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Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

A "Passagem" do Amor

Queridos leitores, queridos amigos

Começo a pensar que digo o mesmo todos os anos (apesar de ainda só ter vivo 6 Quaresmas na minha vida), mas digo-vos com toda a sinceridade que a Quaresma deste ano tem sido, sem qualquer sombra de dúvida, a Quaresma mais difícil e excruciante de que me lembro de viver ... As razões são mais que muitas, as consequências e implicações, então, são ainda mais numerosas. Mas a causa ... a causa é só uma, vim eu a descobrir - o meu orgulho, a minha soberba.

 

Ao ler algumas reflexões de outras pessoas sobre esta Quaresma, tão particular e única, notei que muitas partilhavam o quanto esta Quaresma lhes ensinou a ouvir - a voz do Senhor e a voz dos irmãos. Bem, para mim, tendo sido uma Quaresma que me tem ensinado não só a ouvir mas também a ver ... eu, que tão, tão cega andava ... À semelhança do cego de Betsaida, que Jesus chama de parte, tomando-o pela mão para longe da cidade, para aí conversar com ele e curá-lo através da graça que provém da Palavra da Sua boca... 

Chegaram a Betsaida e trouxeram-lhe um cego, pedindo-lhe que o tocasse. Jesus tomou-o pela mão e conduziu-o para fora da aldeia. Deitou-lhe saliva nos olhos, impôs-lhe as mãos e perguntou: «Vês alguma coisa?». Ele ergueu os olhos e respondeu: «Vejo os homens; vejo-os como árvores a andar». Em seguida, Jesus impôs-lhe outra vez as mãos sobre os olhos, ele começou a ver e ficou curado. 

Mc 8,23-25

 

Sei que este ano a Igreja nos chama a ler o Evangelho de São Mateus, mas eu tenho sentido uma necessidade inexplicável de ler o Evangelho de São João e é sobre algumas passagens deste Evangelho que gostava de ir partilhando convosco ao longo destes dias - talvez sejam umas reflexões um pouco soltas e um pouco atrasadas em relação ao programa litúrgico, eu sei, mas sei também que para a graça actuante do Senhor não existe tarde demais ... 

 

Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a Sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os Seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.

Jo 13,1

A festa judaica da Páscoa celebrava a saída e libertação do povo hebraico das terras do Egipto, passando da condição de escravos para filhos livres do Senhor. Agora - sim, agora - em que vivemos o pleno cumprimento de todas as Escrituras através de Jesus, é chegada a hora da "passagem" de Jesus, a hora do amor "até ao fim". Realmente, se pensarmos bem, o amor é um processo de transformação, em que cada um é chamado a sair de si mesmo e dos seus limites humanos, para chegar até ao ente amado, ao irmão, ao Senhor. Para amarmos como Jesus, é preciso estarmos dispostos a fazer - e a sofrer, sim, porque dói - esta passagem, esta transformação...

Para que o amor pelo irmão e pelo Senhor cresça no nosso coração (e na nossa vida), é preciso fazer espaço, é preciso criar espaço dentro dos nossos corações. Como? Pois, essa é a parte dolorosa, porque a resposta é só uma - esvaziando-nos de nós próprios, esvaziando-nos do amor que temos por nós próprios, despojando-nos do nosso querer, do nosso egoísmo ...

lava-pes.jpg

Imagem retirada daqui

Jesus, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que pôs à cintura. Depois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura.

Jo 13, 3-5

Chegou a "hora" de Jesus, a hora do amor, perfeito, total, profundo, radical; chegou a hora de passar deste mundo para o Pai. Como vive Jesus essa hora de passagem, de mudança? Em pleno serviço, em pleno despojamento de Si mesmo ... 

Por amor à ovelha perdida e presa no pecado, por amor a mim, por amor a ti, Jesus saiu de junto de Deus Pai, e desceu até nós, assumindo a nossa condição humana. Nisto consiste o amor - sair de nós mesmos para alcançar o outro que amamos, descendo o que for preciso, abaixando-nos, humilhando-nos, até chegarmos junto do ser amado. 

Num gesto completamente contrário ao de Adão no jardim do Éden (e à minha própria acção, diária, aliás, inúmeras vezes ao longo do dia...), que tentou apoderar-se do que era divino pela sua própria vontade e através das suas próprias forças, Jesus esvazia-se de Si mesmo, colocando-se na posição de escravo e servo; retirando o Seu manto, despojando-se de todo o Seu esplendor divino; Jesus ajoelha-se diante de cada um de nós, lavando e enxugando os nossos pés sujos ... 

Jesus desceu do Céu, de certa forma, sozinho. Mas já não regressará para junto de Deus Pai sozinho. Levar-nos-á, a todos, com Ele, para o Céu, para o Reino de amor que Deus tanto anseia por nos oferecer - para todo o sempre! 

 

O amor Agape, o amor Filia e a transformação de Pedro

  †   Peregrinação: do EGIPTO à TERRA SANTA ~  2019   †  

 ~  Egipto - Jordânia - Israel - Palestina  ~ 

 

Permanecemos um pouco mais nesta praia em Tagba, no sopé do Monte das Bem-Aventuranças, para ouvirmos e meditarmos noutro episódio que os Evangelhos nos contam e que também aconteceu aqui.

 

Jesus Ressuscitado tinha aparecido aos Apóstolos nesta praia, depois duma noite de pesca infrutífera. Estavam a perder o rumo, a viver uma autêntica "noite escura da alma" - como séculos mais tarde São João da Cruz nos explicaria tão bem. Parecia que Deus os tinha abandonado e toda a esperança tinha desvanecido ... 

Jesus renova as suas forças e a sua fé oferecendo-lhes uma refeição, preparada com todo o Seu amor - tal como ainda hoje o deseja fazer, a cada um de nós, sempre que participamos na Santa Missa. Nutridos com este verdadeiro alimento - o corpo e sangue do próprio Deus - está na altura dos Apóstolos se porem a caminho; está na altura de partirem em missão; está na altura de responder com coragem à vocação a que o Senhor os chama ... 

Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro:

     «Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?»

Pedro respondeu:

     «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo.»

Jesus disse-lhe:

     «Apascenta as minhas ovelhas.»

                                                                                                                        Jo 21,15

                                                                                                         (versão da Bíblia dos Capuchinhos)

Simão, tu amas-Me

Também a nós Jesus faz essa pergunta ... Marisa, tu amas-Me? Mais que qualquer outra pessoa? Acima de tudo?

 

Outras traduções da Bíblia (mais correctas a meu ver) dizem-nos que a resposta de Simão Pedro foi: 

                    Sim, Senhor, Tu sabes que eu gosto muito de Ti ...

Tal como Pedro, também eu desejava poder dizer - Sim, Senhor, Tu sabes que eu Te amo ... mas, na verdade, ainda só sou capaz de responder - Sim, Senhor, Tu sabes que eu gosto muito de Ti ...

 

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A praia junto da Mensa Christi e do local do Primado de Pedro

 

Ao ouvir esta passagem do Evangelho de São João, na Terra Santa, lembro-me imediatamente duma homilia que tinha ouvido alguns meses antes e dum pequeno (grande!) livro de C.S. Lewis, chamado "Os quatros amores".

O Sr. Padre tinha-nos explicado que, nos textos originais dos Evangelhos, escritos em grego, o verbo utilizado na primeira pergunta de Jesus a Pedro tinha sido a conjugação do verbo Agape

Para quem não estiver familiarizado com a palavra, o amor Agape é o nome que os primeiros cristãos encontraram para nomear o infinito e imerecido amor de Deus por cada um de nós. O amor Agape é o amor mais inteiro, mais completo. É um amor absolutamente desinteressado de si próprio e livre - livre para amar e servir o outro. Aquilo que o amor Agape mais deseja - ou, melhor dizendo, a pulsão irresistível que sente, impossível de conter ou dominar - é o doar-se, totalmente, ao outro. O amor Agape é o amor que deseja dar a vida pelo outro, que dá (e dá-se) sem medida, que dá (e dá-se) sem condições. É um amor completamente desmedido e incondicional. E este é o amor que Deus tem por cada um de nós.... 

 

Pedro responde à pergunta de Jesus - Pedro, tu amas-Me - com um amor Agape? - conjugando um verbo diferente, um diferente tipo de amor - Filia

O amor Filia é o nome do amor de amizade. É o amor que "gosta muito" do outro. É um amor em que se sente grande alegria e prazer e bem-estar ao estar junto do outro, ao estar com o outro. É, contudo, um amor que exige uma cerca correspondência e reciprocidade da parte do outro. No fundo, o amor Filia é, digamos assim, um nível mais baixo, mais inferior de amor, do que o amor Agape (assumindo que este seja o amor mais completo)

 

Nós sabemos - explicou-nos o Sr. Padre - que o diálogo entre Jesus e Pedro não foi na língua grega, mas sim aramaica. Contudo, São João, como é seu hábito, não deixou passar esta oportunidade para dar uma belíssima e profundíssima lição de catequese. São João faz questão de apontar a diferença entre o amor de Jesus e o amor de Pedro. 

Jesus pergunta a Pedro - Pedro, tu amas-Me com todo o teu coração? Com um amor totalmente desinteressado, livre, desmedido, de pura auto-doação? 

E Pedro responde, sendo absolutamente franco e honesto - tal como nós já conhecemos que S. Pedro era - respondendo que amava Jesus sim, mas ainda duma forma incompleta...

 

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Praia em Tagba - Foto tirada por outro peregrino - obrigado pela partilha!

Alguém reparou que as rochas grandes desta praia pareciam que tinham o formato de corações? Oh, quão adequado!!

[Jesus] voltou a perguntar-lhe uma segunda vez:

     «Simão, filho de João, tu amas-me

Ele respondeu:

     «Sim, Senhor, Tu sabes que eu sou deveras teu amigo

Jesus disse-lhe:

     «Apascenta as minhas ovelhas.»

                                                                                                 Jo 21, 16

 

Pela segunda vez, Jesus pergunta a Pedro se este O ama, conjugando o verbo Agape.

Pela segunda vez, Pedro responde que sim mas empregando o verbo Filia. Pedro conhece-se - e bem! Ainda há uns meros dias atrás, Pedro tinha prometido a Jesus, à frente de todos os que quisessem ouvir, que O amava de todo o coração, que permaneceria e O seguiria para onde quer que fosse, custasse o que custasse ... para, após uma única noite de susto e medo, na noite em que Jesus foi preso e acusado, ser capaz de O negar - não uma, não duas, mas três vezes ...

Mas Pedro, agora, conhece-se e bem; a experiência da vida transformou-o e, por isso, já nem tenta responder a Jesus - quer publicamente, quer no íntimo do seu coração - com o mesmo grau de amor que Este demonstrou ter por si. As provas são evidentes. Pedro gostava muito, oh mesmo muito, de amar Jesus tal como Ele o ama a si. Mas ainda não consegue. Ainda ... 

 

Reparem também que, ao responder a Jesus, Pedro não começa a sua resposta dizendo logo - Senhor, eu gosto muito de ti ... - mas sim - Senhor, Tu sabes que eu gosto muito de ti ... 

Pedro ama Jesus com todo o amor que tem e consegue, com todo o amor que o seu finito e humano coração lhe permite. Mas aqui continuamos a observar outra transformação de Pedro - sempre tão constantes ao longo de todo o Novo Testamento como, assim o espero e desejo, as sejam na minha vida, na tua vida, na nossa vida...

Assim, Pedro diz: Tu, Senhor, conheces o meu coração. Conheces o quanto eu desejava amar-Te, mas não consigo - ainda. E a principal razão é que - Senhor, agora vejo e reconheço finalmente - todo o amor que existe, vem de Ti. Eu sou incapaz de saber apreciar este amor imenso - Agape - que Tu tens por mim. E eu sou absolutamente incapaz de amar assim, tal como Tu. Mas se Tu quiseres, Senhor, poderás transformar-me, uma vez mais. A Tua graça é suficiente. Porque Tu és a fonte de todo o amor! Porque todo o amor vem de Ti!

 

E [Jesus] perguntou-lhe, pela terceira vez:

     «Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo?»  (ou então - Simão, tu gostas muito de mim?)

Pedro ficou triste por Jesus lhe ter perguntado, à terceira vez: ‘Tu és deveras meu amigo?’ Mas respondeu-lhe:

     «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo!»  (ou então - Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que eu gosto muito de Ti)

E Jesus disse-lhe: «Apascenta as minhas ovelhas.

Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo atavas o cinto e ias para onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há-de atar o cinto e levar para onde não queres.» 

E disse isto para indicar o género de morte com que ele havia de dar glória a Deus.

Depois destas palavras, acrescentou: «Segue-me!»

                                                                                                                                        Jo 21,17-23

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Disse-lhe Jesus: Alimenta, apascenta, cuida das minhas ovelhas.

Toma o teu cajado. Sê o seu pastor aqui na terra, a partir deste momento. Sê o seu primeiro Papa ...

 

À terceira vez, Jesus faz a pergunta conjugando, desta vez, o verbo Filia....

Jesus aceita "descer" ao nível do amor - actual - de Pedro. O amor Agape faz continuamente isto - sempre que for necessário, baixa a fasquia para chegar ao outro, para estar ao mesmo nível do outro, para caminhar ao ritmo do outro. O amor Agape é assim tão grande que é capaz de fazer isto - e com toda a simplicidade e naturalidade que o caracteriza. 

Jesus muda a pergunta, visto que Pedro ainda não é capaz de mudar a sua resposta. Jesus continua o Seu diálogo de amor com Pedro - e com cada um de nós - deixando de pedir um amor que Pedro ainda não é capaz de dar. Ainda...

 

Segue-Me. Acompanha-Me. Não tenhas medo. Vem comigo.

Não olhes para a fragilidade e finitude do teu coração e das tuas capacidades.

Vem, segue-Me, acompanha-Me.

Se aceitares, se tiveres coragem, tempos virão, Pedro (ou Marisa, Ana, Maria, João, António ...), onde então sim, serás capaz de amar, de amar-Me e, por conseguinte, aos irmãos - com um verdadeiro amor Agape. 

 

Que assim seja Jesus! Amén

 

  †   Peregrinação: do EGIPTO à TERRA SANTA ~  2019   †  

 ~  Egipto - Jordânia - Israel - Palestina  ~ 

Na Terra Prometida

  †   Peregrinação: do EGIPTO à TERRA SANTA ~  2019   †  

 ~  Egipto - Jordânia - Israel - Palestina  ~ 

 

Não posso acreditar! Estou na Terra Santa! Estou mesmo na Terra Prometida!!

Oh, que dom tão grande de Deus!...

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A entrada em Nazaré

Reco­nhe­cei, de todo o vosso coração e de toda a vossa alma, que, de quantas pro­mes­sas vos fez o Senhor vosso Deus, nem uma só ficou sem efeito: todas se cumpriram, sem falhar ne­nhuma.

Josué 23,14b

 

O tempo de Deus é perfeito, absolutamente perfeito... E não existe uma única promessa que Ele tenha feito, ao longo de toda a nossa história (e História também), que Ele não tenha cumprido ou que não venha a cumprir. Não, não existe uma única que seja, por maior ou menor que tenha sido ...

Estes 6 longos dias de viagem entre as terras do Egipto e da Jordânia só conseguiram inflamar ainda mais, dentro do mim, a minha vontade de chegar à Terra Prometida, onde abundaria leite e mel, graças e bênçãos, amor e felicidade eternas ...

Apercebo-me, ao atravessarmos a última fronteira e ao entrarmos em Nazaré, enquanto as lágrimas abundantes escorrem pelo meu rosto e se misturam com o meu sorriso aberto, o quanto desejo chegar à Terra Prometida - não tanto esta, feita de terra e plantas, animais e pessoas; mas Aquela, oh, Aquela cidade maravilhosa que Deus prometeu a cada um de nós, onde viveremos, para todo o sempre, em plena comunhão de Amor ...

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Nazaré

Dei-vos uma terra que não la­vrastes, cidades que não edi­fi­castes e que agora habitais, vinhas e oliveiras que não plantas­tes e de cujos frutos vos alimentais.

Josué 24,13

Que Deus é Este, que oferece - que Se oferece - a cada um de nós, com tantas e tantas bênçãos e graças e dons, todas elas absolutamente imerecidas e inalcançáveis...

Que Deus é Este, Todo Poderoso, capaz de criar o céu e a terra, as montanhas e as flores, as células e as moléculas, o som e a luz - por amor a cada um de nós, para nos oferecer estas maravilhas, para que, através delas, O possamos conhecer e amar...

Que Deus é Este, que apesar da nossa infidelidade, ingratidão e abandono - todos os dias, a quase todo o instante - decidiu um dia tornar-Se num indefeso embrião, susceptível, dependente, necessitado, para que, talvez assim, O possamos então amar e deixar que Ele nos ame...

Que Deus é Este, mais valente e corajoso que qualquer herói desta terra ou das histórias dos livros, que arrisca tudo, que oferece tudo, que sacrifica tudo - que Se sacrifica na totalidade - apenas por amor a mim e a ti, apenas para que tu e eu possamos viver ...

Que Deus é Este, que ainda hoje, em todos os cantos desta terra, Se esconde, Se reduz, Se tritura, Se oferece, sob a forma duma pequena hóstia, simples farinha e água, para que nenhum de nós fuja com medo deste Amor tão grande e louco e forte, e para que, assim, possa entrar dentro de nós, nutrindo-nos e alimentando-nos, tornando-Se parte do nosso próprio corpo, e iniciando assim a nossa Comunhão eterna de Amor ...

 

Partilho convosco outra canção da querida Danielle Rose, que tantas vezes ressoou na minha cabeça durante esta viagem ...

A Love Song From Jesus

Based on Luke 22:14-20, and the Song of Solomon
From the perspective of Jesus the Lover

 

All I want to do is fall in love with you.
May I call you my Beloved?
You do not know how strong my love is yet.

Hold me in your hands.
Kiss me with your lips.
Enter into love’s communion

In this Eucharist

 

You have never known a love like this
Do you thirst inside?
And my desire is to share this love.
My passion will never die.

Hold me in your hands.
Kiss me with your lips.
Enter into love’s communion

In this Eucharist.

 

And what if you do not love me in return?
I will be standing here alone,
With my blood beating in my broken heart,
My body broken with love.

Hold me in your hands.
Kiss me with your lips.
Enter into love’s communion

In this Eucharist

 

I give you my Blood.
I give you my Body.
I give you all of my love.
Will you take this gift,
Or have I not given enough?

Uma canção de amor de Jesus
Com base em Lucas 22:14-20 e no Cântico de Salomão
Do ponto de vista de Jesus, o Amado

 

Tudo o que Eu quero é apaixonar-Me por ti
Posso chamar-te minha Amada?
Tu ainda não sabes o quão forte é o Meu amor

Segura-Me nas tuas mãos
Beija-Me com os teu lábios
Entra nesta comunhão de amor

Nesta Eucaristia

 

Tu nunca conheceste um amor como este
Tens sede por dentro?
E o Meu desejo é partilhar este amor
A Minha paixão nunca morrerá

Segura-Me nas tuas mãos
Beija-Me com os teu lábios
Entra nesta comunhão de amor

Nesta Eucaristia

 

E se tu não Me amares de volta?
Eu permanecerei aqui sozinho,
Com o Meu sangue a bater dentro do Meu coração partido,
O Meu corpo partido por amor

Segura-Me nas tuas mãos
Beija-Me com os teu lábios
Entra nesta comunhão de amor

Nesta Eucaristia

 

Eu ofereço-te o Meu sangue
Eu ofereço-te o Meu corpo
Eu ofereço-te todo o Meu amor
Vais aceitar este presente
Ou será que não te dei o suficiente?

 

É Domingo, dia do Senhor, dia do Amor!

Venham ter com Ele, na Santa Eucaristia, e deixem que Ele vos encha com o Seu tremendo Amor ...

 

  †   Peregrinação: do EGIPTO à TERRA SANTA ~  2019   †  

 ~  Egipto - Jordânia - Israel - Palestina  ~ 

Lições de humildade ...

O Senhor levou-me a viver inúmeras aventuras, com Ele, neste ano de 2018, ano esse que agora termina para dar lugar a um novo ano - cheio de possibilidades, oportunidades, sonhos, conquistas e lições ....

 

Neste ano de 2018, iniciei a minha profissão como médica, passando por diversos serviços e áreas, passando da teoria abstrata, impessoal e indiferente para a prática real, imperfeita, humana, personalizada. Agora, neste ano de 2019, iniciarei a minha formação específica para me tornar médica de família, um processo que será, sem dúvida, díficil e muito trabalhoso, e que durará pelo menos 4 anos ...

Neste ano de 2018, consolidei a minha vocação como catequista na minha paróquia, oferecendo-me verdadeiramente de corpo e alma, aceitando (uns dias melhores que outros) todas as contrariedades e dificuldades que foram surgindo pelo caminho, e aceitando desafios que outrora jamais teria tido a coragem de o fazer ...

Neste ano de 2018, assumi publicamente (no meu coração, já o tinha feito há muito tempo...) o meu compromisso com o movimento das Famílias de Caná, após um (demasiado longo) período de discernimento acerca do meu papel, como leiga solteira, dentro do movimento, e assim tornei-me numa activa Jovem de Caná - à semelhança de Nossa Senhora quando ainda solteira....

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Neste ano de 2018, passei também por um intenso processo de discernimento vocacional, após ter aumentado, a passinhos de bebé (mas sempre aumentando, graças a Deus!), a minha vida de oração, e agora encontro-me num estado de maior claridade, desapego e entrega à vontade de Deus para a minha vida ...  

Por fim, neste ano de 2018, tomei a difícil e custosa decisão de sair da casa dos meus pais, para vir viver sozinha numa casinha, bem juntinho da casa de Jesus, e, com esta última decisão, as pequenas portas e janelas que ainda pudessem estar a impedir a ação do Espírito Santo, foram finalmente escancaradas e plenamente abertas às Suas infinitas Graças (até ao dia em que eu voltar a fechar alguma, novamente - convosco também é assim?)

 

Houve, sem dúvida, outros acontecimentos marcantes e significantes que podia referir, mas penso que estes servirão para explicar, pelo menos em parte, como cheguei às pequenas reflexões que hoje queria partilhar convosco. São anotações soltas que eu fui escrevendo ao longo do ano, no meu caderno espiritual. Todas elas partiram de situações difíceis, em que o meu orgulho e egoísmo desmedidos tiveram de morrer (aos bocadinhos, claro) - autênticas lições de humildade que Deus, tão carinhosa e pacientemente, me tem vindo a ensinar....

 

~

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O ano de 2018, para mim, podia ter perfeitamente como tema e título - "Crescer em intimidade com Deus": crescer mesmo quando custa e dói, sem medo das mudanças, das transformações, daquilo que se perde e que tem de morrer, para algo melhor e mais santo poder germinar, nascer, crescer e florir; intimidade - um dos desejos mais profundos do nosso coração - com Deus, por Deus, em Deus ...

 

~

 

Neste ano, compreendi finalmente (de coração) que o nome que melhor revela a vocação da mulher é maternidade, é ser mãe; e que o verbo que melhor define a vocação da mulher é receber e estar sempre aberta à vida ... Esta vocação está profundamente enraizada no nosso coração, por mais que a neguemos ou tentemos fugir dela, e apenas encontraremos a felicidade verdadeira, plena, permanente, eterna e inalterável, independentemente das circunstâncias da vida, se a aceitarmos de braços abertos - à semelhança de Maria.

 

~

 

Neste ano, descobri que um dos maiores desejos do meu coração é receber Aquele que mais quero amar, Aquele que mais me ama, Aquele que é o amor, Aquele que é o meu Amado ...

Receber é uma palavra maravilhosa e divina, mas também é uma palavra difícil e muito exigente. Para eu poder receber, tenho de estar disposta a ser e estar vulnerável - oh, a vulnerabilidade de receber! - tenho de admitir e aceitar que tenho uma necessidade, que algo me falta, de que preciso de algo que não tenho e que não sou capaz ... Admitir e aceitar isto, pode ser assustador ao princípio, pode deixar-nos com medo e fazer-nos sentir ansiedade - e o mundo de hoje tem tantas formas apelativas de nos afastar desta realidade e de nos fazer esquecer estes sentimentos que, ao contrário do que popular e socialmente se propaga, não nos faz mal nenhum, antes pelo contrário - dá-nos vida e felicidade!

 

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O que significa intimidade, Senhor? O que significa ser íntimo de alguém, mas especialmente de Ti?

É sentir-se plenamente "em casa" na presença de alguém. É aceitar ser-se perfeita, total e completamente conhecida tal como sou - cheia de vícios, defeitos e pecados, cheia de feridas abertas e outras em resolução, "cheia" de espaços vazios e de pedaços que faltam - e, ainda assim, aceitar ser-se amada ... por aquele Amor louco e infinito de Deus que, tal como um dilúvio, é capaz de nos encher até transbordar, de inundar completamente todos os buracos e espaços vazios, de limpar todas as feridas, de remover todas as minhas manchas e sujidades e de santificar e purificar todos os meus desejos ... Intimidade significa eu poder ser, livremente, quem sou - sem máscaras, sem medos, sem sentir necessidade de ser aprovada, nem de conseguir ser ou fazer algo ... para ser amada.

 

~

 

Mas, como se chega a essa intimidade - conTigo? Como podemos nos tornar íntimos?

Para se ser íntimo, é necessário confiar no outro. Em que se baseia a confiança?

Em promessas realizadas. Num amor que tenha sido comprovado e testado, que tenha sido posto à prova no fogo, por diversas vezes, e ainda assim subsistir - e até aumentar de intensidade - apenas um amor assim pode chegar a esse nível de intimidade que eu tanto desejo .... E, na minha vida, Deus já me deu mais do que provas suficientes do Seu amor....

 

~

 

É realmente um dos desejos mais profundos do nosso coração ser-se conhecido e amado: é alguém conhecer toda a nossa história de vida, todo o nosso ser e, ainda assim, aceitar-nos e amar-nos. 

 

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Se tivermos a coragem de olhar para o mais profundo do nosso coração, descobriremos que desejamos ser intimamente conhecidos; que desejamos permitir que possamos ser vistos, conhecidos e admirados; que desejamos permitir ser acarinhados e amados....

O maior desejo de Jesus (por inúmeras vezes e por inúmeras vozes Ele nos disse isto!) é oferecer-nos o Seu amor, é satisfazer e realizar todos estes nossos desejos mais profundos ... porque não O permitimos de vez?

Porque ainda tento eu fazer coisas, ser assim ou assado e, desta forma, "provar" a Deus que mereço o Seu amor...? Quem penso eu que sou? Merecer o amor de Deus? Como se fosse possível ... que heresia! Que pecado tão grande! Afinal, quem é para mim Jesus?....

 

~

 

 

Olho para Jesus na cruz - um dia, li algures que a cruz é o leito matrimonial de Jesus. Sim, leito matrimonial ...

Ali, Jesus encontra-se nu e sem qualquer proteção. Nada possui. Está completamente vulnerável e sem qualquer segurança a que se agarrar. Ali está Jesus - pregado, aberto, indefeso, vulnerável ... 

E o Seu maior desejo é tornar-se Um connosco. É abraçar os nossos medos, inseguranças, traumas e dores. É amar-nos completa e infinitamente....

Jesus, na cruz, não se preocupa em proteger-se a Si mesmo - o que apenas deseja é oferecer-se a Si mesmo, é entregar-se - por nós ...

 

Amar ~ Oferecer ~ Receber ~ Confiar ~ Amar

 

 

"Bendiz o Senhor, ó minha alma.

A minha única alegria encontra-se no Senhor.

Ao Senhor, glória eterna! Aleluia!"

Salmo 103

 

Um abençoado ano novo para todos! Que aceitem o convite de Deus, para crescerem em intimidade com Ele, ao longo deste ano ...

Única e insubstituível ....

Já não sei quantas vezes li o primeiro capítulo do livro do Genésis (dez? quinze vezes?), que nos relata a belíssima história, cheia de poesia e de simbolismo, da criação do mundo e do homem, a maior maravilha que Deus alguma vez podia ter criado … Contudo, um dia destes, ao lê-la de novo, parecia que a estava ler pela primeira vez, tal foi a admiração, o encanto e deslumbramento daquilo que “li”, pela graça do Espírito Santo …

 

Será que nos apercebemos, realmente, o quanto Deus nos desejou e amou, desde o princípio do mundo?

Será que nos apercebemos, realmente, de todo o cuidado, carinho e amor Deus colocou ao desenhar cada pequena característica de cada um de nós?

Será que nos apercebemos, realmente, do quanto cada um de nós é especialmente único e insubstituível? Não apenas em relação às nossas características, mas também a nível do nosso papel absolutamente irrepetível, excepcional, único, no belo e imenso divino plano, que Deus sonhou para toda a humanidade, por toda a eternidade?

 

Ouçam então comigo - o nosso grande e eterno Amado a falar-nos ao coração ….

 

“No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo” Gn 1,1-2

 

Quando Eu pensei num mundo sem ti, oh como era profunda a escuridão que o envolvia, como a terra era informe e vazia …

 

“Deus disse: «Reúnam-se as águas que estão debaixo dos céus, num único lugar, a fim de aparecer a terra seca.» E assim aconteceu.” Gn 1,9

 

Quando Eu pensei num mundo sem ti, os Céus começaram a chorar, de tal maneira que os oceanos nasceram ….

 

Não, de modo nenhum! Um mundo sem ti não era possível existir …

 

“Deus disse: «Faça-se a luz.» E a luz foi feita.” Gn 1,3

 

Ao som do teu nome, Eu criei a luz que apenas a tua alma podia conter, o reflexo da Minha luz que apenas à tua alma pertence, que apenas tu podes reflectir desta forma …

 

“Depois, Deus disse: «Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança (…) Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher.” Gn 1,26-27

 

Eu te criei, única, irrepetível – nunca ninguém foi como tu, nunca ninguém será.

A história da tua alma, única, irrepetível, tem uma importância inigualável na história deste mundo, por toda a eternidade …

 

“Deus, vendo toda a Sua obra, considerou-a muito boa.” Gn 1,31

 

Quando Eu completei a Minha obra – tu – em toda a tua beleza, complexidade e profundidade … não podia haver mais palavras para descrever o Meu êxtase …

 

“Assim foram terminados os céus e a Terra e todo o seu conjunto. Concluída, no sétimo dia, toda a obra que tinha feito, Deus repousou, no sétimo dia, de todo o trabalho por Ele realizado.” Gn 2,1

 

A tua alma, minha Amada, é o sabat que eu escolhi para repousar …

 

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Mas isto ainda não era o suficiente – o Meu amor não conhece fim, é eterno, infinito, imensurável, interminável e jamais poderá mudar …

 

Quando Eu pensei num Céu sem ti, por causa do teu pecado… não, não, NÂO! Eu não poderia suportar a dor de te perder!...

Então Eu enviei até ti o Meu Filho, como prova e sacrifício do Meu infinito amor, de forma a garantir que, se tu assim aceitares, possas viver Comigo em comunhão do mais puro amor para sempre …

 

Queridos amigos, alegrem-se comigo: o Senhor abençoou-me abundantemente, oferecendo-me hoje o início do meu 25º ano de vida nesta terra!

Que, pela Sua graça, eu passe cada momento do próximo ano a espalhar esta Boa-Nova: Deus amou-nos de tal forma que nos enviou o Seu Filho para nos salvar da corrupção destruidora do pecado, a fim de nos unir a Ele, em pura comunhão de amor, para todo o sempre! Amén!

Oh férias ....

Estou por estes dias numa pequena aldeia perdida na serra, perto de Lamego, tal como todos os anos.

Um autêntico paraíso na terra, duma beleza e simplicidade sem igual - tudo o que é preciso está aqui: família, natureza e Deus. Não falta nada...

 

Lamego

 

É altura de estar - com a família que tanto se ama mas que só se pode ver uma vez por ano, e na presença de Deus ...

É altura de ser - o braço direito da mãe, a prima mais velha e conselheira, a que está sempre disposta a ajudar e a servir....

É altura de ouvir - as aventuras e os desabafos do ano que passou, o barulho encantador de todos os animais da quinta, os sinos da pequena igreja a tocar a canção de Fátima a cada meia hora, lembrando-nos continuamente de rezar e de agradecer....

É altura de rir - muito, muito, muito, todos juntos ...

É altura de ver - toda a beleza que nos rodeia, com os nossos olhos, sim, mas também com o coração...

É altura de perdoar - aqueles que convivem comigo todos os dias (e ui! que difícil) mas também a mim mesma (o que ainda é mais difícil)...

É altura de alimentar - escolhendo fazer os pratos que cada um mais gosta, dando a beber o cálice da paz de Cristo....

É altura de dar, de nos dar, de oferecer o melhor que temos, de partilhar e de aceitar...

 

 

É a altura ideal para nos apaixonar de novo ... pelo nosso verdadeiro e eterno Amor

 

"És grande, Senhor e infinitamente digno de ser louvado; grande é teu poder, e incomensurável tua Sabedoria. E o homem, pequena parte de tua criação (...), partícula de tua criação, deseja louvar-te. Tu mesmo que incitas ao deleite no teu louvor, porque nos fizeste para ti, e nosso coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso."

 

"Como invocarei meu Deus, meu Deus e meu Senhor, se ao invocá-lo o faria certamente dentro de mim? E que lugar há em mim para receber o meu Deus, por onde Deus desça a mim, o Deus que fez o céu e a terra? Senhor, haverá em mim algum espaço que te possa conter? Acaso te contêm o céu e a terra, que tu criaste, e dentro dos quais também criaste a mim? Será, talvez, pelo fato de nada do que existe sem Ti, que todas as coisas te contêm?

E, assim, se existo, que motivo pode haver para Te pedir que venhas a mim, já que não existiria se em mim não habitásseis? (...) Eu nada seria, meu Deus, nada seria em absoluto se não estivesses em mim; talvez seria melhor dizer que eu não existiria de modo algum se não estivesse em ti, de quem, por quem e em quem existem todas as coisas?

Assim é, Senhor, assim é. Como, pois, posso  chamar-te se já estou em ti, ou de onde hás de vir a mim, ou a que parte do céu ou da terra me hei de recolher, para que ali venha a mim o meu Deus, ele que disse: Eu encho o céu e a terra?"

 

"Porventura o céu e a terra te contêm, porque os enches? Ou será melhor dizer que os enches, mas que ainda resta alguma parte de ti, já que eles não te podem conter? E onde estenderás isso que sobra de ti, depois de cheios o céu e a terra? Mas será necessário que sejas contido em algum lugar, tu que conténs todas as coisas, visto que as que enches as ocupas contendo-as?

Porque não são os vasos cheios de ti que te tornam estável, já que, quando se quebrarem, tu não te derramarás; e quando te derramas sobre nós, isso não o fazes porque cais, mas porque nos levantas, nem porque te dispersas, mas porque nos recolhes.
No entanto, todas as coisas que enches, enche-as todas com todo o teu ser; ou talvez, por não te poderem conter totalmente todas as coisas, contêm apenas parte de ti? E essa parte de ti as contêm todas ao mesmo tempo, ou cada uma a sua, as maiores a maior parte, e as menores a menor parte? Mas haverá em ti partes maiores e partes menores? Acaso não estás todo em todas as partes, sem que haja coisa alguma que te contenha totalmente?"

 

"Que és, portanto, ó meu Deus? (...) Tao oculto e tão presente, formosíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível; imutável, mudando todas as coisas; nunca novo e nunca velho; renovador de todas as coisas, conduzindo à ruína os soberbos sem que eles o saibam; sempre agindo e sempre repouso; sempre sustentando, enchendo e protegendo; sempre criando, nutrindo e aperfeiçoando, sempre buscando, ainda que nada te falte.
Amas sem paixão; tens zelos, e estás tranqüilo; te arrependes, e não tens dor; te iras, e continuas calmo; mudas de obra, mas não de resolução; recebes o que encontras, e nunca perdeste nada; não és avaro, e exiges lucro. A ti oferecemos tudo, para que sejas nosso devedor; porém, quem terá algo que não seja teu, pois, pagas dívidas que a ninguém deves, e perdoas dívidas sem que nada percas com isso?
E que é o que até aqui dissemos, meu Deus, minha vida, minha doçura santa, ou que poderá alguém dizer quando fala de ti?"

 

"Quem me dera descansar em ti! Quem me dera que viesses a meu coração e que o embriagasses, para que eu me esqueça de minhas maldades e me abrace contigo, meu único bem! (...) E que sou eu para ti, para que me ordenes amar-te e, se não o fizer, irar-te contra mim, ameaçando-me com terríveis castigos? Acaso é pequeno o castigo de não te amar?"

 

Santo Agostinho, primeiras páginas das suas Confissões

 

Em aventuras com Deus

Nesta Quaresma, Deus levou-me até uma série de situações bastante atípicas, fora do meu "normal", tal como vos tinha falado num post anterior. Mas, como relembro a mim mesma todos os dias, Deus deseja a nossa santidade e não o nosso conforto ou comodidade.... 

Eu devia ter suposto que Deus não iria ficar só por ali ... Deus quer sempre mais, Deus quer tudo, Deus quer-nos (sim, a nós!) por inteiro. 

 

O meu discernimento vocacional tem tido os seus altos e baixos - às vezes parece que sei exactamente qual o caminho a que o Senhor me chama a percorrer e a viver; noutras alturas, tenho dúvidas, muitas dúvidas, sinto medo e receio pelo futuro desconhecido, pelas consequências de escolher um caminho em detrimento de outro ...

Oh Senhor, qual é afinal a minha vocação? O que é que Tu desejas que eu seja? 

Queres que me santifique através do Sacramento do Matrimónio? Ou como leiga consagrada, entregando-me plenamente aos meus doentes e à minha paróquia? Ou será que me chamas a ser Tua esposa?

Oh, se algum anjo descesse do Céu e me viesse dizer claramente qual o caminho que Tu desejas que eu escolha! 

 

Não desejaríamos todos que fosse assim - simples e directo?

Oh, mas assim perderíamos todas as bênçãos, graças e virtudes que recebemos e que aprendemos a cultivar enquanto percorremos este caminho de discernimento vocacional.

E como são numerosas essas bênçãos e graças que Deus nos oferece! Como são numerosos esses sacrifícios que aprendemos a fazer, de livre vontade, alegremente! E como são numerosas as virtudes que aprendemos a conquistar e a alcançar! A principal é sem dúvida a Paciência - que, ui ui, como é difícil de conquistar!

 

Pertencer ao movimento das Famílias de Caná tem-me ensinado bastante acerca do Matrimónio e da vida familiar. Mas acerca dos 2 outros caminhos de vida que a Igreja Católica nos apresenta - vida religiosa e vida leiga consagrada - bem, eu já tinha lido bastante e reflectido acerca de ... mas ... ainda não tinha conhecido pessoalmente ninguém que as vivesse!

 

É realmente verdade, tal como os Santos nos dizem, que se tivermos o coração aberto, receptivo a ouvir a voz do Senhor e a aceitar, sem medo, os desafios e as oportunidades que Ele nos lança ... acontecem coisas maravilhosas!

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A minha primeira experiência com a vida religiosa aconteceu neste Tríduo Pascal, quando tive a oportunidade de passar 3 dias na Casa de Oração de Santa Rafaela Maria, em Palmela, junto das irmãs Escravas do Sagrado Coração de Jesus - eu e outros 60 jovens, vindos de todas as partes do país - Lisboa, Coimbra, Porto e até das Ilhas! 

Durante 3 dias, vivemos intensamente os momentos mais importantes da vida de Jesus - a Sua última ceia e a instituição da Eucaristia, a noite de oração no Horto das Oliveiras, todos os momentos da Sua Paixão, o deserto, a espera e a esperança dos discípulos e de Maria, e por fim a gloriosa Vigília Pascal, onde pudemos celebrar num só coração a alegria renovadora da Ressurreição de Cristo!

Este foi, sem dúvida, um Tríduo Pascal que eu nunca esquecerei! Quantas bênçãos, quantas graças, quanto impacto teve na minha vida ....

 

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No passado Domingo, no 3º Domingo da Páscoa, no dia em que celebrámos a visita de Jesus ressuscitado à primeira comunidade cristã, Deus ofereceu-me a graça de passar algumas horas a conversar com uma leiga consagrada!

Tudo começou num simples convite de boleia para a missa - estava a chover e eu sabia que uma amiga, mãe duma maravilhosa e inspiradora família da nossa paróquia, ía a pé até à igreja com os filhos, então perguntei-lhe se queria boleia. Quando dei por mim, já estávamos a marcar um cafezinho e uma conversa para depois da missa. E como as famílias católicas, à semelhança de Jesus, não costumam deixar-se ganhar em generosidade ... o convite alargou-se e quando dei conta, Deus tinha-me dado a graça de almoçar com essa família - a mim e a uma das irmãs do nosso novo pároco, que é leiga consagrada, da Ordem das Virgens (e que, vejam bem, também trabalha num hospital!)

E eu não encontro palavras para vos expressar todas as bênçãos que recebi nesse belo Domingo de Páscoa ...

 

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Ser luz

Nós somos chamados a sermos uma luz - como uma pequena chama duma velinha branca - num mundo que está cheio de luz artificial eléctrica.

Quem vive no conforto da luz artificial não consegue ver a nossa luzinha de vela; aqueles que até a conseguem ver, não percebem para que serve ou não compreendem porque insistimos em mantê-la acesa - num mundo cheio de luz artificial. Para quê? Porquê?

 

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Imagem retirada daqui

 

No meu trabalho no hospital, quando alguém descobre que eu sou catequista, não é costume ouvir nenhum comentário entusiástico nem incentivador. Não é adequado um médico ter religião ... porque pode interferir.

Os meus colegas não compreendem porquê é que eu haveria de gastar o meu tempo com essas coisas.... eu devia era sair, viajar, gastar o meu ordenado em jantares e prendas e aproveitar a vida.

A minha família pergunta-me várias vezes porque é que eu passo tanto tempo na igreja, envolvida em tantas coisas? Missas e missas e missas, reuniões, encontros, actividades, catequese, vias sacras ... para quê? perguntam-me sempre.

 

Para ser sincera, eu própria às vezes me pergunto se todas as horas que eu invisto em preparar a catequese terá algum valor ... Tantas horas a desenvolver ideias para que as catequeses sejam estimulantes, que ensinem pelo exemplo, que toquem os corações de todos os meninos, que os façam não só saber mas compreender e querer viver ...

Aqueles meninos de 7 anos nunca se vão lembrar de mim quando forem adultos. Não se vão lembrar de grande parte das coisas que eu lhes tentei ensinar. 

Que posso fazer eu, quando os pais não vêm à missa, não querem saber da igreja, e só põem os filhos na catequese como se fosse outra actividade extra-curricular como a natação ou o ballet? Ou apenas para poderem fazer a primeira comunhão? 

Que diferença farei eu nas suas vidas? Que diferença faz aquilo que eu faço?...

 

Há dias difíceis, em que me deixo engolir por essas vozes e pensamentos, em que apetece desistir de tudo. Sim, há dias assim; poucos dias, pela graça de Deus, mas existem.

Nestas alturas, Deus tem sempre o enorme carinho de me enviar um anjo, na forma duma pessoa, que me incentiva, que me anima, que me compreende e que partilha comigo situações parecidas. Ou então descubro uma reflexão de alguém no facebook ou em algum site ou num livro, que reflecte as minhas duvidas e que me ajuda a encontrar soluções.

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Imagem retirada daqui

 

Sim, aquilo que eu faço, aos olhos do mundo, não é quase nada. Não tem qualquer valor. É insignificante. É tempo mal gasto. Não me faz ganhar nada, aliás, só me faz perder....

Não consigo deixar de sorrir ao escrever este texto. As pessoas não compreendem nada! Não compreendem o que verdadeiramente tem valor!

 

"Perante um mundo fragmentado, (...) perante a experiência dolorosa da nossa própria fragilidade, torna-se necessário e urgente, atrever-me-ia mesmo a dizer imprescindível, aprofundar a oração e a adoração. Ela nos ajudará a unificar o nosso coração e nos dará «entranhas de misericórdia», para sermos homens de encontro e comunhão, que assumem como vocação própria tomarem a seu cargo a ferida do irmão (...) dando testemunho de um Deus tão próximo, tão Outro: Pai, Irmão e Espírito; Pão, Companheiro de Caminho e dador de Vida (...)

Hoje, mais do que nunca, é necessário adorar para tornar possível a "proximidade" que reclamam estes tempos de crise. Só na contemplação do mistério do Amor que vence distâncias e se torna perto encontraremos a força para não cair na tentação de seguir de longe, sem nos determos no caminho... (...)

Também nós, perante esta nova invasão pseudocultural que nos apresenta os novos rostos pagãos dos «baalins» do passado, experimentamos a desproporção de forças e a pequenez do enviado. Mas é justamente a partir da experiência da própria fragilidade que se evidencia a força do alto, a presença d'Aquele que é o nosso garante e a nossa paz.

Por isso, quero convidar-vos (...) a que reconheçais na vossa fragilidade o tesouro escondido, que confunde os soberbos e derruba os poderosos. Hoje, o Senhor convida-nos a abraçar a nossa fragilidade como fonte de um grande tesouro evangelizador. (...)

Porque só aquele que se reconhece vulnerável é capaz de uma acção solidária. Pois comovermo-nos («movermo-nos com»), compadecermo-nos («padecermos com») de quem está caído à beira do caminho são atitudes de quem sabe reconhecer no outro a sua própria imagem, mescla de terra e tesouro, e por isso não a rejeita. Pelo contrário, ama-a, aproxima-se dela e, sem o procurar, descobre que as feridas que cura no irmão são unguento para as suas. A compaixão converte-se em comunhão, em ponte que aproxima e estreita laços. (...)

Não tenhais medo de cuidar da fragilidade do irmão com a vossa própria fragilidade: a vossa dor, o vosso cansaço, as vossas perdas; Deus transforma-os em riqueza, unguento, sacramento. (...) Há uma fragmentação que permite, no gesto terno do dar, alimentar, unificar, dar sentido à vida. (...) Que possais, em oração, apresentar ao Senhor os vossos cansaços e fadigas, bem como o das pessoas que o Senhor colocou no vosso caminho e deixai que o Senhor abrace a vossa fragilidade, o vosso barro, para o transformar em força evangelizadora e em fonte de fortaleza. (....)

É na fragilidade que somos chamados a ser catequistas. A vocação não seria plena se excluísse o nosso barro, as nossas quedas, os nossos fracassos, as nossas lutas quotidianas: é nela que a vida de Jesus se manifesta e se faz anúncio salvador. Graças a ela descobrimos as dores do irmão como sendo nossas."

 

Palavras do Papa Francisco, numa carta aos catequistas da diocese de Buenos Aires, 

Agosto de 2003 (retirado do livro - O Verdadeiro Poder é Servir, da editora Nascente)

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Imagem retirada daqui

 

Não importa que ninguém veja aquilo que fazemos. Não importa se parece insignificante e sem valor. Deus vê tudo o que fazemos e vê, principalmente, o amor com que o fazemos. 

Mantenhamos a nossa pequena chama acesa, num local onde todos a possam sempre ver. Sempre que a luz artificial se apague nas vidas das outras pessoas, como tantas vezes acontece, que elas possam sempre ver e contar com a nossa pequena luz, para as iluminar e lhes dar de novo vida.