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Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Meditando sobre Adão, Eva e o desejo de semelhança com Deus

Continuamos na maré de reflexões feitas durante as noites de insónia ...


O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo. O Senhor Deus levou o homem e colocou-o no jardim do Éden, para o cultivar e, também, para o guardar. O homem designou com nomes todos os animais domésticos, todas as aves dos céus e todos os animais ferozes; contudo, não encontrou auxiliar semelhante a ele. 

Então, o Senhor Deus fez cair sobre o homem um sono profundo; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem.     (Gn 2,7.15.20-22)

 

Costumava pensar em como deveria ser fácil e simples a vida no jardim do Éden. Oh, como seria bom voltar para lá, se fosse possível ... Quanto mais amadureço e mais vezes leio este relato, mais me vou apercebendo de que essa facilidade, afinal, não aparece escrita (nem implícita) em lado nenhum ... 

 

Na história do primeiro casal da humanidade, vemos claramente como cada um recebeu o outro das próprias mãos de Deus. Não foi por conquista, nem por procura, nem por qualquer mérito próprio. O dom da vida do outro foi puro dom imerecido, dado por pura bondade pelo Deus-Amor. 

Aliás, se lermos com atenção todo o relato da Criação, apercebemo-nos que tudo, absolutamente tudo - desde os animais, aos alimentos, até ao amor do cônjuge - é dado na forma de esperança e de dom de Deus. A lição diária da vida no jardim do Éden parece ser o aprender, dia após dia, a tudo receber das mãos de Deus ...

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Imagem retirada daqui

Adão é chamado a dominar o mundo, não para o destruir; mas para dele fazer brotar a vida, a cada novo instante, protegendo-a, conservando-a, guardando-a de todos os perigos ... 

Adão foi feito à imagem de Deus, sim. Mas, sozinho, nunca se poderia tornar Seu semelhante, como era o desejo mais profundo que Deus tinha semeado no seu coração, desde o primeiro momento de vida. Adão pressentia esta realidade, mesmo sem a conhecer na totalidade, e por isso sentia-se profundamente insatisfeito e incompleto. Porque, para tornar-nos semelhantes a Deus, temos de nos tornar semelhantes à Santíssima Trindade, pura comunhão de Amor.

Assim, Adão adormece e deixa que Deus realize este seu desejo mais profundo. Coloca-se, uma vez mais, nas mãos de Deus. Adão adormece na expectativa e na esperança de que o Deus-Amor - que ele tinha vindo a conhecer e amar a cada novo passeio pela brisa da tarde - seria capaz de cumprir perfeitamente esse desejo de completude do seu coração - como só o melhor dos Pais e o mais perfeito dos Criadores o poderia fazer.

 

E é sob esta confiança e este abandono à vontade Divina, da parte de Adão, que Deus vai moldar, dando um corpo e espírito, àquela que corresponderá ao coração de Adão. É mais uma ternura da parte de Deus, dar ao homem a alegria de ser atendido na oração... 

 

Finalmente, homem e mulher, unidos num só corpo e espírito, amando-se de tal forma que o seu amor transborda e transmite-se, ao ponto de ser capaz de gerar nova vida - tornando-se uma família - essa é a imagem e semelhança mais perfeita de Deus, Santíssima Trindade

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Imagem retirada daqui

A serpente retorquiu à mulher: «Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal».
Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele também a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu.     
(Gn 3,4-6)

É impressionante apercebermo-nos de como a tentação, trazida pela serpente, vem exactamente na direcção deste desejo profundo (e justo!) que Adão e Eva têm de se realizarem numa semelhança cada vez mais perfeita com Deus ...

Contudo, ao contrário do acto de puro abandono de Adão nas mãos de Deus, Eva cede à tentação de procurar cumprir este desejo por sua própria iniciativa. Ao contrário de Adão, que se abandona à vontade Divina, Eva cede à tentação da cobiça. Enquanto Adão tinha demonstrado que estava disposto a esperar pelo tempo do Senhor - quem saberia se ainda demoraria dias, meses, anos ou décadas! - até que o seu desejo fosse cumprido, Eva cede à tentação de querer adquirir, imediatamente, a realização da promessa sibilada pela serpente ...

 

Eis o balanço da tragédia: o desejo original, puro e bem ordenado, que atraía mutuamente o homem e a mulher, e tanto um como o outro para a sua realização na semelhança perfeita com o Deus-Amor, alterou-se - de forma, aparentemente, irremediável...

Este desejo de semelhança com Deus, no homem, tornou-se em vontade de domínio e de posse sobre o outro - em vez de o acarinhar e proteger como dom de Deus. Na mulher, transformou-se em cobiça jamais saciada e numa atitude de insatisfação perene - em vez do acolhimento e nutrimento a que era inicialmente chamada ...

 

E pensar que Jesus, na Sua humanidade, e através da nova mulher, Maria, veio não só redimir e reparar o pecado cometido - por mim, por ti, todos os dias da nossa vida - mas também libertar-nos dele e das suas garras, e assim salvar-nos - para sempre! Sempre!

Meditando na parábola do trigo e do joio

Tenho andado a passar por um período de insónias e, assim, a Bíblia tem-me acompanhado ainda mais do que o costume. Nestes dias, a Igreja tem-nos levado a meditar em diversas parábolas de Jesus, transmitidas até aos dias de hoje através do Evangelho segundo São Mateus. 

Afastando-se, então, das multidões, Jesus foi para casa. E os seus discípulos, aproximando-se Dele, disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo.» (Mt 13,36)

Também eu, na solidão do meu quarto, longe das confusões e preocupações que me enchem os dias, me tento aproximar de Jesus, pedindo-Lhe incessantemente: Senhor, explica-me  ... 

«O Reino do Céu é comparável a um homem que semeou boa semente no seu campo. Ora, enquanto os seus homens dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e afastou-se. Quando a haste cresceu e deu fruto, apareceu também o joio.

Os servos do dono da casa foram ter com ele e disseram-lhe: 'Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio?' 

'Foi algum inimigo meu que fez isto' - respondeu ele. 

Disseram-lhe os servos: 'Queres que vamos arrancá-lo?' 

Ele respondeu: 'Não, para que não suceda que, ao apanhardes o joio, arranqueis o trigo ao mesmo tempo. Deixai um e outro crescer juntos, até à ceifa; e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; e recolhei o trigo no meu celeiro.'»  (Mt 13, 24-30)

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Imagem retirada daqui

 

Estarei eu atenta aquilo que vai crescendo dentro de mim, no campo que o Senhor semeou, no meu coração, na minha vida?

As sementes do Senhor são abundantes e numerosas. Como é que eu as tenho recebido? Como as tenho nutrido? Estarei a ter o cuidado de continuamente enriquecer o solo do meu campo, com a virtude da humildade (que tem origem na palavra "humus" - solo), ou estarei eu a deixar que ele se endureça de orgulho? 

 

Que tipo de sementes tenho eu permitido que criem raízes em mim? Sementes geradoras de vida, de trigo frutuoso, de trigo que se deixe arrancar e moer, para assim se tornar farinha e depois pão, a fim de dar vida aqueles que me rodeiam? Ou serão sementes ocas e vazias, que apenas ocupam espaço e tempo, impedindo que as boas sementes cresçam e se desenvolvam em pleno esplendor?


Contudo, é necessário aprender a esperar pelo tempo certo do Senhor. Se me deparar com algo que me pareça joio na minha vida, posso, num acto colérico, querer arrancá-lo imediatamente e assim tratar do assunto (à minha maneira, claro). Mas a verdade é que eu percebo pouco de "agricultura" ... saberei eu distinguir, realmente, o trigo do joio? Não, o Senhor não deseja que nenhum trigo se perca ou seja arrancado precocemente; e eu sei, por experiência, que percebo muito pouco de "agricultura" ... Na minha ânsia, posso estar a arrancar de forma irremediável algo que, na verdade, seja bom e traga o bem. É preciso ter paciência e esperar pela ordem interior que o Senhor nos dá - "Sim, é agora, é isso mesmo" ou "Não, ainda não, espera Marisa ...".

 

Pior ainda - posso cair na tentação de querer ir arrancar aquilo que me parece joio na vida do outro que me rodeia. Deixa-me que "te ajude", penso eu. Ah, que tentação frequente ... Não, apenas ao Senhor, e unicamente a Ele, pertence a ceifa e a colheita ... 

 

Em breves instantes da Comunhão ...

No contexto desta epidemia que vivemos, na nossa igreja paroquial foi necessário retirar todos os bancos de madeira e passar a sentar-nos em cadeiras dispersas e espaçadas entre si na celebração da Santa Missa. Além disso, dada as dimensões e a configuração da nossa igreja, no momento da Sagrada Comunhão não é possível que nos dirijamos de forma ordenada e distanciada até ao altar (como sei que está a ser feito na maior parte das igrejas), para aí recebermos Jesus.

Ou seja, na nossa paróquia, quem pode comungar, afasta a máscara da sua face e aguarda no seu lugar ... Para podermos receber Jesus dentro de nós, é necessário retirarmos todas as máscaras que insistimos em manter - no trabalho, na rua, em casa, e até connosco mesmo - despindo-nos de todas as pretensões e aguardando, com humildade e esperança, a chegada do Divino Hóspede, que trará uma nova vida à morada da nossa alma.

 

Ó, a beleza de saber esperar que Cristo venha até junto de mim, desde lá do altar onde foi Sacramentado, sacrificado e imolado para a minha salvação eterna ... 

Ó, a graça de poder esperá-Lo ajoelhada no chão frio de pedra, em reverência do enorme Mistério de Amor que Se vai aproximando de mim, aos poucos, sob a forma duma pequena hóstia branca, para que eu não me assuste com a Sua Divina Presença...

 

No meu lugar na igreja, assim como nas circunstâncias da minha vida, posso e escolho recebo-Lo ajoelhada, as mãos estendidas em forma de concha, como uma mendiga que pedincha por um pouco de Amor, só um pouco d'Ele ... sim, peço apenas um pouco, mas Ele dá-Se todo, dá-Se na totalidade, dá-Se por completo, por inteiro, sem que uma réstia da Sua Humanidade ou da Sua Divindade fique para trás ... 

A nossa igreja na (mini-micro) celebração Pascal deste ano 2020

A nossa igreja na (mini-micro) celebração do Tríduo Pascal neste ano 2020

 

Que acto de confiança da parte de Jesus, aceitar ser assim colocado nas nossas mãos! Quão vulnerável Se encontra naquele instante! O Criador do Céu e da Terra, o Criador de todo o Universo - ali mesmo, na palma da minha mão! Que mistério admirável ...

 

Por uns breves instantes, tenho Jesus entre as minhas mãos, junto ao meu peito. Penso em Maria em Belém, em Nazaré, no Egipto, ao longo da infância e juventude de Jesus: quantas vezes não o terá feito também, segurando-O assim nas suas mãos e trazendo-O até junto do seu regaço?

 

É Jesus que vem até junto de mim, desejoso de fazer parte da minha vida e do meu ser. A iniciativa é Dele. É Ele que inicia este acto de entrega de Amor.

Mas a resposta à Sua iniciativa de amor é minha. A decisão de O aceitar é minha. Sou eu que tenho de me dobrar ligeiramente, erguer as mãos e trazê-Lo até junto dos meus lábios, como que para O beijar. 

Ele ficará ali, nas minhas mãos, totalmente entregue. A decisão de aceitar receber o Seu amor é minha. Deus nunca Se impõe nem obriga ninguém. O que quer que façamos, só o poderemos fazer em resposta da iniciativa que partiu d'Ele. O que quer que façamos, só o poderemos fazer, à Sua imagem e semelhança, numa resposta com e por amor - num livre e sincero dom de si...

 

Como Deus é bom, ao permitir-nos contemplar tantas maravilhas em tão breves instantes ... Louvado sejas Senhor! 

O divino Jardineiro

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã, ainda escuro, e viu retirada a pedra que o tapava.  (Jo 20,1)

Recentemente, por inspiração dum querido padre, tive a oportunidade de olhar com novos olhos para aquele que é um dos meus episódios favoritos em toda a Bíblia.

Conta-nos São João, o discípulo tão amado pelo Senhor

Maria estava junto ao túmulo, da parte de fora, a chorar. Sem parar de chorar, debruçou-se para dentro do túmulo, e contemplou dois anjos vestidos de branco, sentados onde tinha estado o corpo de Jesus, um à cabeceira e o outro aos pés. Perguntaram-lhe: «Mulher, porque choras?» E ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde O puseram.»
Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus, de pé, mas não se dava conta que era Ele. E Jesus disse-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que era o jardineiro, disse-lhe: «Senhor, se foste tu que O tiraste, diz-me onde O puseste, que eu vou buscá-Lo.» 

Disse-lhe Jesus: «Maria!» Ela, aproximando-se, exclamou em hebraico: «Rabbuni!» - que quer dizer: «Mestre!» Jesus disse-lhe: «Não Me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os Meus irmãos e diz-lhes: 'Subo para o Meu Pai, que é vosso Pai, para o Meu Deus, que é vosso Deus.'» Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos: «Vi o Senhor!» E contou o que Ele lhe tinha dito.

Jo 20, 11-18

E se Maria Madalena, na verdade, não se enganou? E se ela viu, verdadeiramente, o divino Jardineiro?

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Para perceber temos de voltar ao início, lá bem atrás no Génesis, do início da Criação, como nos mostrou tão belamente o Papa João Paulo II, ao oferecer-nos a todos o dom da revelação da Teologia do Corpo...

 

No início, Deus criou um jardim, rico em frutuosas virtudes e em belos actos de amor. Era o jardim mais bonito deste mundo - o coração unido dum homem e duma mulher. Feitos à imagem e semelhança de Deus - a Santíssima Trindade, plena comunhão de Amor - nada podia ser mais belo ou perfeito.

O homem, formado a partir da rudeza da terra, cumpria perfeitamente a sua vocação - ser aquele que providencia, que governa, que cuida e protege, que inicia o amor. A força, a firmeza e a segurança eram a sua própria essência. 

Já a mulher, formada a partir da carne e do sangue, cumpria a sua própria vocação, diferente e complementar à do homem. Ela era aquela rica em sentimentos e emoções, aquela capaz de acolher no seu seio de mulher e mãe, capaz de receber o amor de Adão e de o frutificar, ao tornar o seu próprio ser num autêntico lar. O cuidar, o acarinhar, o compadecer-se, o ajudar a crescer e fortalecer era o seu chamamento.

 

Mas a serpente era esperta e matreira, e conseguiu descobrir, no meio de tantas virtudes, uma pequena brecha onde pudesse deitar - bastou umas meras gotas - do seu veneno mortal. 

Sendo a mulher naturalmente mais notada a estar atenta aos outros e às suas necessidades - enquanto o homem tende a focar-se no dever, no trabalho, na conquista e na luta diária - e sendo ela a chave certeira para alcançar as profundezas do coração do homem, claro que a maldita serpente se dirigiu primeiramente a Eva. E assim, no coração da mulher, o diabo gerou pela primeira vez a dúvida e a suspeita....

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«E se ...» E se eu ouvir só um bocadinho, esta voz que me sussurra ao ouvido? E se aquilo que a serpente diz for verdade? Porque não deseja Deus que nós comamos do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal? Estará Deus a esconder-nos alguma coisa? Se nos ama, porque não nos permite comer de todos os frutos? Porque não podemos ter tudo? E se, em vez de morrermos ao comer do fruto proibido, nos tornar-nos ainda melhores, mais sábios, mais belos, mais santos - afinal, é a árvore do conhecimento do bem e do mal ... 

A cada novo pensamento o fruto proibido se tornava mais apetitoso, apeticível, desejável ... Se eu quero, se me apetece, se está aqui mesmo à mão, que me impede de o fazer? Não serei eu, porventura, livre? (é impressionante como esta linha de pensamento tem ressoado e ecoado até aos dias de hoje ...)

 

Então a mulher toma a iniciativa - não era essa a vocação de Adão? - pega no fruto e come. E onde está Adão? Porque não está ele a cumprir a sua vocação e a proteger o seu bem mais precioso, a sua esposa e irmã, formada a partir do seu próprio coração? Oh, a ele já não era preciso que uma serpente o seduzisse e enganasse, pois ele próprio já se tinha deixado levar pelo mundo que o rodeava, focado nos seus próprios projetos de conquista de todo o mundo ....

Ambos comeram do fruto proibido, porque ambos almejavam tornar-se como deuses. E assim, os olhos de ambos, que antes apenas viam o amor sincero e verdadeiro, o bom e o belo, tornaram-se capazes de contemplar aquilo que eles próprios tinham construído - o pecado, a desconfiança, o medo, a vergonha, a maldade. 

Porque não me protegeste? Eu confiava em ti! A culpa é dele! - diz Eva a Adão e ao Senhor.

Porque me ofereceste algo que me levou à morte? Eu confiava em ti! A culpa é dela! - diz Adão a Eva e ao Senhor. 

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E assim, as nossas próprias escolhas, o nosso próprio pecado - a recusa e a desconfiança no amor que Deus e o outro tem para nos dar - levam-nos do belo jardim ao mais inóspito deserto, onde vagueamos sem cessar, à procura da verdadeira fonte de água vida e do verdadeiro maná que vem do céu ... 

É assim que a vou seduzir: ao deserto a conduzirei, para lhe falar ao coração (Os 2,16) 

Deus é incapaz de suportar esta separação, esta divisão, este abismo enorme que nós próprios cavámos. É o próprio Deus, qual divino Jardineiro, que vem dar uma nova vida ao deserto do coração humano:

Eis que venho renovar todas as coisas (Ap 21,5)

 

Jesus, como novo Adão, demonstrou na Cruz o seu perfeito amor - livre, total, fiel e fecundo - capaz de dar a própria vida para proteger a Sua amada - cada um de nós. 

No sítio em que [Jesus] tinha sido crucificado havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. (Jo 19,41)

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Jesus é o divino Jardineiro, capaz de transformar o coração de cada homem e mulher dum deserto hostil e árido num autêntico jardim cheio de vida, luz e cor - a nova Jerusalém celeste, santa e imaculada, tal como nos promete o último livro da Bíblia.

Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo.

E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: «Esta é a morada de Deus entre os homens». (Ap 21,1-3)

Mostrou-me, depois, um rio de água viva, resplendente como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça da cidade e nas margens do rio está a árvore da Vida que produz doze colheitas de frutos; em cada mês o seu fruto, e as folhas da árvore servem de remédio para as nações.  (Ap 22,1-2)

Ah, Maria Madalena, a primeira a ser chamada para entrar no jardim aberto por Jesus ...

Talvez, no final das contas, Maria Madalena tenha tido razão ao identificar Jesus Ressucitado como o divino Jardineiro, que a todos traz a vida e a vida em abundância ... 

O véu que se rasga e a porta que se abre ... para sempre!

Jesus, com um grito forte, expirou. E o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo (Mt 15, 38)

Com a morte de Jesus rasga-se o véu do templo de Jerusalém. Este véu localizava-se no interior do templo, à entrada do Santo dos Santos, o local mais sagrado para os judeus, onde apenas o Sumo Sacerdote podia entrar (e apenas uma só vez no ano) para estar na presença do Altíssimo e pronunciar o Seu Nome santo.

Este véu, ao contrário dos véus a que estamos habituados, não era de renda, nem de nenhum tecido fininho, transparente ou frágil. Era mais uma tapeçaria, um têxtil que apenas podia ser produzido pelo melhor artesão, sujeito a inúmeras regras, utilizando fios de lã de cor azul (simbolizando o Criador do mundo), de cor roxa (significando a realeza do Senhor dos Exércitos) e de cor escarlate (simbolizando o sangue dos sacrifícios) juntamente com fios do linho mais puro, pela pureza do Santo de Israel. Depois, tinha ainda de ser bordada a ouro, com a imagem de dois querubins, de dois anjos que guardavam, de dia e de noite, a porta que dava acesso ao Senhor. E o que se dizer das suas dimensões? Nada mais nada menos que 5m de largura, 5m de altura e 5cm de espessura de acordo com as Escrituras...

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Imagem retirada daqui

Com a morte de Jesus rasga-se o véu do templo de Jerusalém. Este véu espesso e forte, que impedia o acesso a Deus, é dividido em dois e rasgado de alto a baixo. O rosto de Deus, que sempre tinha estado, até aquele momento, escondido e velado - até mesmo de Moisés, que falava com o Senhor como se fosse um amigo - é então revelado a todos, judeus e pagãos. 

É o próprio Deus que retira o véu e que Se mostra e releva livremente, como Aquele que ama até ao fim, Aquele que ama até dar a própria vida pelo ser amado... 

O véu foi rasgado. A porta foi escancarada. O peito foi aberto. O acesso a Deus está livre!

No primeiro dia da semana, ao romper do dia, as mulheres foram ao sepulcro, levando os perfumes que tinham preparado. Encontraram removida a pedra da porta do sepulcro e, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus. Apareceram-lhes dois homens em trajes resplandecentes, que lhes disseram: «Porque buscais entre os mortos Aquele que vive? Não está aqui: ressuscitou!» (Lc 24, 1-3.4b.5b)

Temos o azul do céu, o roxo dos perfumes, o escarlate das marcas do sangue e o branco da mortalha e das ligaduras. À entrada, dois anjos guardam a porta que dá acesso ao Senhor e a porta está completamente aberta ... Já nada, nem mesmo o pecado nem a morte, nos pode separar do amor de Deus!

Aleluia! Aleluia! 

A Verdade

«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida». (Jo 14,6)

Jesus é a Verdade. Deus é a Verdade. A Verdade é Deus.

Assim, o mundo torna-se cada vez mais verdadeiro na medida em que reflectir Deus - o amor de Deus e o Deus de amor. Assim, o mundo torna-se tanto mais verdadeiro quanto mais se aproximar de Deus e do Seu Reino de verdade, vida, liberdade, amor. 

O homem torna-se cada vez mais verdadeiro, cada vez mais ele mesmo, cada vez mais parecido com o ser que deveria ser, quanto mais se conformar com o próprio Deus, quanto mais se tornar a Sua imagem e semelhança. 

Deus é a realidade que nos confere a natureza e o sentido do nosso ser. 

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Imagem retirada daqui

«Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. (Jo 17,37)

Dar testemunho da Verdade significa então pôr Deus em realce, dar-Lhe o primeiro lugar em todos os instantes e em todos os aspectos da nossa vida. Dar testemunho da Verdade significa estar atento, colocar-nos em atitude constante de escuta e pôr em prática a Sua vontade.

«Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. (Jo 17,37)

A Redenção que Cristo nos veio oferecer foi assim, de certo modo, o tornar a Verdade perfeitamente reconhecível, identificável, perceptível - para todos. 

Que é a Verdade?

«Que é a Verdade?» (Jo 18,38)

Esta é a pergunta que Pilatos faz a Jesus, já no final do seu interrogatório. Realmente, ele faz a pergunta - mas não quer ouvir a resposta. É por isso que Pilatos foge - "dito isto, foi ter de novo com os judeus" (Jo 18,39). Porque, se ouvisse a resposta, algo, depois, teria de mudar... Ninguém pode permanecer o mesmo, viver da mesma forma, agir do mesmo modo - depois de fazer uma pergunta destas Àquele que tudo criou. Não depois de ouvir a resposta ...

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Imagem retirada daqui

Jesus sabia que Pilatos não ia querer ouvir a resposta à sua própria pergunta - «Que é a Verdade?» (Jo 18,38) a pergunta que brotou espontaneamente do seu coração, sem que ele a pudesse impedir de se expressar, sem que a razão - fria, política, calculista, como era seu hábito - dominasse a questão profunda que a sua alma procurava ...

Mas foi para poder responder clara e definitivamente a esta questão - que surge não só no coração de Pilatos, mas também de cada homem, mais tarde ou mais cedo ao longo da sua vida - que Jesus encarnou, viveu, morreu e ressuscitou. É por isso que Jesus oferece a Pilatos, subtilmente, a resposta, antes mesmo de este a pronunciar em voz alta, quando ainda só o tinha feito no fundo da sua alma. E esta é a única resposta capaz de o (e de nos) saciar 

«Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade.

Todo aquele que vive da Verdade, escuta a Minha voz». (Jo 18,37)

A voz doce e verdadeira d'Aquele que nos diz

«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida». (Jo 14,6)

Fala, Senhor, que o Teu servo escuta ... 

Vivendo hoje mesmo a Vida Eterna

Assim falou Jesus, levantando os olhos para o céu, exclamando: «Pai, chegou a hora! Manifesta a glória do Teu Filho, de modo que o Filho manifeste a Tua glória, segundo o poder que Lhe deste sobre toda a Humanidade, a fim de que dê a vida eterna a todos os que Lhe entregaste. Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste».

Jo 17,1-3

No outro dia, apercebi-me da tendência que tenho em pensar na «vida eterna» como sendo apenas a vida que começará depois da nossa morte. Oh, quando formos para o Céu! Oh, viveremos eternamente no Reino do amor de Deus! Como seremos felizes, felizes!.... 

Mas não, não é assim. Ao meditar nesta passagem de São João, apercebo-me do meu grave erro. A vida eterna não é algo que ainda vai começar. É algo que já começou!

Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste.           (Jo 17,3)

A partir do momento que ocorre esta conversão no nosso coração, esta  no Senhor nosso Deus, Criador do céu e da terra, nosso Pai que tanto nos ama, ao ponto de nos enviar o Seu Filho para nos redimir de todos os pecados que nós fizémos, apenas para podermos ter a possibilidade de entrarmos novamente em plena comunhão de amor com Ele ... É aí, aí mesmo, que começa a nossa vida eterna...

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Imagem retirada daqui

Diz-nos Jesus, no relato da ressurreição do Seu querido amigo Lázaro:

«Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em Mim não morrerá para sempre.»       ( Jo 11,25-26)

Os primeiros cristãos compreenderam logo esta realidade, profunda e transformadora, que Jesus nos veio oferecer. Chamavam-lhes "os viventes", segundo nos conta o nosso Papa Bento XVI, porque tinham encontrado aquilo que todos procuravam (e que continuam, ainda hoje, a procurar): a própria vida, a vida plena, verdadeira, imperecível, invencível, contra a qual a morte não tem nenhum poder ...

Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste.           (Jo 17,3)

Cada homem encontra esta vida que tanto procura, a «vida eterna», através do conhecimento de Deus, do verdadeiro e único Deus. Conhecer, segundo a linguagem bíblica, significa comunhão, intimidade, entrega, identificação plena com aquele que queremos conhecer... 

A vida eterna torna-se assim, de certa forma, numa relação do mais profundo amor com Aquele que é em Si mesmo a verdadeira fonte da vida.