas promessas feitas pelo Deus fiel, apesar das dificuldades e das situações que a poderiam desanimar e enfraquecer. Assim, ela esperou e esperou e esperou. Atenta e vigilante aos sinais dos tempos e do Senhor. Com fé viva e expectante - durante 84 anos. 

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Se Ana "não se afastava do Templo, participando no culto de noite e de dia", quem sabe se ela não terá também testemunhado os acontecimentos extraordinários que envolveram o sacerdote Zacarias no ano anterior? (cf Lc 1,5-25)

Talvez também ela terá reparado em como Zacarias se demorava no interior do Santo dos Santos. Talvez também ela terá esperado que ele de lá saísse, expectante acerca do que poderia estar a acontecer. Talvez também ela terá ficado admirada por descobrir que Zacarias "não lhes podia falar", que tinha ficado "mudo" e que só era capaz de comunicar por "sinais" a partir desse dia. Talvez também ela terá compreendido que Zacarias "tinha tido uma visão no santuário" que mudaria, não só a sua vida, mas a de toda a História. Talvez também ela terá estado presente no Templo quando, 9 meses mais tarde, a boca de Zacarias "abriu-se, a língua desprendeu-se-lhe e começou a falar, bendizendo a Deus" (Lc 1,64), após o nascimento do seu filho João. Quem sabe?

Na verdade, Lucas diz-nos realmente que "por toda a montanha da Judeia se divulgaram aqueles factos" (Lc 1,65) e que "quantos os ouviam retinham-nos na memória e diziam para si próprios: «Quem virá a ser este menino?»" (Lc 1,66). Assim, talvez também Ana terá meditado no seu coração, à semelhança da Virgem Maria, acerca do profundo significado e das implicações de tais acontecimentos extraordinários, o que a terá colocado ainda mais atenta e vigilante na leitura e interpretação dos sinais que o Senhor dava ao seu povo amado. Afinal, não tinha cantado Zacarias que João seria "chamado profeta do Altíssimo, porque [iria] à Sua frente a preparar os Seus caminhos" (Lc 1,76) e que "o Senhor, Deus de Israel, [tinha] visitado e redimido o Seu povo, [dando-nos] um Salvador poderoso da casa de David, Seu servo"? (Lc 1,68-29)

Será que o tempo favorável tinha chegado? Será que o acontecimento mais desejado da história do povo hebreu, a vinda do Messias, o resgate de Israel, estava finalmente a acontecer, ali mesmo, à frente dos seus olhos? 

 

Por esta altura, já era difícil esconder o sorriso aberto e inexplicável na bela face de Ana, que parecia tornar-se ainda mais bela e jovem a cada novo dia de esperança renovada. Já nem lhe passava pela cabeça abandonar, por um segundo que seja, o Templo de Jerusalém, para ir dormir e descansar na sua casa. O Senhor estava perto, era preciso orar e preparar-se para O receber. 

E quanto não terá exultado de alegria, meses mais tarde, ao ouvir o testemunho dos pastores de Belém que "começaram a divulgar o que [os Anjos] lhes tinham dito a respeito daquele Menino", fazendo com que "todos os que os ouviam se admirassem"? (Lc 2,17-18). Oh sim, Ana terá certamente vivido na mais pura alegria durante os 40 dias que ainda teve de esperar até conhecer o desejado Redentor de Israel.

Assim, quando José e Maria vieram ao Templo para oferecerem o Menino ao Senhor, ela ali estava, preparada e à espera, radiante e rejubilante, junto de Simeão.

"[Ana] aparecendo nessa mesma ocasião, pôs-se a louvar a Deus e a falar do Menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém". (Lc 2,38)

 

Sempre achei muito engraçado que Lucas nos dissesse que, após o seu encontro com o Senhor Encarnado, Ana "pôs-se ... a falar do Menino a todos". Ora aí está Deus a fazer um bom uso duma característica tendencialmente feminina: ir contar a toda a gente algo que aconteceu! Faz-me lembrar do dia da Ressurreição do Senhor, em que Maria Madalena e as outras mulheres "cheias de temor e de grande alegria, correram a dar a notícia aos discípulos" (Mt 28, 8b), dando assim um santo uso a esta capacidade feminina de propagar e partilhar um acontecimento ... 

 

Esta semana começa a Quaresma, o tempo por excelência para nos preparar-mos para receber o amor do Senhor, que é tão grande e imenso que precisa de espaço - nas nossas vidas mas especialmente dentro de nós. Aprendamos o que é viver em clima de preparação constante e vigilantes. Deixemo-nos inspirar no exemplo da profetisa Ana, sejamos activos na nossa espera e tenhamos os olhos e o coração abertos às palavras e aos sinais do Senhor. Desejo-vos uma Santa e abençoada Quaresma!

Abraão: o caminho errado e o caminho certo

Houve fome naquela terra. Como a miséria era grande, Abrão desceu ao Egipto para aí viver algum tempo. Quando já estavam quase a entrar no Egipto, Abrão disse a Sarai, sua mulher: «Ouve, sei que és uma mulher de belo aspecto. Quando os egípcios te virem, dirão: ‘É a mulher dele.‘ E matar-me-ão e a ti conservarão a vida. Diz, pois, que és minha irmã, peço-te, a fim de que eu seja bem tratado por causa de ti, e salve a minha vida, graças a ti.» (Gn 12, 10-13)

Acho que não deve existir ninguém neste mundo que tenha facilidade em admitir os próprios erros. Ainda mais, se esses erros forem bastante sérios e tiverem consequências graves, como colocar em causa a segurança de toda a nossa família.

Abrão toma a decisão de levar toda a sua família para o Egipto, aparentemente, sem rezar primeiro sobre o assunto, sem tentar compreender a vontade ou os caminhos do Senhor, sem Lhe perguntar o que deve fazer. Talvez tenha havido um ou mais anos de colheitas difíceis e escassas, de pouca reprodução dos seus rebanhos, de tempo sempre seco e quente, inóspito e infecundo. De qualquer das formas, Abrão vê-se rodeado de dificuldades, fica ansioso e com medo, e toma uma decisão precipitada e não desejada pelo Senhor. 

Como podemos saber que esta decisão não era da vontade do Senhor? Porque, para a realizar e justificar, Abrão vê-se "obrigado" a pecar, vê-se forçado a ser desonesto para manter a sua decisão. Os caminhos do Senhor favorecem sempre o crescimento das virtudes em nós. Os nossos caminhos, pelo contrário, tendem a favorecer um ciclo perpetuante de pecado atrás de pecado ... Abrão não mente, é verdade; Sarai, sua esposa, era realmente também sua meia-irmã, filha do mesmo pai mas de uma mãe diferente da de Abrão. Era habitual, naquela altura, que meios-irmãos se casassem, para que a família ou a tribo se conservasse e crescesse. 

Mas Abrão, em vez de actuar como chefe protector da sua família, está disposto a pecar ele próprio e a levar a sua esposa a pecar também, pedindo a Sarai que seja desonesta e que esconda uma parte importante da verdade. Na ânsia de executar os seus planos e sonhos, Abrão coloca Sarai em risco, ao permitir que esta pudesse ser livremente chamada a apresentar-se na corte do Faraó ...

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Imagem da autoria de George Hawke, traduzida e adaptada por mim

Mas, apesar dos nossos erros e dos nossos pecados, por mais pequenos ou por mais graves que sejam, o Senhor, que é rico em misericórdia, consegue sempre trazer frutos, consegue sempre trazer o bem, apesar do mal criado por nós. Apesar da sua errada decisão, Deus, na Sua infinita bondade, faz com que o Egipto se torne num local de refúgio para Abrão.

Ali, no Egipto, Abrão aperceber-se-á do seu erro e do seu pecado. Ali, no Egipto, ele voltará a encontrar-se com Deus, recordará as Suas promessas e a sua fé continuará a crescer. Ali, no Egipto, Abrão fortalecer-se-á, para depois ter a coragem de voltar para Canaã e explorar as terras que, apesar de agora estarem ocupadas por outros povos, um dia serão suas e da sua descendência - assim lhe prometeu o Senhor do Universo. 

Esta Fé, a cada dia maior, pela progressiva relação de intimidade entre o Senhor e Abrão, que o Senhor incentiva e que Abrão luta por manter, é particularmente visível no episódio da separação de Lot.

A terra não era bastante grande para nela se estabelecerem os dois, porque os bens de ambos eram avultados. Houve questões entre os pastores dos rebanhos de Abrão e os pastores dos rebanhos de Lot.
Então Abrão disse a Lot: «Peço-te que entre nós e entre os nossos pastores não haja conflitos, pois somos irmãos. 
Aí tens essa região toda diante de ti. Separemo-nos. Se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a direita, irei para a esquerda.» (Gn 13, 6-9)

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Imagem retirada daqui

Às vezes ponho-me a pensar que, à semelhança das crianças pequenas, todos temos um "ursinho de peluche", uma "fraldinha", uma "chucha", algo do qual não abdicamos e à qual nos agarramos, com unhas e dentes, em momentos de insegurança, de medo, de desconhecimento quanto ao futuro. Esses "ursinhos" ou "fraldinhas" pode ser o nosso cônjuge, os nossos pais, os nossos filhos, ou então pode ser a nossa carreira, as nossas capacidades, um talento especial, algo pelo qual somos conhecidos, o nosso estatuto na paróquia, ou pode ser a nossa casa, as nossas condições socio-económicas, a cidade em que sempre vivemos, a paz e tranquilidade da nossa vida pacata, o conforto da nossa rotina, a segurança da nossa vida bem planeada ... 

O sobrinho Lot era, permitam-me que o diga assim, o "ursinho de peluche" na vida de Abrão. "Ofereço-Te tudo Senhor, estou disposto a abdicar de tudo, tudo! Só não me tires o Lot, Senhor, que eu tanto amo ..." 

Se, com a morte do seu pai Tera em Harã, foi quebrado o vínculo de Abrão com a sua vida anterior, antes de conhecer o amor do Deus Único, a presença de Lot na sua vida era, por assim dizer, a representação dos últimos fios, das últimas fibras, que ligavam Abrão ao seu passado. Um passado conhecido e, por isso, enganadoramente seguro.

Abrão tem aqui uma bela oportunidade para demonstrar a sua experiência de vida, já adquirida por meio de erros e pecados. Ele, não só está disposto a separar-se de Lot, desapegando-se assim de toda a sua segurança anterior, como ainda o permite escolher a melhor parte daquela imensa terra que o Senhor lhe prometeu - a ele, Abrão, e não a Lot. 

Ah, agora sim Abrão - agora, estás a aprender a ser humilde, como Eu, e a abandonares-te a Mim e ao Meu amor ... 

Depois de Lot o ter deixado, Deus disse a Abrão: «Ergue os teus olhos e, do sítio em que estás, contempla o norte, o sul, o oriente e o ocidente. Toda a terra que estás a ver, dar-ta-ei, a ti e aos teus descendentes, para sempre. Farei que a tua descendência seja numerosa como o pó da terra, de modo que só se alguém puder contar o pó da terra é que a tua posteridade poderá ser contada. Levanta-te, percorre esta terra em todas as direcções, porque Eu ta darei.» (Gn 13, 14-17)

Ser capaz de abdicar de Lot representou para Abrão um importante marco na sua caminhada de Fé. Na verdade, as provas de Fé a que o Senhor nos chama, ao longo da nossa vida, não existem para que mostremos a Deus, e aos outros, como é grande e valente a nossa Fé. Servem, sim, para que nós próprios nos apercebamos de quantas maravilhas o Senhor é capaz de fazer em nós e através de nós, apesar da nossa pequenez e fragilidade.

Louvado seja Deus!

O começo da caminhada de Fé de Abraão - e da nossa!

Este post começa com um suspiro. Saído bem de dentro da minha alma. Caramba Marisa, outra vez?

Cada vez mais noto que peco por falta de Fé. A minha confiança nas promessas do Senhor flutua continuamente e a minha resposta ao Seu chamamento diário é inconstante e vacilante. As dificuldades no caminho, por mais pequenas que sejam, tornam-me insegura, fazem-me duvidar com facilidade e, muitas vezes, pecar por falta de Fé.

Oh, como gostava de ser como tal e tal santo, ou como esta e a outra figura da Bíblia, com uma Fé sempre crescente, estável, inabalável ... Eles eram todos assim, não é, firmes, constantes e inalteráveis na sua Fé, enquanto eu pareço sempre ser flutuante e instável ... Não é?

Bem ... não, Marisa. Nem por isso. Nem sempre. Nem todos.

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Imagem retirada daqui

No outro dia, ao preparar a catequese para o meu grupo do 5ºvolume, pus-me a ler com atenção a história do Abraão. Ia lendo, capítulo a capítulo, tentando conhecer com pormenor a história da sua vida, para depois a ensinar aos meninos. Eis então que me apercebo de algo: eu não (re)conheço este Abrão! 

Sempre tive tendência em pensar nesta personagem como Abraão, o nosso Pai na Fé, com uma das Fés mais fortes e resilientes da história do Cristianismo, sempre confiante nas promessas do Senhor, por mais impossíveis que elas parecessem à primeira vista. Mas, aquilo que eu ia lendo transmitiu-me, pela primeira vez na minha vida, uma imagem diferente.

O Abrão que eu lia tinha dúvidas, nem sempre acreditava nas palavras do Senhor, pecava inúmeras vezes, tomava decisões erradas, oscilava entre demonstrações de grande Fé e manifestações de medo e de tentativa de controlo do futuro com as próprias mãos e pelos próprios meios ... O Abrão que lia parecia-se, bem, comigo! E sei que contigo também. Parecia-se, aliás, connosco e com as nossas vidas de Fé flutuante. 

Apercebi-me, nesse dia, que sempre tinha pensado nesta personagem como Abraão - o santo, o "produto finalizado" pelas obras e graças do Senhor - e não tanto como Abrão - o simples homem que ouviu o chamamento do Senhor e se deixou enamorar por Ele - que foi a sua factual identidade na maior parte da sua vida. Senão vejamos ...

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Imagem da autoria de George Hawke, traduzida e adaptada por mim

Abrão tinha 75 anos quando Deus lhe falou ao coração pela primeira vez na vida (e eu que por vezes lamento ter tido uma conversão tardia). Foram 75 anos a viver como os seus antepassados, como pastores nómadas, sem rumo, sem um local para chamarem casa ou terra sua, sem pertença, sem vínculo. Mas, um dia, Abrão ouve uma voz, diferente de todas as outras, que o chama para Si: "Vem Comigo e Eu mostrar-te-ei a tua casa, o local onde pertences, a terra que Eu preparei para ti. Vem Comigo e Eu satisfarei todos os teus desejos e anseios mais profundos e íntimos. Vem Comigo, caminha Comigo, dá-Me a tua mão e deixa-te guiar por Mim, e viverás uma vida de bênçãos e graças, como nunca imaginaste ser possível ..."

Abraão não é o único "sortudo" a quem o Senhor diz e promete algo assim. Ele também o tenta dizer a mim e a ti, a cada um de nós, seus filhos tão amados. Aceitaremos parar para O escutar, como o fez Abrão? Estaremos dispostos a aceitar esta "intromissão" do Senhor nas nossas vidas, que revira os nossos planos e interesses, e nos convida a uma vida nova? Aceitaremos, tu e eu, o Seu desafio de amor?

abraao poe-se a caminho da terra prometida - Cópi

Imagem retirada daqui

Abrão responde a este primeiro chamamento da parte do Senhor e parte de Ur dos Caldeus, trazendo consigo Sarai, sua esposa, Lot, seu sobrinho, e Tera, seu pai, assim como todos os seus pertences e rebanhos (literalmente com a casa às costas!). Mas a sua Fé ainda é pequena, apesar de crescer a cada dia, e não o leva até muito longe.

Abrão pára em Harã (ou Haran), a cerca de 950km de distância de Ur dos Caldeus, a meio caminho da Terra Prometida, e começa a assentar o seu arraial, como se dissesse ao Senhor: "Olha, aqui parece-me um bom sítio, não achas? Já vim até longe o suficiente, não é? Aqui está bom. Acho que já chega de viagens, ficamos por aqui..."

Oh, quantas vezes tenho eu tido também esta atitude, à semelhança de Abrão, ao longo da minha vida?

 

A felicidade eterna que Deus nos promete, se nos confiarmos à Sua palavra e aos Seus desígnios, raramente será encontrada na razoabilidade. Deus não sabe amar assim, só o "suficiente". Nem nos chama a amar assim. É preciso dar tudo, para assim tudo receber das Suas mãos. 

O pai de Abrão, Tera, morre precisamente em Harã. A ligação mais carnal e visceral de Abrão com o seu passado é, assim, quebrada, perdida. Isto serviu-lhe de sinal, para que compreendesse que estava na altura de continuar o caminho. 

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Imagem retirada daqui

O Senhor disse a Abrão: «Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos.» (Gn 12, 1-2)

Num momento de dor, Abrão volta-se para o Senhor e deixa-se confortar por Ele. Deus é o amigo que está sempre disponível para nos ouvir, para nos confortar, para nos apoiar, como Abrão descobrirá ao longo da sua longa vida. Há um novo diálogo íntimo entre Deus e Abrão, que volta a fazer crescer a sua Fé e a confiança nas promessas do Senhor. Desta vez, já é capaz de fazer todo o caminho até à Terra Prometida, em Canaã, a 1700 km de distância de Ur dos Caldeus. 

 

Em Canaã, voltam a surgir dificuldades, o que parece abalar novamente a Fé de Abrão, colocando-o com dúvidas e receios. Ele apercebe-se que a Terra Prometida já se encontra ocupada por um povo forte e guerreiro, o povo cananeu. E, além disso, surge uma grande fome naquela região. Quase que o oiço dizer ao Senhor: "Não era suposto teres-me prometido uma terra que eu pudesse chamar minha? E uma terra abençoada por Ti, rica e farta e saciante? Então, de onde vêem tantas dificuldades?"

A fuga para o Egipto antecipa, sem Abrão se aperceber, a fuga dos seus descendentes - Jacob, seu neto, José e os seus 11 irmãos, seus bisnetos, e das suas famílias - que acontecerá anos mais tarde, como irá ser contada nos últimos capítulos do livro do Génesis. Desta forma, Abrão mostra-nos, pela primeira vez na Bíblia, como o Egipto é uma terra que oferece refúgio e crescimento, tal como fará várias vezes ao longo da história do povo numeroso que está prestes a ser formado pela Fé crescente, apesar de vacilante, de Abrão.