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Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

As tentações de Jesus e as nossas

O início da Quaresma leva-nos, com Jesus, ao deserto.

Uma vez baptizado, Jesus saiu da água e eis que se rasgaram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do Céu dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no Qual pus todo o Meu agrado.» Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. (Mt 3,16-17; 4,1)

O momento em que os céus se rasgaram e o Espírito Santo desceu sobre a terra, parece ter sido um momento marcante e decisivo na caminhada de Jesus, em direcção ao pleno conhecimento da vontade do Pai. Parece ter sido o momento em que Cristo recebeu uma confirmação total acerca da missão a que o Pai O chamava, assim como das suas implicações, ou seja, a redenção de toda a humanidade através do Seu sacrifício de amor na Cruz. 

Ao ler estes versículos, impressiona-me como Jesus, após um acontecimento com tanta glória e louvor, obedecendo voluntariamente à doce voz do Espírito, abandona todas as consolações e presenças humanas e Se retira sozinho para o deserto. Para aí passar pela prova de ser tentado por Satanás.

 

Fala-se cada vez menos de Satanás nos dias de hoje e isto é algo que muito lhe convêm e que ele deseja que permaneça assim. Porque, nós não tentaremos combater aquilo que desconhecemos sequer que existe. E, assim, permitimos que ele continue a manipular-nos e a manipular as nossas vidas, como tanto se observa na nossa sociedade de hoje em dia, sem haver qualquer resistência da nossa parte ...

Contudo, também não podemos cair no espectro oposto, de lhe atribuir poder e capacidades que ele, na verdade, não tem. Ele bem gosta de o fingir, para que acreditemos que ele é muito poderoso e capaz e que nós somos impotentes perante o seu aparente poder. Por exemplo, Satanás, sendo um anjo (se puderem voltem a ler este post sobre os anjos), ainda que decaído, desconhece o futuro - isso só Deus conhece - e apenas conhece o presente à mesma velocidade que nós, assistindo e vivendo o acontecer de cada coisa e acontecimento tal como nós. É verdade, ele conhece o passado, porque o viveu também, e, nesse aspecto, ele é perito em fazer-nos recordar o nosso passado - mas apenas as partes que lhe dão jeito, na sua constante tentativa de nos manipular ....

Diz-nos o Arcebispo Fulton Sheen que, enquanto Deus é pura verdade, definindo-Se a Si mesmo como "Aquele que é", a essência de Satanás é a mentira, podendo ser definido como "Aquele que não é". Ele é o tentador, o mentiroso, o enganador, o fingido por excelência. Uma das poucas capacidades que ele realmente tem é de ser extremamente perspicaz. Ele sabe identificar muito bem os nossos pontos fracos, está atento a cada uma das nossas reacções, sabe estudar bem as nossas tendências, os nossos padrões de comportamento e de pecado. Ele adapta-se astuciosamente a cada circunstância e a cada personalidade, falando-nos sempre através de meias-verdades, com declarações e sugestões parcialmente verdadeiras, mas sempre distorcidas e fraudulentas. E com que objectivo? Sempre na tentativa de nos afastar total e definitivamente do amor do Senhor e de nos arrastar com ele para o Inferno, onde ele próprio está já eternamente condenado. 

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Imagem retirada daqui

Podemos comprovar tudo isto, se acompanharmos Jesus ao ser tentado no deserto pelo Demónio. São Mateus conta-nos que "o Tentador aproximou-se" de Jesus (Mt 4,3a). A sua astúcia e capacidade de manipulação é de tal modo que Satanás tenta Jesus fingindo que O tentava ajudar a descobrir a resposta à questão, que tinha sido gerada no Seu coração e na Sua mente após ter sido Baptizado: Como poderia Ele cumprir mais perfeitamente a Sua missão de redenção entre os homens?

Tinha sido para descobrir a resposta a esta pergunta que Jesus tinha-Se retirado sozinho para o deserto, para aí jejuar e orar durante 40 dias e 40 noites, escutando a voz do Pai e deixando-Se moldar por Ele. Mas, se o problema estava em como Jesus poderia "ganhar" e converter o coração dos homens, então o Diabo tinha umas quantas sugestões a dar-Lhe.

Todas elas envolviam - adivinhem só - um espécie de bypass, um atalho, à expiação dos nossos pecados através da Cruz. Deus Pai tinha-Lhe dito, nestes 40 dias de oração no deserto, que esta era a única maneira. Satanás tenta persuadi-Lo de que não, de que há outras maneiras. Hmm, onde é que eu já vi isto acontecer? 

A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens e disse à mulher: «É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?» A mulher respondeu-lhe: «Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ‘Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis'. A serpente retorquiu à mulher: ‘Não, não morrereisporque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal‘.» (Gn 3,1-5)

Sim, nas tentações de Jesus no deserto veremos uma repetição das tentações de Adão (e de Eva) no Jardim do Éden. Mas, enquanto os nossos primeiros pais cederam à tentação, Jesus saiu vitorioso, vencendo cada uma delas.

Recordemos: qual era o objectivo, qual era a missão primordial de Deus para Adão e Eva? Viverem e participarem plenamente no Seu reino de amor, como Seus filhos muito amados, e como colaboradores do Seu poder Criador. Tal como o Catecismo da Igreja Católica nos resume na resposta à pergunta: "Para que fomos criados? Para conhecer, amar e servir a Deus" - uma resposta aparentemente simples mas tão poderosa e transformadora, se meditarmos bem nela ...

A serpente, contudo, tenta desviá-los desse objectivo e dessa missão, à semelhança do que tentará fazer com Jesus no deserto. O Diabo tenta distraí-los. Cria e fomenta uma falsa vontade nos seus corações, uma falsa necessidade, suscitando-lhes uma curiosidade que se revelará mortífera. Ele elabora uma mentira e tenta persuadi-los de que é verdade. 

Os nossos pais acreditam nesta mentira, cedem sem aparente resistência, e pecam gravemente, rejeitando o amor de Deus e expulsando-se a si mesmos da Sua presença e do Seu reino. Grande foi a alegria de Satanás naquele dia ... 

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Imagem retirada daqui

Agora, Satanás tentará fazer o mesmo com Jesus. As suas tentações tentam distrair Jesus da Sua missão de salvação do género humano. O Diabo tenta convencer Jesus de que há outras maneiras de alcançar a desejada Redenção da humanidade. Tenta persuadi-Lo e pô-Lo a duvidar da real necessidade da Sua entrega à vontade do Pai, através do Seu sacrifício voluntário na Cruz. Em vez de ser pela dolorosa e humilhante Cruz, Satanás tenta sugerir-Lhe três outras maneiras, uma espécie de três atalhos que, aparentemente, prometiam alcançar o mesmo fim - a salvação das almas. 

 

Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele também a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu. (Gn 3,6)

Reparem: os nossos pais começaram por ver que o fruto proibido deveria ser bom para comer, repararam no seu bom e atraente aspecto e concluíram que deveria ser bastante precioso e útil para lhes esclarecer a inteligência (e, assim, tornarem-se basicamente iguais a Deus e ocuparem o Seu lugar). Se meditarmos no assunto, perceberemos que o homem tende a ser tentado e tende a pecar de uma entre três principais maneiras (ou categorias): as que estão relacionadas com os prazeres da carne (pelos pecados da gula e da luxúria), as que estão relacionadas com o desejo de posse e o amor pelas coisas do mundo (pecado da ganância e da inveja) e as que estão relacionadas com o poder e a auto-idolatria (pecado do orgulho).

Da mesma forma, e pela mesma ordem, foi Jesus tentado no deserto pelo Demónio, para nos mostrar como podemos resistir e vencer estas tentações.

Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fomeO tentador aproximou-se e disse-Lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães»  (Mt 4,1-3)

primeira tentação foi a da procura do conforto e do prazer dos sentidosQue situação mais absurda - Deus a sentir fome! Onde é que isso já se viu? Como pode tal ser possível? Se Deus alimentou miraculosamente um povo tão numeroso durante 40 anos no deserto, porque é que agora não faz surgir um banquete para Si mesmo? Porque é que o próprio Deus se permite sofrer esta humilhação e passar por esta necessidade tão humana (apenas) para redimir as Suas criaturas? Parece loucura ...

Aliás, o Diabo parece prometer e sugerir-Lhe que, se Jesus usasse o Seu poder para alimentar todos os famintos deste mundo, então Ele ganharia os seus corações e, assim, a Cruz deixaria de ser necessária. Não parece um bom negócio? 

Na verdade, Jesus recordará e passará novamente por esta tentação quando, pregado na Cruz em plena agonia, todos os que passarem por Ele Lhe disserem asperamente: «Salva-Te a Ti mesmo! Se és Filho de Deus, desce da cruz!» (Mt 27,40) 

Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» (Mt 4,4).

Sim, Jesus passou realmente fome e sede no deserto. E, assim, uniu-Se a toda a humanidade sofredora, sedenta e faminta. Uniu-Se não só àqueles que têm falta de comida e de bebida, tão numerosos no tempo de Jesus como no nosso, mas também àqueles que têm sede e fome de Deus - e esses, sim, são muitíssimo mais numerosos hoje em dia, e encontram-se em quase todas as casas deste mundo.. O homem têm necessidades muitíssimo mais profundas do que aquelas que podem ser saciadas apenas com pão. São homens e mulheres que estão carentes duma felicidade muitíssimo maior do que ter apenas um estômago cheio. Foi para saciar tanto uma, como a outra fome, que Jesus encarnou, habitou entre nós e Se entregou, fazendo de Si mesmo e do Seu corpo o verdadeiro alimento, que nos dá a Vida Eterna.

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Imagem retirada daqui

segunda tentação foi a da procura da posse e do controlo de todas as coisas: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, que o Senhor Te sustentará» (Mt 4,6). Jesus tem perfeita noção que o caminho a que o Pai O chama terá poucos adeptos. Poucos Lhe darão ouvidos. Poucos O seguirão. Poucos se converterão. Não é um caminho fácil nem atraente aquele que Jesus nos proporá: «Se alguém quiser seguir-Me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me» (Lc 9,23)

Nesta segunda tentação, o Diabo tentará persuadir Jesus a esquecer o caminho da Cruz e a substituí-lo por um caminho que demonstre chamativamente o Seu poder, que seja atractivo e cativante, a fim de tornar mais fácil que todos os homens O sigam.

Quase que oiço o Demónio a dizer-Lhe: 'Porque hás-de preferir um caminho longo e penoso, através do derramamento de sangue e de tanta dor, para converteres os homens? Porque hás-de preferir um caminho em que sejas desprezado, rejeitado e humilhado, enquanto podes escolher um caminho mais curto e eficaz se realizares um milagre vistoso e admirável? Pelo caminho da Cruz, serás como um fantoche nas mãos dos homens, farão de Ti o que eles quiseres, não poderás controlar nada - mas, se Tu quiseres, está aqui mesmo a Tua oportunidade de tomares controlo sobre tudo! Pelo caminho da Cruz, não saberás quantas pessoas conseguirás converter, mas se realizares maravilhas e feitos impossíveis prometo-Te que todos acreditarão! Se és realmente Filho de Deus, eu desafio-Te a fazeres algo heróico, para que todos possam testemunhar o Teu poder e assim acreditar!'

Então, o Diabo conduziu-O à cidade santa e, colocando-O sobre o pináculo do templo, disse-Lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, pois está escrito: 'Dará a Teu respeito ordens aos Seus anjos; eles suster-Te-ão nas suas mãos, para que os Teus pés não se firam nalguma pedra'» Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!» (Mt 4, 5-7)

Também mais tarde Jesus recordará esta tentação quando, à Sua volta, uma multidão se reunir exigindo-Lhe um milagre, qualquer que fosse, que provasse as Suas palavras e tornasse mais fácil para eles acreditarem plenamente. "As multidões afluíram em massa e [Jesus] começou a dizer: «Esta geração é uma geração perversa, [que] pede um sinal»" (Lc 11,29) 

Realmente, se Jesus realizasse esses grandes e admiráveis feitos que O coagiam a fazer, multidões de homens O seguiriam. Mas, como é que isso os beneficiaria, se o pecado permanecesse incrustrado nas suas almas? 

Responderá Jesus: «Não tentarás o Senhor teu Deus!» (Mt 4, 7). Não, não farei nada disso que Me pedem. Não farei a vossa vontade, que mal sabeis o que pedis ou o que precisais, mas farei, sim, e sempre, a vontade de Meu Pai. Só quando Me virem pregado numa Cruz se sentirão atraídos até Mim. Só através do Meu sacrifício, do pleno uso da Minha liberdade, da Minha entrega por amor é que, verdadeiramente, os homens se converterão e deixarão os seus maus caminhos.

E responderá Jesus às multidões que O tentam chantagear: «Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não lhe será dado sinal algum, a não ser o de Jonas» (Lc 11, 29). Nenhum sinal vos será dado, a não ser o sinal de Alguém que será elevado aos Céus, após ter saído e vencido as profundezas das águas do abismo e da morte...  

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Por fim, a terceira tentação foi a da procura da própria glória e louvor: «Tudo isto [reinos e poderes do mundo] Te darei, se, prostrado, me adorares» (Mt 4,9). Satanás tenta, numa última e derradeira tentativa, distrair e desviar Jesus do caminho da Cruz. Se Jesus, tal como Ele próprio o diria mais tarde, veio a este mundo para estabelecer nele o Reino de Deus, porque não escolhia Ele um caminho mais rápido para alcançar tal? Porque não Se submetia Àquele que se apresentava como Senhor deste mundo?

Levando-O a um lugar alto, o Diabo mostrou-Lhe, num instante, todos os reinos do universo e disse-Lhe: «Dar-Te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver. Se Te prostrares diante de mim, tudo será Teu.» (Lc 4, 5-7) 

Será que o mundo foi-lhe realmente dado? Será que o mundo realmente lhe pertence? A contínua escolha dos homens pelo pecado parece corroborar esta afirmação. Por voto e vontade da maioria dos homens, comprovado pelas suas acções e escolhas diárias, não haveria dúvidas de que todo o mundo lhe pertencia ... em especial nos dias e na sociedade de hoje.

Mas não, isso não é verdade. Pode-nos parecer, por vezes, sim. Mas lembrem-se que Satanás é o príncipe da mentira e do fingimento! O Diabo promete que Jesus poderia ficar com tudo o que existe no mundo, desde que Ele não o tentasse mudar. Poderia ficar com os corações de toda a humanidade, desde que Ele prometesse não os tentar salvar e redimir. 

Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» (Mt 4, 10)

Jesus responder-lhe-á: 'Vai-te Satanás! Adorar-te é servir-te e servir-te é ser escravo do pecado. Foi exactamente para tornar a humanidade livre das garras do pecado que Eu vim. Eu não desejo nada deste mundo enquanto eles estiverem presos nas amarras da maldade e da culpa. Primeiro, Eu irei vencer a maldade e a conscupiscência no coração dos homens, e então depois conquistarei o mundo e serei coroado Rei de todo o Universo! Eu prefiro perder e abdicar de tudo o que existe neste mundo, do que perder uma só alma para o Reino de amor do Meu Pai!'

Então, o Diabo deixou-O e chegaram os anjos e serviram-n'O. (Mt 4,11)

 

Por agora, a vitória foi alçancada. Ao contrário do primeiro Adão, o novo e eterno Adão, Jesus, vence as grandes tentações que continuamente assaltam a humanidade. O Diabo deixa-l'O-á mas não será por muito tempo. Uns capítulos à frente, leremos como o Tentador conseguirá apoderar-se momentaneamente do coração de Pedro. Ele, o primeiro entre os discípulos a reconhecer o Messianismo de Jesus, proferindo no versículo 16 do capítulo 16: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo», dirá também logo no versículo 22 desse mesmo capítulo: «Deus Te livre, Senhor! Isso nunca Te há-de acontecer!», quando Jesus lhes anuncia que a glória da Ressurreição só é possível através do caminho humilhante e penoso da Cruz. 

 

Nos próximos posts, se Deus o permitir e me ajudar, continuaremos a caminhar com Jesus, nesse caminho de Cruz, em direção à plena obediência à vontade do Pai. Por agora, meditemos no nosso coração, acerca das tentações de Jesus, no seu significado, de como foi possível Ele vencer cada uma delas.

Foi através deste "primeiro treino" no deserto, através destes testes e provações, que Jesus Se fortaleceu para a "grande prova". Pela graça de Deus, nós estamos em plena Quaresma, nos exercícios de "treino" por excelência, para as grandes "provas" das nossas vidas. E a maior "prova" da minha vida começará dentro de pouquíssimo tempo, nesta mesma Páscoa ... 

 

Post escrito após a leitura do livro "Life of Christ" do Arcebispo Fulton Sheen, 1958, pág 59 a 69

Tragam ouro, incenso e mirra - aí vem o Esposo!

Depois de terem ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se, adoraram-n'O; e, abrindo os cofres, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. (Mt 2, 9-11)

Penso que já todos estão familiarizados com o profundo significado dos três presentes que os Reis Magos trouxeram consigo, desde o Oriente até Belém, para oferecer ao Deus que Se fez Menino. Existem inúmeras passagens do Antigo Testamento que nos mostram o significado de cada oferenda: o ouro simboliza a Realeza de Jesus, o esperado descendente do Rei David, que seria Rei eterno de todas as nações; o incenso anuncia-nos que Jesus é, verdadeiramente, o Divino Filho do Deus Altíssimo; e por fim a mirra, a resina proveniente duma planta muito espinhosa, usada para embalsamar o corpo dos mortos, revela-nos a Sua igualmente verdadeira Humanidade. E, assim, de uma só vez, os sábios Magos comunicam-nos que Jesus é verdadeiro Deus, verdadeiro Homem, eterno Rei ... Seremos também nós capazes de O reconhecer como tal, nas nossas vidas?

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No verão em que fui à Terra Santa, lembro-me de ter achado muito curioso, ao folhear o livro do Êxodo, para aprender mais sobre o uso da acácia nos objectos sagrados da Arca da Aliança, que, num mesmo capítulo (cf Ex 30), se falava tanto do ouro, como do incenso, como da mirra - para adornar, perfumar e ungir tanto a Arca da Aliança e os seus objectos, como Aarão e os outros sacerdotes ... Hmm, curioso: este deve ser o único livro da Bíblia a falar destes três presentes juntos! ...

 

Recentemente, apercebi-me que não. Aliás, estes três presentes juntos parecem ter ainda um outro simbolismo, igualmente profundo e belo. O livro dos Cânticos dos Cânticos é outro livro das Sagradas Escrituras que nos falam de ouro, incenso e mirrajuntos. São referidos em várias passagens, ao longo de todo este livro; mas, em todas as passagens, estes três itens são, duma forma ou de outra, sempre associados ao Esposo do Cântico! Sim, ao Esposo!

No site das Famílias de Caná encontram um maravilhoso ensinamento em vídeo, gravado durante um retiro em 2019, acerca do importantíssimo simbolismo de Jesus como Esposo: vêmo-lo presente desde o primeiro ao último livro da Bíblia, nas palavras dos Profetas e dos Salmos, no testemunho de S. João Baptista e nas parábolas de Jesus... 

João declarou: «Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: "Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente". O Esposo é Aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do Esposo, que está ao Seu lado e O escuta, sente muita alegria com a voz do Esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! Ele é que deve crescer e eu diminuir». (Jo 3, 27-30)

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Terminámos os dias do tempo de Natal e em breve entraremos já no tempo da Quaresma, no tempo de preparação mais intensa para recebermos a entrega do Divino Noivo.

A meio da noite, ouviu-se um brado: 'Aí vem o Noivo, ide ao Seu encontro!' (Mt 25,6)

Façamos espaço

Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria.
Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidadeTambém José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. (Lc 2,1-5)

São José é chamado a ir recensear-se na sua terra natal, em Belém, nos últimos tempos da gravidez de Maria. Por esta altura, já deviam ter tudo preparado para a chegada de Jesus na sua casa: berço, roupas, fraldas, a ajuda necessária da comunidade de Nazaré ... Tudo estaria pronto e preparado.

Contudo, inesperadamente, Deus chama-os a abandonar o conforto do seu lar e a abdicar do apoio dos vizinhos da aldeia, para viajarem até Belém, a 200km de distância de casa. Como já reflectimos anteriormente, os Evangelhos não nos explicam os motivos que levaram Nossa Senhora a acompanhar S. José até Belém - não era preciso que ela fosse até lá, mas Maria insistiu em ir também. 

Bem - deverá ter pensado São José - ao menos em Belém haverá familiares que nos possam receber nas suas casas. Pensei muito neste aspecto ao longo deste tempo de Natal. Todos os elementos da família de São José, por mais próximos ou afastados que fossem, tinham sido chamados a apresentarem-se em Belém. Quando Maria e José chegaram finalmente a Belém, após cinco ou seis dias duma dura viagem, ao passo modesto dum burrinho carregando uma mulher grávida, a maioria dos seus familiares também já lá estariam ... e já estava tudo cheio.

E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria. (Lc 2,6-7)

Ao reflectir nesta passagem do Evangelho de São Lucas, não tendo a ficar com a impressão de que os habitantes de Belém, a família de Jesus, não quiseram recebê-Lo, mas sim que já não havia espaço. Já estava tudo cheio - as suas vidas, as suas casas, os seus dias, o seu presente e futuro - já estava tudo cheio, já não havia espaço para acolher a Sagrada Família e deixar que Jesus nascesse nos seus corações. Não me parece que não quisessem propriamente recebê-Lo, mas já estavam cheios de outras coisas, de outras pessoas, de outros problemas e preocupações deste mundo. Estavam tão cheios deste mundo e das coisas deste mundo (que só enchem, mas nunca preenchem!), que já não havia espaço para Deus nas suas vidas.... 

 

José e Maria, se quisessem, talvez ainda coubessem num cantinho da casa de alguém, desde que não incomodassem ninguém e não chamassem muito à atenção dos seus moradores, que tão concentrados estavam nas suas vidas ocupadas ... Oh, não tenderemos nós a fazer por vezes o mesmo, em certas alturas das nossas vidas?

E, assim, Jesus foi nascer numa gruta aberta e sem porta - porque todos estávamos convidados a ir recebê-Lo; que servia de abrigo e descanso merecido aos pobres animais de trabalho e transporte, como a vaca e o burro, e que, mesmo no seu cansaço, O acolheram; foi enrolado em panos, como se fazia ao cordeiro sacrificial da Páscoa judia, e colocado numa manjedoura transformada em altar de entrega e doação do verdadeiro Pão que nos sacia...

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Mas Deus, que é rico em misericórdia e em amor, não perde uma única hipótese de nos oferecer uma nova oportunidade, de nos redimir, para que possamos tentar fazer o bem uma vez mais ...

Depois de ter ouvido o rei, os magos puseram-se a caminho. E a estrela que tinham visto no Oriente ia adiante deles, até que, chegando ao lugar onde estava o Menino, parou. Ao ver a estrela, sentiram imensa alegria; e, entrando na casa, viram o Menino com Maria, sua mãe. E prostrando-se, adoraram-No. (Mt 2,9-11)

Afinal, parece que alguém - não sabemos se uma família, uma viúva, um sacerdote, um tio ou primo de José - mas alguém arrependeu-se, reflectiu, deixou-se tocar e incomodar pelo mistério do Deus Menino, e fez espaço na sua casa, para O acolher. Para Deus, nunca - nunca! até ao derradeiro momento da nossa morte (a partir daí, só Deus saberá) - é tarde de mais. Há sempre tempo para o arrependimento, para tentarmos novamente, para fazermos melhor, ainda que pouco, a seguir. 

Quem sabe se demorou algumas horas ou dias ou até semanas para isso acontecer; mas alguém arrependeu-se, pensou melhor novamente, e aceitou abrir, tanto as portas da sua casa, como do seu coração, como da sua vida, ao amor do Senhor. Quanta humildade e misericórdia Jesus nos demonstra e ensina, desde já, e Ele ainda mal nasceu ... 

 

Gaudete, Gaudete, Christus est natus!

 

Façamos memória do futuro

Eis que um novo ano tem hoje início.

Chegou - esta foi a primeira palavra que surgiu na minha mente ao acordar. A promessa do Senhor chegou, cumpriu-se, está continuamente a cumprir-se. Estou a um passo mais perto do grande dia. Chegou e continua a chegar. Eis que Ele vem. Eis que já chegou ... 

 

Se deixar de lado as dificuldades, as limitações e as lágrimas (tudo coisas que o Senhor amorosamente me enviou na tentativa de me tornar um pouquinho mais santa), dou por mim a pensar que o ano de 2020 foi o ano das promessas cumpridas (mais uma vez) na minha vida. E tudo, por obra e graça do Senhor. 

Sim, foi um ano de espera (mais uma vez), um ano para aprender a dobrar a minha vontade e a escolher a vontade do Senhor (mais uma vez), um ano com todas as possibilidades para me tornar santa (adivinhem? mais uma vez também). E essa tarefa tanto trabalho tem dado ao Senhor ...

 

2021 será um ano particularmente especial para mim. Irá mudar (literalmente) toda a minha vida e todo o meu futuro. Exactamente 10 anos depois da minha conversão, direi o meu Sim perpétuo (o meu Fiat, à semelhança da nossa Mãe, cuja solenidade hoje celebramos) à vocação de amor a que o Senhor me chamou.

Será um ano duma vida nova, sim, mas, também por isso, desconhecida. E o desconhecido, pelo menos a mim, mete-me medo. Tanta coisa pode acontecer, e se...? E se acontecer isto ou aquilo? E se eu não conseguir? E se eu falhar? 

Sim, eu irei falhar, muitas vezes. Sim, eu não vou conseguir, muitas vezes. Mas ficará tudo bem, sim, porque Deus não falha. Deus vence sempre. Deus sustenta-nos quando não conseguirmos. Deus orientar-nos-á e guiar-nos-á quando não soubermos o caminho ou não o consigamos ver.

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Desde Abraão, nosso pai na Fé, que o Senhor nos diz isto continuamente. À semelhança de Abraão, também a mim, também a ti, «o Senhor nos dirige pessoalmente a Sua Palavra» e Se revela como um Deus que é capaz de tudo, para fazermos parte da Sua família, da Sua comunhão de amor. «A Fé é a nossa resposta a esta Palavra que nos interpela».

Como a Abraão, também a mim, também a ti, «a Palavra do Senhor transmite-nos um chamamento e uma promessa». Chama-nos a «sair de nós próprios», convida a abrir-nos a uma nova vida, provoca em nós um autêntico «êxodo», desde as terras da escravatura do pecado e do amor-próprio em que nos quisemos perder, e põe-nos a caminho da Terra Prometida, a terra do amor saciante, da infinita paz de espírito e de corpo, da alegria perpétua, da eterna comunhão ...

Mas como tal será possível? Parece algo tão grande e imenso, absolutamente impossível ... Na verdade, Abraão descobre, e cada um de nós é chamado também a descobrir e a experienciar, nas situações concretas das nossas vidas, que «a Fé vê na medida em que caminha». 

O Senhor chama-nos e convida-nos, nós escutamos a Sua voz, nós permitimos que Ela chegue ao nosso coração, acreditamos nas Suas promessas e tomamos o pequeno passo de nos virarmos na Sua direcção. No preciso instante deste movimento, «a Fé», transmitindo-nos a graça super-abundante do Senhor, «permite-nos ver» - o suficiente, e nada mais que isso - «para darmos o próximo passo».

E como pôde Abraão, como podemos nós, acreditar nesta Palavra, nesta promessa do Senhor? Vem, Eu estou sempre contigo! Vem, Eu sustentar-te-ei, Eu acompanhar-te-ei, Eu serei tudo para ti.

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Imagem retirada daqui

O Senhor é tão rico em provas e em promessas cumpridas, como é rico em demonstrações de amor e de misericórdia. Olhemos com atenção para a nossa vida, olhemos para a vida do povo de Israel, olhemos para a vida da nossa família, do nosso país, da nossa era. Olhemos com atenção e rapidamente veremos como o Senhor tem sido rico em provas e em demonstrações. Algumas delas serão grandes e grandiosas, outras pequenas e humildes, muitas delas serão tão íntimas que só mesmo nós conseguimos vê-las e reconhecê-las como tal. 

A Fé é uma «resposta ao chamamento do Senhor», mas é também um «exercício de memória». Lembra-te Israel, lembra-te Marisa, de tudo o que o Senhor fez e continua a fazer por ti, por amor a ti... E escuta-O, porque Ele promete-te que ainda fará mais! 

Não era preciso, tudo o que aconteceu já era mais do que suficiente. Mas o amor não conhece limites! O amor nunca diz chega! E por isso, o Senhor, na sua infinita Bondade, continua a querer fazer-nos mais promessas! A essência da Sua promessa é só uma - Eu amar-te-ei para sempre! - mas torna-se concreta e real hoje mesmo, nas circunstâncias da nossa vida presente.

Assim, a Fé de Abraão, a minha Fé, a tua Fé, torna-se não só uma «resposta a uma Palavra que nos precede e nos interpela», mas também um «acto de memória», de «memória duma promessa», de «memória dum futuro», e que por isso se torna capaz de «iluminar cada novo passo do nosso caminho». 

 

E se, como a Abraão, como a mim, este convite do Senhor vos assusta, de tão grande e belo que é, não nos esqueçamos que «a Palavra de Deus, embora traga consigo novidade e surpresa, não é de forma alguma alheia à experiência» de vida de cada um de nós. «Na voz que Se lhe dirige, Abraão reconhece um apelo profundo, desde sempre inscrito no mais íntimo do seu ser». 

Se a promessa do Senhor vos assusta: não temais, não tenhais medo! O medo vem sempre do Maligno e a coragem de Deus! Cada um de vós foi preparado, desde o início da Criação, e tem sido continuamente moldado para poder cumprir a promessa a que o Senhor vos chama. Ele não nos faria aspirar a algo que não nos desse a Sua graça para cumprir, já Santa Teresinha nos testemunhava.

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As palavras dos homens, estas mesmo que eu escrevo, são «efémeras e passageiras», fracas em si mesmo, insuficientes para cumprirem a realidade que anunciam. Mas quando esta «Palavra é pronunciada por Deus», Aquele que é fiel, «torna-se no que mais seguro e inabalável possa haver, possibilitando a continuidade do nosso caminho». A Palavra do Senhor é a «rocha segura, sobre a qual se pode construir com alicerces firmes» e duradouros, eternos aliás. 

Não é por acaso que, tanto em hebraico como em grego como em latim, a palavra «Fé» deriva do verbo «sustentar» e é usada na Bíblia tanto para «significar a fidelidade de Deus» como a «fé do homem». Assim, «o homem fiel recebe a sua força do confiar-se nas mãos do Deus fiel». Vejam bem a dignidade do cristão, «que recebe o mesmo nome de Deus: ambos são chamados fiéis» (palavras de São Cirilo de Jerusalém, Doutor da Igreja)

E outro Doutor da Igreja, Santo Agostinho, nos explica que: «O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete. O Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem».

 

É esta a minha oração, ao raiar deste dia: Ouçamos a voz do Senhor, no início deste novo ano e todos os dias da nossa vida. Ouçamos com atenção e façamos ressonância dentro de nós, façamos memória do futuro, acreditemos nas Suas promessas, sejamos corajosos, tenhamos Fé, sejamos fiéis, como Ele é fiel. 

Seja louvado nosso Senhor Jesus Cristo - para sempre seja louvado com Sua Mãe, Maria Santíssima!

 

Com enxertos da maravilhosa Carta Apóstólica Lumen Fidei, Luz da Fé, escrita pelo Papa Bento XVI e pelo Papa Francisco, publicada em 2013, pontos 8 a 11.

Na presença do sol, da lua e das estrelas (ainda o 4º dia da Criação)

Deus fez dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia, e o menor para presidir à noite; fez também as estrelasDeus colocou-os no firmamento dos céus para iluminarem a Terra, para presidirem ao dia e à noite, e para separarem a luz das trevas. E Deus viu que isto era bom. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o quarto dia. (Gn 1,14-19)

A narração do 4º dia da Criação leva-me a pensar em todos os episódios das Escrituras em que vemos simultaneamente presente o sol, Jesus, e a lua, Maria, mas também as diversas estrelas que os acompanham.

 

Penso na Anunciação do anjo Gabriel, a primeira estrela luminosa a aparecer no céu da Nova Criação, e no primeiro encontro terreno entre este sol e esta lua, fruto do "sim" humano mais importante na nossa História.

Penso na Visitação de Nossa Senhora, em Isabel e Zacarias, autênticas estrelas cintilantes de esperança, e na canção de louvor que brotou do coração de Maria, magnificando de forma incomparável a luz do Senhor.

Penso no nascimento de Jesus em Belém e no mistério da Encarnação. Deus que Se fez Homem, num corpo pequenino e frágil dum bebé, para que a Sua luz, tão forte e resplandecente, que facilmente seria capaz de nos cegar pela Sua grandeza, não nos assustasse nem por um segundo. Antes, fez-Se débil e vulnerável, de forma a nos atrair até junto de Si, para que pudéssemos ver, mais de perto, como é maravilhosa a luz que a lua, Maria, reflecte tão admiravelmente desde essa noite. E quantas estrelas não se juntaram no céu da Nova Criação nesse momento? José, o silencioso guia e protector da Sagrada Família; os humildes pastores, os últimos que se tornam em primeiros, e que tanto se alegraram com a glória do Senhor; os sábios magos, prudentes e conhecedores, tanto da direcção dos planos de Deus como das intenções do coração humano...

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Penso na Apresentação de Jesus no Templo, na luz proveniente deste pequeno sol, feito Menino de colo, a ser reflectido e espelhado na face de Sua Mãe, permitindo que Simeão e Ana, quais estrelas puras e expectantes, soubessem exactamente o caminho até bem junto de Deus.

Penso na Fuga repentina da Sagrada Família para o Egipto, na tentativa dos homens deste mundo de exterminarem qualquer raio de luz de amor ou misericórdia que possam vislumbrar. Como é verdade que, pensando no protector São José, é na noite mais escura, que melhor se vê a luz das estrelas...

Penso na Perda e no Reencontro de Jesus no Templo e em todas as vezes em que eu própria perdi de vista a luz e o calor do Senhor, para O reencontrar sempre no mesmo lugar em que O deixei, sozinho e para trás. Se ao menos eu, como a lua, Maria, demonstrou nesse dia, vivesse a mesma ânsia e angústia pela terrível separação com a sua primordial fonte de luz e vida ... Benditas sejam as estrelas, como São José, que nos acompanham nessa busca de novo pelo nosso sol perdido.

Penso nas Bodas de Caná, naquele que é talvez o exemplo mais perfeito para se compreender o papel do sol, Jesus, fonte de vida, a lua, Maria, conhecedora e reflectora da luz do Senhor, e das estrelas, como os Apóstolos, que começaram a acreditar no messianismo de Jesus a partir daquele dia, e assim começaram a ganhar coragem para difundirem a sua própria luz, oferecida pelo Senhor. 

Penso, por fim, no Calvário, no supremo e total derramamento do amor e misericórdia do Senhor, que a todos dá uma nova vida. Penso na Sua ternura, ao pedir a cada um de nós, Suas estrelas, para que cuidassemos da sua lua, a nossa professora exemplar na arte de magnificar e reflectir a luz do sol.

 

Não houve um só episódio em que o sol, Jesus, e a lua, Maria, estivessem juntos, sem estarem também presentes outras estrelas, numa maravilhosa escola de santidade para cada um de nós. E Deus desejou que assim fosse, desde o início da Criação ... 

O Sol e a Lua (o 4º dia da Criação)

Deus disse: «Haja luzeiros no firmamento dos céus, para separar o dia da noite e servirem de sinais, determinando as estações, os dias e os anos; servirão também de luzeiros no firmamento dos céus, para iluminarem a Terra.» E assim aconteceu. 

Deus fez dois grandes luzeiros: o maior para presidir ao dia, e o menor para presidir à noite; fez também as estrelas. Deus colocou-os no firmamento dos céus para iluminarem a Terra, para presidirem ao dia e à noite, e para separarem a luz das trevas. E Deus viu que isto era bom. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o quarto dia. (Gn 1,14-19)

Um grande luzeiro, maior que qualquer outro, para presidir e guiar o nosso dia, para iluminar toda a terra e a separar das trevas ...

Se pensarmos no Senhor como o sol, podemos começar a delinear uma frutuosa analogia a partir destas palavras do livro do Génesis acerca do 4º dia da Criação. É em redor do sol que todos os planetas, asteróides e cometas giram. O sol encontra-se bem no centro do nosso Sistema Solar, chegando a dar-lhe um nome - Solar - e, assim, uma filiação e identidade única. Também o Senhor deseja encontrar-se no centro das nossas vidas, em redor do Qual nós nos movimentamos e direccionamos, de tal modo que possamos ser chamados de Seus filhos muito amados

É pela vontade do Senhor, à semelhança da energia que provém do sol, que tudo se move e ganha vida à Sua volta. Cristo é a verdadeira fonte de luz, através da Qual nós podemos ver todas as coisas exactamente como elas são, em vez de estarmos cegos na escuridão. Ele é a origem de toda a nossa vida. Tal como, sem a luz e o calor do sol, não poderia haver uma vida fértil e frutuosa na terra, assim também, sem o amor e a misericórdia do Senhor, não poderia haver tantos frutos e graças na nossa vida. 

Mesmo quando a terra se tenta esconder da luz do sol, virando-lhe as costas e abraçando a escuridão que a rodeia, mesmo assim a luz deste sol continua a brilhar, tão quente e acolhedora como sempre. Nós até podemos - e tentamos muitas vezes - esconder-nos desta luz, mas ela irá permanecer sempre lá, pronta para nos acolher no novo amanhecer do perdão.

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Por outro lado, podemos pensar na lua como representando Maria. A lua parece ser um astro muito brilhante durante a noite, mas isto apenas ocorre porque ela reflecte, de forma extraordinária, a luz que lhe é transmitida pelo sol. Assim, à semelhança da lua, também Nossa Senhora reflecte, de forma extraordinária, a luz que irradia do seu Filho.

Apesar de a lua parecer que brilha intensamente - mais que qualquer outro astro - durante a noite, nem por isso rouba, por um só segundo sequer, o brilho da luz que provém do grande e belo sol, que ilumina o nosso dia e a nossa vida. O mesmo acontece com Maria e Jesus. 

Na verdade, se a lua não tivesse esta capacidade de reflectir tão perfeitamente a luz que lhe é oferecida pelo sol, não passaria de outro astro qualquer, sem especial valor. Mas é exactamente esta capacidade de reflectir, de magnificar, de glorificar a luz do Senhor, que distingue a Virgem Maria de qualquer outra estrela, de qualquer outro santo ou santa ... 

Tal como a lua passa todos os momentos da sua existência a girar à volta da terra, assim também Nossa Senhora aceitou dedicar-se por completo aos filhos que recebeu, das mãos de Jesus, junto à Cruz. Ela acompanha-nos em todas as etapas da nossa viagem em direção ao sol. Ela rodeia-nos, em todos os instantes, com carinhos e cuidados, preces e intercessões. 

Por fim, tal como a lua nos ajuda a regular a passagem das semanas, a compreender a melhor altura de plantar e de colher, a orientar a nossa migração e a acolher o movimento das marés, também Nossa Senhora nos ajuda e ensina a regular a nossa vida à imagem de Deus, a procurar a verdadeira sabedoria e a acolher as adversidades como oportunidades para crescermos em amor e santidade.

 

Sê, Senhor, o sol da minha vida, que tudo salva e vivifica.

E ensina-me, minha Mãe, a reflectir, a magnificar, a luz do amor do Senhor.

Amén!

As tentações no deserto (ainda o 3º dia da Criação)

O início do 3º dia da Criação relembra-nos a travessia do Mar Vermelho a pé enxuto pelo povo hebreu, fugindo da escravatura do Egipto e dirigindo-se para o grande deserto a que o Senhor os chamava a atravessar. 

"Recorda-te de todo esse caminho que o Senhor, teu Deus, te fez percorrer durante quarenta anos pelo deserto, a fim de te tornar humilde, para te experimentar, para conhecer o teu coração" (Dt 8,2)

Também Jesus, após ter sido baptizado nas margens do rio Jordão, foi conduzido pelo Espírito Santo ao deserto - para nos mostrar a Sua humildade, para nos mostrar a pureza do Seu coração - como estava prefigurado na segunda parte do relato do 3º dia da Criação

Deus disse: «Que a terra produza verdura, erva com semente, árvores frutíferas que dêem fruto sobre a terra, segundo as suas espécies, e contendo semente.» E assim aconteceu. A terra produziu verdura, erva com semente, segundo a sua espécie, e árvores de fruto, segundo as suas espécies, com a respectiva semente. Deus viu que isto era bom. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o terceiro dia. (Gn 1,11-13)

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Foram 3 os tipos de plantas que Deus fez brotar da terra seca recém criada, à semelhança das 3 tentações pelas quais Cristo passou nos 40 dias e 40 noites em que jejuou no deserto. Por 3 vezes, Satanás tentou que Jesus cedesse e se afastasse da Sua missão de Redenção da humanidade. Por 3 vezes, Satanás tentou reproduzir, na vida e figura de Jesus, a falta de confiança demonstrada neste deserto pelo povo hebreu, na Providência Divina e nas promessas do Senhor.

A primeira tentação foi a da procura do conforto e do prazer dos sentidos: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães» (Mt 4,3) - à semelhança do povo hebreu que murmurou contra Moisés e, assim, contra o Senhor, com medo de morrerem à fome no deserto. Mas Jesus relembra-nos que «Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4,4).

A segunda tentação foi a da procura do poder e do controlo: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, que o Senhor Te sustentará» (Mt 4,6) - relembrando a ocasião em que o povo israelita, mais uma vez, duvidou das promessas do Senhor e exigiu um milagre, uma prova, do Seu amor e do Seu cuidado paternal. Mas não teria Deus já dado provas suficientes? Quão curta pode ser a nossa memória?

Por fim, a terceira tentação foi a da procura da própria glória e louvor: «Tudo isto [reinos e poderes do mundo] Te darei, se, prostrado, me adorares» (Mt 4,9) - Ah, a procura incessante do ser humano em ser adorado, admirado e glorificado. Como parece que queremos ser, sempre, fortes, grandes e importantes. Jesus, pelo contrário, aceitou tornar-se pequeno e humano, para chegar até junto de nós. Aceitou tornar-se escravo por amor, cordeiro sacrificial para nos salvar. «Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» (Mt 4,10) Tudo o que somos, tudo o que possuímos, tudo o que conseguimos, tudo isto é por graça e amor do Senhor.

Também nós, no nosso Baptismo, à semelhança de Cristo, somos chamados a renunciar a estas 3 tentações: ao conforto da nossa Carne, ao desejo de controlo sobre o Mundo e ao orgulho favorecido pelo Diabo

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No deserto, o povo israelita deixou-se vencer pelo seu pecado e pela sua concupiscência, escolhendo esquecer-se e afastar-se do amor do Senhor. Jesus, pela Sua humildade, conseguiu restituir a infidelidade cometida, por mim e por ti, ao amor oferecido por Deus. E Jesus venceu, sem fazer nenhum feito extraordinário, sem fazer nenhum milagre. Ele venceu todas as tentações puramente através da sua humanidade, recitando de memória as promessas que o próprio Senhor tinha feito, ao longo dos tempos, ao seu povo escolhido e muito amado.

A vitória de Jesus sobre as tentações no deserto antecipa, desde já, a Sua vitória também na Paixão, o mais supremo acto de obediência ao amor do Pai.

Confinamento - à Luz da História do Povo de Deus

Na sexta-feira passada, tive a enorme graça de poder ouvir uma catequese maravilhosa, como há muito não ouvia, do nosso querido bispo de Setúbal, D. José Ornelas, no 1º Encontro Formativo da Pastoral Familiar de Setúbal.

Falou-se de 'confinamento' nos dias de hoje, nas nossas famílias, na nossa sociedade, mas através duma perspectiva diferente - trazendo à memória, e tornando vivas novamente, várias histórias do Povo de Deus, relatadas ao longo das Escrituras. Nunca antes me tinha apercebido de tantos paralelismos entre o passado do Povo de Deus, o nosso presente e as lições para o nosso futuro ... 

Começando pelo relato da 1ª Páscoa judaica, quando o povo hebreu se refugiou nas suas casas, para proteger os seus filhos e se distinguir dos egípcios, ao exílio na Babilónia exigido pelo rei Nabucodonosor, passando pelo distanciamento necessário entre Abrãao e o seu sobrinho Lot, até chegar ao 'desconfinamento' trazido por Jesus. Uma catequese que nos leva (e muito!) a reflectir, sempre à luz da Bíblia e da História do Povo de Deus. Absolutamente imperdível! 

 

Haverá mais catequeses ao longo do ano! Estejam atentos à página da Pastoral Familiar de Setúbal.