Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

As tentações de Jesus e as nossas

O início da Quaresma leva-nos, com Jesus, ao deserto.

Uma vez baptizado, Jesus saiu da água e eis que se rasgaram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do Céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no Qual pus todo o Meu agrado.» Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. (Mt 3,16-17; 4,1)

O momento em que os céus se rasgaram e o Espírito Santo desceu sobre a terra, parece ter sido um momento marcante e decisivo na caminhada de Jesus, em direcção ao pleno conhecimento da vontade do Pai. Parece ter sido o momento em que Cristo recebeu uma confirmação total acerca da missão a que o Pai O chamava, assim como das suas implicações, ou seja, a redenção de toda a humanidade através do Seu sacrifício de amor na Cruz. 

Ao ler estes versículos, impressiona-me como Jesus, após um acontecimento com tanta glória e louvor, obedecendo voluntariamente à doce voz do Espírito, abandona todas as consolações e presenças humanas e Se retira sozinho para o deserto. Para aí passar pela prova de ser tentado por Satanás.

 

Fala-se cada vez menos de Satanás nos dias de hoje e isto é algo que muito lhe convêm e que ele deseja que permaneça assim. Porque, nós não tentaremos combater aquilo que desconhecemos sequer que existe. E, assim, permitimos que ele continue a manipular-nos e a manipular as nossas vidas, como tanto se observa na nossa sociedade de hoje em dia, sem haver qualquer resistência da nossa parte ...

Contudo, também não podemos cair no espectro oposto, de lhe atribuir poder e capacidades que ele, na verdade, não tem. Ele bem gosta de o fingir, para que acreditemos que ele é muito poderoso e capaz e que nós somos impotentes perante o seu aparente poder. Por exemplo, Satanás, sendo um anjo (se puderem voltem a ler este post sobre os anjos), ainda que decaído, desconhece o futuro - isso só Deus conhece - e apenas conhece o presente à mesma velocidade que nós, assistindo e vivendo o acontecer de cada coisa e acontecimento tal como nós. É verdade, ele conhece o passado, porque o viveu também, e, nesse aspecto, ele é perito em fazer-nos recordar o nosso passado - mas apenas as partes que lhe dão jeito, na sua constante tentativa de nos manipular ....

Diz-nos o Arcebispo Fulton Sheen que, enquanto Deus é pura verdade, definindo-Se a Si mesmo como "Aquele que é", a essência de Satanás é a mentira, podendo ser definido como "Aquele que não é". Ele é o tentador, o mentiroso, o enganador, o fingido por excelência. Uma das poucas capacidades que ele realmente tem é de ser extremamente perspicaz. Ele sabe identificar muito bem os nossos pontos fracos, está atento a cada uma das nossas reacções, sabe estudar bem as nossas tendências, os nossos padrões de comportamento e de pecado. Ele adapta-se astuciosamente a cada circunstância e a cada personalidade, falando-nos sempre através de meias-verdades, com declarações e sugestões parcialmente verdadeiras, mas sempre distorcidas e fraudulentas. E com que objectivo? Sempre na tentativa de nos afastar total e definitivamente do amor do Senhor e de nos arrastar com ele para o Inferno, onde ele próprio está já eternamente condenado. 

Satan-Tempts-Jesus.jpg

Imagem retirada daqui

Podemos comprovar tudo isto, se acompanharmos Jesus ao ser tentado no deserto pelo Demónio. São Mateus conta-nos que "o Tentador aproximou-se" de Jesus (Mt 4,3a). A sua astúcia e capacidade de manipulação é de tal modo que Satanás tenta Jesus fingindo que O tentava ajudar a descobrir a resposta à questão, que tinha sido gerada no Seu coração e na Sua mente após ter sido Baptizado: Como poderia Ele cumprir mais perfeitamente a Sua missão de redenção entre os homens?

Tinha sido para descobrir a resposta a esta pergunta que Jesus tinha-Se retirado sozinho para o deserto, para aí jejuar e orar durante 40 dias e 40 noites, escutando a voz do Pai e deixando-Se moldar por Ele. Mas, se o problema estava em como Jesus poderia "ganhar" e converter o coração dos homens, então o Diabo tinha umas quantas sugestões a dar-Lhe.

Todas elas envolviam - adivinhem só - um espécie de bypass, um atalho, à expiação dos nossos pecados através da Cruz. Deus Pai tinha-Lhe dito, nestes 40 dias de oração no deserto, que esta era a única maneira. Satanás tenta persuadi-Lo de que não, de que há outras maneiras. Hmm, onde é que eu já vi isto acontecer? 

A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» A mulher respondeu-lhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis'. A serpente retorquiu à mulher: ‘Não, não morrereisporque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal‘.» (Gn 3,1-5)

Sim, nas tentações de Jesus no deserto veremos uma repetição das tentações de Adão (e de Eva) no Jardim do Éden. Mas, enquanto os nossos primeiros pais cederam à tentação, Jesus saiu vitorioso, vencendo cada uma delas.

Recordemos: qual era o objectivo, qual era a missão primordial de Deus para Adão e Eva? Viverem e participarem plenamente no Seu reino de amor, como Seus filhos muito amados, e como colaboradores do Seu poder Criador. Tal como o Catecismo da Igreja Católica nos resume na resposta à pergunta: "Para que fomos criados? Para conhecer, amar e servir a Deus" - uma resposta aparentemente simples mas tão poderosa e transformadora, se meditarmos bem nela ...

A serpente, contudo, tenta desviá-los desse objectivo e dessa missão, à semelhança do que tentará fazer com Jesus no deserto. O Diabo tenta distraí-los. Cria e fomenta uma falsa vontade nos seus corações, uma falsa necessidade, suscitando-lhes uma curiosidade que se revelará mortífera. Ele elabora uma mentira e tenta persuadi-los de que é verdade. 

Os nossos pais acreditam nesta mentira, cedem sem aparente resistência, e pecam gravemente, rejeitando o amor de Deus e expulsando-se a si mesmos da Sua presença e do Seu reino. Grande foi a alegria de Satanás naquele dia ... 

devil-tempting-jesus.jpg

Imagem retirada daqui

Agora, Satanás tentará fazer o mesmo com Jesus. As suas tentações tentam distrair Jesus da Sua missão de salvação do género humano. O Diabo tenta convencer Jesus de que há outras maneiras de alcançar a desejada Redenção da humanidade. Tenta persuadi-Lo e pô-Lo a duvidar da real necessidade da Sua entrega à vontade do Pai, através do Seu sacrifício voluntário na Cruz. Em vez de ser pela dolorosa e humilhante Cruz, Satanás tenta sugerir-Lhe três outras maneiras, uma espécie de três atalhos que, aparentemente, prometiam alcançar o mesmo fim - a salvação das almas. 

 

Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele também a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu. (Gn 3,6)

Reparem: os nossos pais começaram por ver que o fruto proibido deveria ser bom para comer, repararam no seu bom e atraente aspecto e concluíram que deveria ser bastante precioso e útil para lhes esclarecer a inteligência (e, assim, tornarem-se basicamente iguais a Deus e ocuparem o Seu lugar). Se meditarmos no assunto, perceberemos que o homem tende a ser tentado e tende a pecar de uma entre três principais maneiras (ou categorias): as que estão relacionadas com os prazeres da carne (pelos pecados da gula e da luxúria), as que estão relacionadas com o desejo de posse e o amor pelas coisas do mundo (pecado da ganância e da inveja) e as que estão relacionadas com o poder e a auto-idolatria (pecado do orgulho).

Da mesma forma, e pela mesma ordem, foi Jesus tentado no deserto pelo Demónio, para nos mostrar como podemos resistir e vencer estas tentações.

Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fomeO tentador aproximou-se e disse-Lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães»  (Mt 4,1-3)

primeira tentação foi a da procura do conforto e do prazer dos sentidosQue situação mais absurda - Deus a sentir fome! Onde é que isso já se viu? Como pode tal ser possível? Se Deus alimentou miraculosamente um povo tão numeroso durante 40 anos no deserto, porque é que agora não faz surgir um banquete para Si mesmo? Porque é que o próprio Deus se permite sofrer esta humilhação e passar por esta necessidade tão humana (apenas) para redimir as Suas criaturas? Parece loucura ...

Aliás, o Diabo parece prometer e sugerir-Lhe que, se Jesus usasse o Seu poder para alimentar todos os famintos deste mundo, então Ele ganharia os seus corações e, assim, a Cruz deixaria de ser necessária. Não parece um bom negócio? 

Na verdade, Jesus recordará e passará novamente por esta tentação quando, pregado na Cruz em plena agonia, todos os que passarem por Ele Lhe disserem asperamente: «Salva-Te a Ti mesmo! Se és Filho de Deus, desce da cruz!» (Mt 27,40) 

Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» (Mt 4,4).

Sim, Jesus passou realmente fome e sede no deserto. E, assim, uniu-Se a toda a humanidade sofredora, sedenta e faminta. Uniu-Se não só àqueles que têm falta de comida e de bebida, tão numerosos no tempo de Jesus como no nosso, mas também àqueles que têm sede e fome de Deus - e esses, sim, são muitíssimo mais numerosos hoje em dia, e encontram-se em quase todas as casas deste mundo.. O homem têm necessidades muitíssimo mais profundas do que aquelas que podem ser saciadas apenas com pão. São homens e mulheres que estão carentes duma felicidade muitíssimo maior do que ter apenas um estômago cheio. Foi para saciar tanto uma, como a outra fome, que Jesus encarnou, habitou entre nós e Se entregou, fazendo de Si mesmo e do Seu corpo o verdadeiro alimento, que nos dá a Vida Eterna.

temptation of christ.jpg

Imagem retirada daqui

segunda tentação foi a da procura da posse e do controlo de todas as coisas: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, que o Senhor Te sustentará» (Mt 4,6). Jesus tem perfeita noção que o caminho a que o Pai O chama terá poucos adeptos. Poucos Lhe darão ouvidos. Poucos O seguirão. Poucos se converterão. Não é um caminho fácil nem atraente aquele que Jesus nos proporá: «Se alguém quiser seguir-Me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me» (Lc 9,23)

Nesta segunda tentação, o Diabo tentará persuadir Jesus a esquecer o caminho da Cruz e a substituí-lo por um caminho que demonstre chamativamente o Seu poder, que seja atractivo e cativante, a fim de tornar mais fácil que todos os homens O sigam.

Quase que oiço o Demónio a dizer-Lhe: 'Porque hás-de preferir um caminho longo e penoso, através do derramamento de sangue e de tanta dor, para converteres os homens? Porque hás-de preferir um caminho em que sejas desprezado, rejeitado e humilhado, enquanto podes escolher um caminho mais curto e eficaz se realizares um milagre vistoso e admirável? Pelo caminho da Cruz, serás como um fantoche nas mãos dos homens, farão de Ti o que eles quiseres, não poderás controlar nada - mas, se Tu quiseres, está aqui mesmo a Tua oportunidade de tomares controlo sobre tudo! Pelo caminho da Cruz, não saberás quantas pessoas conseguirás converter, mas se realizares maravilhas e feitos impossíveis prometo-Te que todos acreditarão! Se és realmente Filho de Deus, eu desafio-Te a fazeres algo heróico, para que todos possam testemunhar o Teu poder e assim acreditar!'

Então, o Diabo conduziu-O à cidade santa e, colocando-O sobre o pináculo do templo, disse-Lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: 'Dará a Teu respeito ordens aos Seus anjos; eles suster-Te-ão nas suas mãos, para que os Teus pés não se firam nalguma pedra'» Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!» (Mt 4, 5-7)

Também mais tarde Jesus recordará esta tentação quando, à Sua volta, uma multidão se reunir exigindo-Lhe um milagre, qualquer que fosse, que provasse as Suas palavras e tornasse mais fácil para eles acreditarem plenamente. "As multidões afluíram em massa e [Jesus] começou a dizer: «Esta geração é uma geração perversa, [que] pede um sinal»" (Lc 11,29) 

Realmente, se Jesus realizasse esses grandes e admiráveis feitos que O coagiam a fazer, multidões de homens O seguiriam. Mas, como é que isso os beneficiaria, se o pecado permanecesse incrustrado nas suas almas? 

Responderá Jesus: «Não tentarás o Senhor teu Deus!» (Mt 4, 7). Não, não farei nada disso que Me pedem. Não farei a vossa vontade, que mal sabeis o que pedis ou o que precisais, mas farei, sim, e sempre, a vontade de Meu Pai. Só quando Me virem pregado numa Cruz se sentirão atraídos até Mim. Só através do Meu sacrifício, do pleno uso da Minha liberdade, da Minha entrega por amor é que, verdadeiramente, os homens se converterão e deixarão os seus maus caminhos.

E responderá Jesus às multidões que O tentam chantagear: «Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não lhe será dado sinal algum, a não ser o de Jonas» (Lc 11, 29). Nenhum sinal vos será dado, a não ser o sinal de Alguém que será elevado aos Céus, após ter saído e vencido as profundezas das águas do abismo e da morte...  

jesustempted_ceo.jpg

Imagem retirada daqui

Por fim, a terceira tentação foi a da procura da própria glória e louvor: «Tudo isto [reinos e poderes do mundo] Te darei, se, prostrado, me adorares» (Mt 4,9). Satanás tenta, numa última e derradeira tentativa, distrair e desviar Jesus do caminho da Cruz. Se Jesus, tal como Ele próprio o diria mais tarde, veio a este mundo para estabelecer nele o Reino de Deus, porque não escolhia Ele um caminho mais rápido para alcançar tal? Porque não Se submetia Àquele que se apresentava como Senhor deste mundo?

Levando-O a um lugar alto, o Diabo mostrou-Lhe, num instante, todos os reinos do universo e disse-Lhe: «Dar-Te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver. Se Te prostrares diante de mim, tudo será Teu.» (Lc 4, 5-7) 

Será que o mundo foi-lhe realmente dado? Será que o mundo realmente lhe pertence? A contínua escolha dos homens pelo pecado parece corroborar esta afirmação. Por voto e vontade da maioria dos homens, comprovado pelas suas acções e escolhas diárias, não haveria dúvidas de que todo o mundo lhe pertencia ... em especial nos dias e na sociedade de hoje.

Mas não, isso não é verdade. Pode-nos parecer, por vezes, sim. Mas lembrem-se que Satanás é o príncipe da mentira e do fingimento! O Diabo promete que Jesus poderia ficar com tudo o que existe no mundo, desde que Ele não o tentasse mudar. Poderia ficar com os corações de toda a humanidade, desde que Ele prometesse não os tentar salvar e redimir. 

Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» (Mt 4, 10)

Jesus responder-lhe-á: 'Vai-te Satanás! Adorar-te é servir-te e servir-te é ser escravo do pecado. Foi exactamente para tornar a humanidade livre das garras do pecado que Eu vim. Eu não desejo nada deste mundo enquanto eles estiverem presos nas amarras da maldade e da culpa. Primeiro, Eu irei vencer a maldade e a conscupiscência no coração dos homens, e então depois conquistarei o mundo e serei coroado Rei de todo o Universo! Eu prefiro perder e abdicar de tudo o que existe neste mundo, do que perder uma só alma para o Reino de amor do Meu Pai!'

Então, o Diabo deixou-O e chegaram os anjos e serviram-n'O. (Mt 4,11)

 

Por agora, a vitória foi alçancada. Ao contrário do primeiro Adão, o novo e eterno Adão, Jesus, vence as grandes tentações que continuamente assaltam a humanidade. O Diabo deixa-l'O-á mas não será por muito tempo. Uns capítulos à frente, leremos como o Tentador conseguirá apoderar-se momentaneamente do coração de Pedro. Ele, o primeiro entre os discípulos a reconhecer o Messianismo de Jesus, proferindo no versículo 16 do capítulo 16: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo», dirá também logo no versículo 22 desse mesmo capítulo: «Deus Te livre, Senhor! Isso nunca Te há-de acontecer!», quando Jesus lhes anuncia que a glória da Ressurreição só é possível através do caminho humilhante e penoso da Cruz. 

 

Nos próximos posts, se Deus o permitir e me ajudar, continuaremos a caminhar com Jesus, nesse caminho de Cruz, em direção à plena obediência à vontade do Pai. Por agora, meditemos no nosso coração, acerca das tentações de Jesus, no seu significado, de como foi possível Ele vencer cada uma delas.

Foi através deste "primeiro treino" no deserto, através destes testes e provações, que Jesus Se fortaleceu para a "grande prova". Pela graça de Deus, nós estamos em plena Quaresma, nos exercícios de "treino" por excelência, para as grandes "provas" das nossas vidas. E a maior "prova" da minha vida começará dentro de pouquíssimo tempo, nesta mesma Páscoa ... 

 

Post escrito após a leitura do livro "Life of Christ" do Arcebispo Fulton Sheen, 1958, pág 59 a 69

Tragam ouro, incenso e mirra - aí vem o Esposo!

Depois de terem ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se, adoraram-n'O; e, abrindo os cofres, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. (Mt 2, 9-11)

Penso que já todos estão familiarizados com o profundo significado dos três presentes que os Reis Magos trouxeram consigo, desde o Oriente até Belém, para oferecer ao Deus que Se fez Menino. Existem inúmeras passagens do Antigo Testamento que nos mostram o significado de cada oferenda: o ouro simboliza a Realeza de Jesus, o esperado descendente do Rei David, que seria Rei eterno de todas as nações; o incenso anuncia-nos que Jesus é, verdadeiramente, o Divino Filho do Deus Altíssimo; e por fim a mirra, a resina proveniente duma planta muito espinhosa, usada para embalsamar o corpo dos mortos, revela-nos a Sua igualmente verdadeira Humanidade. E, assim, de uma só vez, os sábios Magos comunicam-nos que Jesus é verdadeiro Deus, verdadeiro Homem, eterno Rei ... Seremos também nós capazes de O reconhecer como tal, nas nossas vidas?

reis magos.jpg

Imagem retirada daqui

 

No verão em que fui à Terra Santa, lembro-me de ter achado muito curioso, ao folhear o livro do Êxodo, para aprender mais sobre o uso da acácia nos objectos sagrados da Arca da Aliança, que, num mesmo capítulo (cf Ex 30), se falava tanto do ouro, como do incenso, como da mirra - para adornar, perfumar e ungir tanto a Arca da Aliança e os seus objectos, como Aarão e os outros sacerdotes ... Hmm, curioso: este deve ser o único livro da Bíblia a falar destes três presentes juntos! ...

 

Recentemente, apercebi-me que não. Aliás, estes três presentes juntos parecem ter ainda um outro simbolismo, igualmente profundo e belo. O livro dos Cânticos dos Cânticos é outro livro das Sagradas Escrituras que nos falam de ouro, incenso e mirrajuntos. São referidos em várias passagens, ao longo de todo este livro; mas, em todas as passagens, estes três itens são, duma forma ou de outra, sempre associados ao Esposo do Cântico! Sim, ao Esposo!

No site das Famílias de Caná encontram um maravilhoso ensinamento em vídeo, gravado durante um retiro em 2019, acerca do importantíssimo simbolismo de Jesus como Esposo: vêmo-lo presente desde o primeiro ao último livro da Bíblia, nas palavras dos Profetas e dos Salmos, no testemunho de S. João Baptista e nas parábolas de Jesus... 

João declarou: «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: "Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente". O Esposo é Aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do Esposo, que está ao Seu lado e O escuta, sente muita alegria com a voz do Esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! Ele é que deve crescer e eu diminuir». (Jo 3, 27-30)

jesus spouse.jpg

Imagem retirada daqui

Terminámos os dias do tempo de Natal e em breve entraremos já no tempo da Quaresma, no tempo de preparação mais intensa para recebermos a entrega do Divino Noivo.

A meio da noite, ouviu-se um brado: 'Aí vem o Noivo, ide ao Seu encontro!' (Mt 25,6)

Façamos espaço

Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria.
Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidadeTambém José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. (Lc 2,1-5)

São José é chamado a ir recensear-se na sua terra natal, em Belém, nos últimos tempos da gravidez de Maria. Por esta altura, já deviam ter tudo preparado para a chegada de Jesus na sua casa: berço, roupas, fraldas, a ajuda necessária da comunidade de Nazaré ... Tudo estaria pronto e preparado.

Contudo, inesperadamente, Deus chama-os a abandonar o conforto do seu lar e a abdicar do apoio dos vizinhos da aldeia, para viajarem até Belém, a 200km de distância de casa. Como já reflectimos anteriormente, os Evangelhos não nos explicam os motivos que levaram Nossa Senhora a acompanhar S. José até Belém - não era preciso que ela fosse até lá, mas Maria insistiu em ir também. 

Bem - deverá ter pensado São José - ao menos em Belém haverá familiares que nos possam receber nas suas casas. Pensei muito neste aspecto ao longo deste tempo de Natal. Todos os elementos da família de São José, por mais próximos ou afastados que fossem, tinham sido chamados a apresentarem-se em Belém. Quando Maria e José chegaram finalmente a Belém, após cinco ou seis dias duma dura viagem, ao passo modesto dum burrinho carregando uma mulher grávida, a maioria dos seus familiares também já lá estariam ... e já estava tudo cheio.

E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria. (Lc 2,6-7)

Ao reflectir nesta passagem do Evangelho de São Lucas, não tendo a ficar com a impressão de que os habitantes de Belém, a família de Jesus, não quiseram recebê-Lo, mas sim que já não havia espaço. Já estava tudo cheio - as suas vidas, as suas casas, os seus dias, o seu presente e futuro - já estava tudo cheio, já não havia espaço para acolher a Sagrada Família e deixar que Jesus nascesse nos seus corações. Não me parece que não quisessem propriamente recebê-Lo, mas já estavam cheios de outras coisas, de outras pessoas, de outros problemas e preocupações deste mundo. Estavam tão cheios deste mundo e das coisas deste mundo (que só enchem, mas nunca preenchem!), que já não havia espaço para Deus nas suas vidas.... 

 

José e Maria, se quisessem, talvez ainda coubessem num cantinho da casa de alguém, desde que não incomodassem ninguém e não chamassem muito à atenção dos seus moradores, que tão concentrados estavam nas suas vidas ocupadas ... Oh, não tenderemos nós a fazer por vezes o mesmo, em certas alturas das nossas vidas?

E, assim, Jesus foi nascer numa gruta aberta e sem porta - porque todos estávamos convidados a ir recebê-Lo; que servia de abrigo e descanso merecido aos pobres animais de trabalho e transporte, como a vaca e o burro, e que, mesmo no seu cansaço, O acolheram; foi enrolado em panos, como se fazia ao cordeiro sacrificial da Páscoa judia, e colocado numa manjedoura transformada em altar de entrega e doação do verdadeiro Pão que nos sacia...

making space for Jesus.jpg

Imagem retirada daqui

Mas Deus, que é rico em misericórdia e em amor, não perde uma única hipótese de nos oferecer uma nova oportunidade, de nos redimir, para que possamos tentar fazer o bem uma vez mais ...

Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe. E prostrando-se, adoraram-No. (Mt 2,9-11)

Afinal, parece que alguém - não sabemos se uma família, uma viúva, um sacerdote, um tio ou primo de José - mas alguém arrependeu-se, reflectiu, deixou-se tocar e incomodar pelo mistério do Deus Menino, e fez espaço na sua casa, para O acolher. Para Deus, nunca - nunca! até ao derradeiro momento da nossa morte (a partir daí, só Deus saberá) - é tarde de mais. Há sempre tempo para o arrependimento, para tentarmos novamente, para fazermos melhor, ainda que pouco, a seguir. 

Quem sabe se demorou algumas horas ou dias ou até semanas para isso acontecer; mas alguém arrependeu-se, pensou melhor novamente, e aceitou abrir, tanto as portas da sua casa, como do seu coração, como da sua vida, ao amor do Senhor. Quanta humildade e misericórdia Jesus nos demonstra e ensina, desde já, e Ele ainda mal nasceu ... 

 

Gaudete, Gaudete, Christus est natus!

 

As criaturas das águas e as criaturas do céu (5º dia da Criação)

Deus disse: «Que as águas sejam povoadas de inúmeros seres vivos, e que por cima da terra voem aves, sob o firmamento dos céus.» Deus criou, segundo as suas espécies, os monstros marinhos e todos os seres vivos que se movem nas águas, e todas as aves aladas, segundo as suas espécies. E Deus viu que isto era bom. Deus abençoou-os, dizendo: «Crescei e multiplicai-vos e enchei as águas do mar e multipliquem-se as aves sobre a terra.» Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o quinto dia. (Gn 1, 20-23)

A narração do 5º dia da Criação convida-nos a reflectir de novo na dicotomia do povo judeu sobre as águas do mar em oposição ao céu. Como já explorámos anteriormente, para o povo judeu as águas do mar representavam o local da morte e de julgamento do homem.

Em pleno mar, todos os homens, sem excepção, estavam sujeitos às mesmas forças e ao mesmo juízo das ondas e do vento. Os pescadores lançavam-se ao mar, mal a madrugada começava, estando ainda tudo escuro à sua volta. Decidiam quando iam; mas nunca poderiam saber se voltariam para as suas casas com vida.

Hoje, estamos habituados a ver o fundo do mar como um local colorido, cheio de formas estranhas, de peixes curiosos, de formas de vida surpreendentes. Mas, se perguntassem a um judeu, como pensava que era o fundo do mar, certamente que receberiam como resposta - "Como sabes tu que o mar tem fundo? Quem lá se aventurou, nunca voltou para contar o que viu ... Deve ser um autêntico vazio de morte, sem absolutamente nada ..."

sea and sky.jpg

Imagem retirada daqui

Assim, as águas eram vistas como instáveis e traiçoeiras, insondáveis e perigosas, e os animais que lá viviam não eram olhados de forma diferente. Afinal, as criaturas do mar habitavam num local onde a escuridão parecia dominar e onde forças invisíveis pareciam comandar tudo o que acontecia. 

Penso no profeta Jonas, que tentou fugir do chamamento do Senhor e que acabou por ser lançado ao mar e engolido por uma baleia, uma criatura proveniente destas águas obscuras e malignas. A sua história serve-nos de aviso, acerca do que sempre nos acontecerá quando fugimos deliberadamente da vontade de Deus. Ao escolhermos fugir da terra, preparada para nós para ser um local sólido e seguro, ao virarmos as costas à vontade do Senhor, estamos a escolher lançar-nos nas águas do Abismo, ficando à mercê do maligno e das suas criaturas. Na verdade, Jonas só foi libertado do buraco escuro onde tinha aceitado esconder-se, após confessar o seu pecado, implorando a misericórdia de Deus e abrindo-se de novo à graça do Senhor, que o trouxe em segurança para terra firme. Agora sim, depois de viver este episódio marcante e reestruturante, Jonas estava preparado para anunciar, a todos os habitantes da cidade de Nínive, o quão Deus estava próximo de cada um deles ...

fish and birds.jpg

Imagem retirada daqui

Em contraste com as perigosas e traiçoeiras criaturas do mar, são-nos apresentadas as aves do céu: livres como uma alma recém Baptizada, leves como uma alma recém Confessada, pequenas e humildes como Jesus nos incentiva a tornar-nos para conseguirmos entrar no Reino dos Céus ... 

Os pássaros passam as suas vidas a voar no céu aberto, que representa a morada eterna de Deus, aquela que os nossos corações tanto desejam alcançar. E, talvez por isso, tenhamos associado a imagem dos Anjos à destes seres alados e voadores, que habitam continuamente na presença de Deus.

Sempre achei fascinante como as aves conseguem parecer, simultaneamente, frágeis e fortes: frágeis pela sua constituição delicada; fortes por serem capazes de enfrentar vento e chuva, continuando a voar e a cantar ...

Pensar em aves do céu faz-me logo lembrar da representação do Espírito Santo na forma duma pomba, pura e branca, como nos é relatado no episódio do Baptismo de Jesus, ao sair das águas do rio Jordão. Lembro-me também do convite de Jesus, a abandonar as nossas preocupações e inquietações e a confiarmos na Providência Divina, que cuida de tudo nas nossas vidas com tanto amor e delicadeza, atenta a cada pequeno pormenor

Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. Não valeis vós muito mais do que elas? (Mt 6,26)

 

Agora, percebo melhor porque é que o Apóstolo João, ao terminar as suas visões sobre o fim do mundo e o Juízo Final, nos descreve que:

"Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia." (Ap 21,1)

Na vida eterna, na Jerusalém celeste, onde serão recebidos todos os que amam o Senhor, haverá uma nova terra e um novo céu, renovadas e purificadas para nos acolher; mas o mar, esse local de morte e castigo, jamais existirá no Reino dos Céus, jamais voltará a ser visto ou sequer lembrado... 

Maranata, vem Senhor Jesus!

As tentações no deserto (ainda o 3º dia da Criação)

O início do 3º dia da Criação relembra-nos a travessia do Mar Vermelho a pé enxuto pelo povo hebreu, fugindo da escravatura do Egipto e dirigindo-se para o grande deserto a que o Senhor os chamava a atravessar. 

"Recorda-te de todo esse caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer durante quarenta anos pelo deserto, a fim de te tornar humilde, para te experimentar, para conhecer o teu coração" (Dt 8,2)

Também Jesus, após ter sido baptizado nas margens do rio Jordão, foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto - para nos mostrar a Sua humildade, para nos mostrar a pureza do Seu coração - como estava prefigurado na segunda parte do relato do 3º dia da Criação

Deus disse: «Que a terra produza verdura, erva com semente, árvores frutíferas que dêem fruto sobre a terra, segundo as suas espécies, e contendo semente.» E assim aconteceu. A terra produziu verdura, erva com semente, segundo a sua espécie, e árvores de fruto, segundo as suas espécies, com a respectiva semente. Deus viu que isto era bom. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o terceiro dia. (Gn 1,11-13)

third day of creation.gif

Imagem retirada daqui

Foram 3 os tipos de plantas que Deus fez brotar da terra seca recém criada, à semelhança das 3 tentações pelas quais Cristo passou nos 40 dias e 40 noites em que jejuou no deserto. Por 3 vezes, Satanás tentou que Jesus cedesse e se afastasse da Sua missão de Redenção da humanidade. Por 3 vezes, Satanás tentou reproduzir, na vida e figura de Jesus, a falta de confiança demonstrada neste deserto pelo povo hebreu, na Providência Divina e nas promessas do Senhor.

A primeira tentação foi a da procura do conforto e do prazer dos sentidos: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães» (Mt 4,3) - à semelhança do povo hebreu que murmurou contra Moisés e, assim, contra o Senhor, com medo de morrerem à fome no deserto. Mas Jesus relembra-nos que «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4,4).

A segunda tentação foi a da procura do poder e do controlo: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, que o Senhor Te sustentará» (Mt 4,6) - relembrando a ocasião em que o povo israelita, mais uma vez, duvidou das promessas do Senhor e exigiu um milagre, uma prova, do Seu amor e do Seu cuidado paternal. Mas não teria Deus já dado provas suficientes? Quão curta pode ser a nossa memória?

Por fim, a terceira tentação foi a da procura da própria glória e louvor: «Tudo isto [reinos e poderes do mundo] Te darei, se, prostrado, me adorares» (Mt 4,9) - Ah, a procura incessante do ser humano em ser adorado, admirado e glorificado. Como parece que queremos ser, sempre, fortes, grandes e importantes. Jesus, pelo contrário, aceitou tornar-se pequeno e humano, para chegar até junto de nós. Aceitou tornar-se escravo por amor, cordeiro sacrificial para nos salvar. «Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» (Mt 4,10) Tudo o que somos, tudo o que possuímos, tudo o que conseguimos, tudo isto é por graça e amor do Senhor.

Também nós, no nosso Baptismo, à semelhança de Cristo, somos chamados a renunciar a estas 3 tentações: ao conforto da nossa Carne, ao desejo de controlo sobre o Mundo e ao orgulho favorecido pelo Diabo

temptations of jesus.jpg

Imagem retirada daqui

No deserto, o povo israelita deixou-se vencer pelo seu pecado e pela sua concupiscência, escolhendo esquecer-se e afastar-se do amor do Senhor. Jesus, pela Sua humildade, conseguiu restituir a infidelidade cometida, por mim e por ti, ao amor oferecido por Deus. E Jesus venceu, sem fazer nenhum feito extraordinário, sem fazer nenhum milagre. Ele venceu todas as tentações puramente através da sua humanidade, recitando de memória as promessas que o próprio Senhor tinha feito, ao longo dos tempos, ao seu povo escolhido e muito amado.

A vitória de Jesus sobre as tentações no deserto antecipa, desde já, a Sua vitória também na Paixão, o mais supremo acto de obediência ao amor do Pai.

Saindo das águas e entrando no Céu (ainda o 2º dia da Criação)

Meditar no 2º dia do relato da Criação permite-nos também compreender melhor o significado do Baptismo de Jesus.

Veio Jesus da Galileia ao Jordão ter com João, para ser baptizado por ele. João opunha-se, dizendo: «Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por Ti, e Tu vens a mim?» Jesus, porém, respondeu-lhe: «Deixa por agora. Convém que cumpramos assim toda a justiça.» João, então, concordou.
Uma vez baptizado, Jesus saiu da água e eis que se rasgaram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. 
E uma voz vinda do Céu dizia: «Este é o Meu Filho muito amado, no qual pus todo o Meu agrado.» (Mt 3,13-17)

Jesus é baptizado no rio Jordão, o rio cujo nome significa "Aquele que desce" em hebraico. Lembrando a analogia do último post, não me parece ser um acaso que este rio nasça no topo dum monte, o monte Hérmon, em Cesareia de Filipe no norte de Israel. Na verdade, o monte Hérmon é um monte tão alto -  e assim tão perto da morada de Deus - que permanece coberto de neve durante a maior parte do ano.

Foi bem aqui em cima, em Cesareia de Filipe, perto da nascente do rio Jordão, que Jesus deu a Pedro as chaves do Reino dos Céus, representando a sua união íntima com o coração do Senhor.

Desde a sua origem no norte de Israel, o rio Jordão vai descendo continuamente, atravessando Israel, até por fim desaguar no ponto mais baixo de toda a terra, no mar Morto. Podendo ter escolhido qualquer ponto do comprimento do rio, o Senhor chamou João Baptista a baptizar o povo judeu no local imediatamente antes deste rio chegar às águas estéreis e inóspitas do mar Morto.

Foi bem aqui em baixo, perto do ponto de entrada no mar Morto, que Jesus escolheu também ser baptizado por João. Jesus vai-nos buscar, independentemente do quão fundo o nosso pecado nos arrastar, não desistindo de nós e de nos salvar até ao último instante da nossa vida, antes de nos perdermos completamente no Inferno...

 

Jesus baptism.jpg

Imagem retirada daqui

Mas vamos voltar ao simbolismo do 2º dia do relato da Criação. Com o Seu Baptismo, Jesus entra dentro das águas de baixo, das águas do abismo, assim como depois entrará nas águas do sofrimento e da Sua morte. Ele ergue-se destas águas, tal como virá depois a erguer-se da morada dos mortos, ao ressuscitar. Os Céus rasgam-se; a barreira, a divisão, existente entre Deus e o homem, desde o 2º dia da Criação, que impedia que o homem se unisse plenamente ao seu Criador, desaparece. Os Céus abrem-se, a Vida Eterna torna-se possível ao homem, de tal forma que o Espírito Santo desce, sob a forma duma pomba, tal como fará mais tarde no dia do Pentecostes, para anunciar através de Jesus, a todos os homens, o quanto cada um de nós é, também, o Seu filho muito amado ... 

 

O Baptismo de Jesus destrói assim a barreira que nos separava de Deus e abre-nos as portas do Céu ... 

Esperando por (e com) Deus

Ninguém gosta de esperar. 

Esperar parece uma autêntica perda de tempo. Porquê esperar? Para quê? Não seria melhor se tudo acontecesse - já?! De que serve esperar?... Ai, o desejo impaciente de passar o mais rapidamente possível da situação em que me encontro para aquela que eu queria tanto estar ou ter ou fazer ou ser - e já!

 

Mas, se pensarmos bem, todos estamos permanentemente à espera. É raro, muito raro na verdade, não estarmos numa situação de espera - seja por algo ou por alguém. Às vezes, esperamos por coisas pequeninas, como esperar que nos respondam a um email, ficar preso no trânsito e nunca mais chegarmos onde queremos, estar na fila das compras (seja para entrar na loja ou para pagar), ou então esperar que chegue a hora de sair do trabalho ... Outras vezes, esperamos ansiosamente por coisas grandes e importantes, como saber que entrámos na faculdade dos nossos sonhos, discernir uma vocação, poder tomar o primeiro passo numa decisão importante ou esperar a resposta do outro ... 

 

Há poucos dias atrás, iniciei um novo ano de vida, o meu 27º ano. Se Deus quiser, e por uma graça absolutamente imerecida, será durante o decorrer deste ano que poderei declarar o meu "sim", total e eterno, à vocação de amor a que o Senhor me chama. Apesar dos longos anos de discernimento vocacional, esperar pela vontade e pelo tempo de Deus continua a ser uma batalha perene para mim. Oh, como gostava que esse dia glorioso, em que poderei oferecer toda a minha vida e todo o meu ser, chegasse depressa - ou, melhor ainda, fosse já amanhã!

 

Mas, se Deus nos coloca, tantas vezes, em situações de espera, não seria melhor aprender a esperar e a esperar santamente

waiting for god.jpg

Imagem retirada daqui

A Bíblia está cheia de histórias de pessoas à espera. Às vezes, estão à espera de certas situações, outras vezes à espera umas das outras mas, principalmente, encontramos pessoas à espera de Deus.

Tomemos como exemplo as primeiras páginas dos Evangelhos. Zacarias e Isabel estão há anos à espera de ter um filho. Maria também espera o nascimento dum Filho, mas um que nunca pensara conceber. José está permanentemente à espera que Deus lhe diga o que deve fazer. Simeão e Ana passaram toda a sua vida à espera do dia em que veriam com os próprios olhos o Messias prometido. 

Todo o Evangelho parece iniciar-se com pessoas à espera. O que inclui o próprio Deus - aliás, ninguém passou mais tempo à espera do que Ele que, desde a queda de Adão e Eva no Jardim do Éden, aguardava ardentemente o momento perfeito para revelar-Se e demonstrar todo o Seu amor e misericórdia por cada homem e mulher.

Mas, tanto Zacarias como Isabel, Maria e José, Simeão e Ana, souberam esperar santamente porque a sua espera estava fundada numa promessa e numa esperança firmes.

«Não temas, Zacarias: a tua súplica foi atendida. Isabel, tua esposa, vai dar-te um filho e tu vais chamar-lhe João.» (Lc 1,13)

«Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um Filho, ao qual porás o nome de Jesus. Será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo» (Lc 1,30-31)

«José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados.» (Mt 1,20-21)

Vivia em Jerusalém um homem chamado Simeão; era justo e piedoso e esperava a consolação de Israel. Tinha-lhe sido revelado pelo Espírito Santo que não morreria antes de ter visto o Messias do Senhor. (Lc 2,25-26)

Zacarias e Isabel 2.jpg

Zacarias, Isabel e Maria a admirarem João, o filho prometido pelo anjo do Senhor - Imagem retirada daqui

É a fé nas promessas do Senhor que permite a cada uma destas pessoas saber esperar santamente. Pela fé, acreditam desde já que possuirão, um dia, aquilo que o próprio Senhor lhes prometeu. Elas escolheram aceitar receber e aceitar acreditar nas promessas do Senhor. E, assim, aquilo que, a nós, nos parece futuro, para elas tornam-se, desde já, presente e real; torna-se, desde já, obtido. 

É como se recebessem uma semente da parte do Senhor, que crescerá e brotará na terra fértil da sua fé. São capazes de sorrir a cada novo amanhã (como é dito da mulher forte em Provérbios 31) porque sabem que, neste preciso momento em que vivem, a promessa de Deus está a ganhar forma, está a crescer, está a realizar-se. O segredo de esperar santamente é, assim, a fé de que Deus já plantou a semente, que algo já começou, de que algo está já a ocorrer. 

Esse algo está, quase sempre, escondido aos nossos olhos, sim; mas nem por isso deixa de acontecer ou ser real, porque, como nos disse Jesus: "O Meu Pai está sempre a trabalhar" (Jo 5,17)

god the sower.jpg

Imagem retirada daqui

Olhemos uma vez mais para os Evangelhos, mas agora para as últimas páginas, para a paixão e ressurreição de Jesus. Uma das palavras mais usadas para descrever o que aconteceu a Jesus é "ser entregue".

Estando reunidos na Galileia, Jesus disse-lhes: «O Filho do Homem tem de ser entregue nas mãos dos homens, que o matarão; mas, ao terceiro dia, ressuscitará.» (Mt 22,22-23)

Então, Judas Iscariotes, um dos Doze, foi ter com os sumos sacerdotes para lhes entregar Jesus. Eles ouviram-no com satisfação e prometeram dar-lhe dinheiro. E Judas espreitava ocasião favorável para O entregar. (Mc 14,10-11)

Quando chegou a hora, pôs-Se à mesa e os Apóstolos com Ele. Tomou, então, o pão e, depois de dar graças, partiu-o e distribuiu-o por eles, dizendo: «Isto é o Meu corpo, que vai ser entregue por vós; fazei isto em memória de Mim.» (Lc 22,19)

Estas mesmas palavras serão depois usada por São Paulo, na sua carta aos Romanos, ao declarar que "[Deus] nem sequer poupou o seu próprio Filho, mas entregou-O por todos nós" (Rom 8,32)

É impressionante reparar como, logo a seguir a ser entregue às autoridades de Jerusalém, Jesus deixa de ser Aquele que faz e submete-se humildemente a ser Aquele a quem as coisas Lhe são feitas ...  Jesus é preso por outros; é levado até ao Sumo-Sacerdote; depois é levado até Pilatos; é coroado com espinhos e, por fim, preso na cruz. Tudo Lhe é feito, sem que Ele tenha qualquer controlo

Quando Jesus finalmente diz: "Tudo está consumado" (Jo 19,30), Ele não quer dizer "Eu fiz todas as coisas que queria fazer", mas sim "Eu permiti que Me fosse feito tudo o que era preciso, de modo a cumprir plenamente a Minha vocação." Na verdade, Jesus não cumpriu a Sua missão apenas de uma forma activa, ou seja, curando os doentes, fazendo milagres, anunciando o Reino de Deus; mas também de uma forma passiva (muitíssimo mais difícil de aceitar que aconteça, na minha opinião!) durante a sua longa Paixão, sabendo esperar santamente a realização do plano de Deus Pai. 

jesus passion.jpg

Imagem retirada daqui

Assim, de certa forma, a agonia de Jesus não será meramente a agonia da morte e do sofrimento, mas também a agonia de ter de esperar. É a agonia dum Deus que depende de nós para poder demonstrar a Sua divina presença entre nós; é a agonia dum Deus que, duma forma absolutamente misteriosa, permite-nos quase que decidir como Deus será Deus...

Descubro, assim, uma nova perspectiva de esperar - não apenas em esperar por Deus, mas também de participar na espera do próprio Deus ...

Meditando na parábola do trigo e do joio

Tenho andado a passar por um período de insónias e, assim, a Bíblia tem-me acompanhado ainda mais do que o costume. Nestes dias, a Igreja tem-nos levado a meditar em diversas parábolas de Jesus, transmitidas até aos dias de hoje através do Evangelho segundo São Mateus. 

Afastando-se, então, das multidões, Jesus foi para casa. E os seus discípulos, aproximando-se Dele, disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo.» (Mt 13,36)

Também eu, na solidão do meu quarto, longe das confusões e preocupações que me enchem os dias, me tento aproximar de Jesus, pedindo-Lhe incessantemente: Senhor, explica-me  ... 

«O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. Ora, enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se. Quando a haste cresceu e deu fruto, apareceu também o joio.

Os servos do dono da casa foram ter com ele e disseram-lhe: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?' 

'Foi algum inimigo meu que fez isto' - respondeu ele. 

Disseram-lhe os servos: 'Queres que vamos arrancá-lo?' 

Ele respondeu: 'Não, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo. Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa; e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; e recolhei o trigo no meu celeiro.'»  (Mt 13, 24-30)

trigo e joio.jpg

Imagem retirada daqui

 

Estarei eu atenta aquilo que vai crescendo dentro de mim, no campo que o Senhor semeou, no meu coração, na minha vida?

As sementes do Senhor são abundantes e numerosas. Como é que eu as tenho recebido? Como as tenho nutrido? Estarei a ter o cuidado de continuamente enriquecer o solo do meu campo, com a virtude da humildade (que tem origem na palavra "humus" - solo), ou estarei eu a deixar que ele se endureça de orgulho? 

 

Que tipo de sementes tenho eu permitido que criem raízes em mim? Sementes geradoras de vida, de trigo frutuoso, de trigo que se deixe arrancar e moer, para assim se tornar farinha e depois pão, a fim de dar vida aqueles que me rodeiam? Ou serão sementes ocas e vazias, que apenas ocupam espaço e tempo, impedindo que as boas sementes cresçam e se desenvolvam em pleno esplendor?


Contudo, é necessário aprender a esperar pelo tempo certo do Senhor. Se me deparar com algo que me pareça joio na minha vida, posso, num acto colérico, querer arrancá-lo imediatamente e assim tratar do assunto (à minha maneira, claro). Mas a verdade é que eu percebo pouco de "agricultura" ... saberei eu distinguir, realmente, o trigo do joio? Não, o Senhor não deseja que nenhum trigo se perca ou seja arrancado precocemente; e eu sei, por experiência, que percebo muito pouco de "agricultura" ... Na minha ânsia, posso estar a arrancar de forma irremediável algo que, na verdade, seja bom e traga o bem. É preciso ter paciência e esperar pela ordem interior que o Senhor nos dá - "Sim, é agora, é isso mesmo" ou "Não, ainda não, espera Marisa ...".

 

Pior ainda - posso cair na tentação de querer ir arrancar aquilo que me parece joio na vida do outro que me rodeia. Deixa-me que "te ajude", penso eu. Ah, que tentação frequente ... Não, apenas ao Senhor, e unicamente a Ele, pertence a ceifa e a colheita ...