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Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Ser luz

Nós somos chamados a sermos uma luz - como uma pequena chama duma velinha branca - num mundo que está cheio de luz artificial eléctrica.

Quem vive no conforto da luz artificial não consegue ver a nossa luzinha de vela; aqueles que até a conseguem ver, não percebem para que serve ou não compreendem porque insistimos em mantê-la acesa - num mundo cheio de luz artificial. Para quê? Porquê?

 

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Imagem retirada daqui

 

No meu trabalho no hospital, quando alguém descobre que eu sou catequista, não é costume ouvir nenhum comentário entusiástico nem incentivador. Não é adequado um médico ter religião ... porque pode interferir.

Os meus colegas não compreendem porquê é que eu haveria de gastar o meu tempo com essas coisas.... eu devia era sair, viajar, gastar o meu ordenado em jantares e prendas e aproveitar a vida.

A minha família pergunta-me várias vezes porque é que eu passo tanto tempo na igreja, envolvida em tantas coisas? Missas e missas e missas, reuniões, encontros, actividades, catequese, vias sacras ... para quê? perguntam-me sempre.

 

Para ser sincera, eu própria às vezes me pergunto se todas as horas que eu invisto em preparar a catequese terá algum valor ... Tantas horas a desenvolver ideias para que as catequeses sejam estimulantes, que ensinem pelo exemplo, que toquem os corações de todos os meninos, que os façam não só saber mas compreender e querer viver ...

Aqueles meninos de 7 anos nunca se vão lembrar de mim quando forem adultos. Não se vão lembrar de grande parte das coisas que eu lhes tentei ensinar. 

Que posso fazer eu, quando os pais não vêm à missa, não querem saber da igreja, e só põem os filhos na catequese como se fosse outra actividade extra-curricular como a natação ou o ballet? Ou apenas para poderem fazer a primeira comunhão? 

Que diferença farei eu nas suas vidas? Que diferença faz aquilo que eu faço?...

 

Há dias difíceis, em que me deixo engolir por essas vozes e pensamentos, em que apetece desistir de tudo. Sim, há dias assim; poucos dias, pela graça de Deus, mas existem.

Nestas alturas, Deus tem sempre o enorme carinho de me enviar um anjo, na forma duma pessoa, que me incentiva, que me anima, que me compreende e que partilha comigo situações parecidas. Ou então descubro uma reflexão de alguém no facebook ou em algum site ou num livro, que reflecte as minhas duvidas e que me ajuda a encontrar soluções.

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Imagem retirada daqui

 

Sim, aquilo que eu faço, aos olhos do mundo, não é quase nada. Não tem qualquer valor. É insignificante. É tempo mal gasto. Não me faz ganhar nada, aliás, só me faz perder....

Não consigo deixar de sorrir ao escrever este texto. As pessoas não compreendem nada! Não compreendem o que verdadeiramente tem valor!

 

"Perante um mundo fragmentado, (...) perante a experiência dolorosa da nossa própria fragilidade, torna-se necessário e urgente, atrever-me-ia mesmo a dizer imprescindível, aprofundar a oração e a adoração. Ela nos ajudará a unificar o nosso coração e nos dará «entranhas de misericórdia», para sermos homens de encontro e comunhão, que assumem como vocação própria tomarem a seu cargo a ferida do irmão (...) dando testemunho de um Deus tão próximo, tão Outro: Pai, Irmão e Espírito; Pão, Companheiro de Caminho e dador de Vida (...)

Hoje, mais do que nunca, é necessário adorar para tornar possível a "proximidade" que reclamam estes tempos de crise. Só na contemplação do mistério do Amor que vence distâncias e se torna perto encontraremos a força para não cair na tentação de seguir de longe, sem nos determos no caminho... (...)

Também nós, perante esta nova invasão pseudocultural que nos apresenta os novos rostos pagãos dos «baalins» do passado, experimentamos a desproporção de forças e a pequenez do enviado. Mas é justamente a partir da experiência da própria fragilidade que se evidencia a força do alto, a presença d'Aquele que é o nosso garante e a nossa paz.

Por isso, quero convidar-vos (...) a que reconheçais na vossa fragilidade o tesouro escondido, que confunde os soberbos e derruba os poderosos. Hoje, o Senhor convida-nos a abraçar a nossa fragilidade como fonte de um grande tesouro evangelizador. (...)

Porque só aquele que se reconhece vulnerável é capaz de uma acção solidária. Pois comovermo-nos («movermo-nos com»), compadecermo-nos («padecermos com») de quem está caído à beira do caminho são atitudes de quem sabe reconhecer no outro a sua própria imagem, mescla de terra e tesouro, e por isso não a rejeita. Pelo contrário, ama-a, aproxima-se dela e, sem o procurar, descobre que as feridas que cura no irmão são unguento para as suas. A compaixão converte-se em comunhão, em ponte que aproxima e estreita laços. (...)

Não tenhais medo de cuidar da fragilidade do irmão com a vossa própria fragilidade: a vossa dor, o vosso cansaço, as vossas perdas; Deus transforma-os em riqueza, unguento, sacramento. (...) Há uma fragmentação que permite, no gesto terno do dar, alimentar, unificar, dar sentido à vida. (...) Que possais, em oração, apresentar ao Senhor os vossos cansaços e fadigas, bem como o das pessoas que o Senhor colocou no vosso caminho e deixai que o Senhor abrace a vossa fragilidade, o vosso barro, para o transformar em força evangelizadora e em fonte de fortaleza. (....)

É na fragilidade que somos chamados a ser catequistas. A vocação não seria plena se excluísse o nosso barro, as nossas quedas, os nossos fracassos, as nossas lutas quotidianas: é nela que a vida de Jesus se manifesta e se faz anúncio salvador. Graças a ela descobrimos as dores do irmão como sendo nossas."

 

Palavras do Papa Francisco, numa carta aos catequistas da diocese de Buenos Aires, 

Agosto de 2003 (retirado do livro - O Verdadeiro Poder é Servir, da editora Nascente)

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Imagem retirada daqui

 

Não importa que ninguém veja aquilo que fazemos. Não importa se parece insignificante e sem valor. Deus vê tudo o que fazemos e vê, principalmente, o amor com que o fazemos. 

Mantenhamos a nossa pequena chama acesa, num local onde todos a possam sempre ver. Sempre que a luz artificial se apague nas vidas das outras pessoas, como tantas vezes acontece, que elas possam sempre ver e contar com a nossa pequena luz, para as iluminar e lhes dar de novo vida. 

Compreendendo o Antigo Testamento (parte 2)

Como seguimento do post anterior, deixo-vos mais algumas citações do livro Para entender o Antigo Testamento de D. Estêvão Bettencourt - de forma a suscitar o vosso interesse para o irem ler na íntegra e aprofundarem o vosso conhecimento acerca do Antigo Testamento.

 

Género literário

"Conjunto de regras de estilo e vocabulário que os homens de determinada época ou região costumavam observar quando queriam escrever sobre certo tema.

(...) Em suma, dir-se-á: todas as vezes que uma antiga sentença exegética seja comprovada falsa à luz das ciências modernas, reconheça-se que o erro estava contido, não na Sagrada Escritura, mas na interpretação que os homens davam à esta. "

 

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Imagem retirada daqui

 

Principais características de pensamento e linguagem dos autores bíblicos

"Os oradores eram escritores (...) que visavam despertar impressões vivas nos seus ouvintes e leitores. Procuravam transmitir da maneira mais penetrante possível um estado de alma. Isto faz com que uma página de literatura semita seja impregnada de movimento, variedade de pessoas e coisas que se sucedem com realismo; emoções e afectos diversos a perpassam (...) O semita recorria frequentemente a gestos, às pausas, aos artifícios da entoação da voz. O falar dos antigos judeus terá sido exuberante, teatral (...) dada a sua vivacidade, o israelita era muito dado às expressões fortes, hiperbólicas ou contrastantes."

 

  • Hipérbole muito ousada é a do rei Benadad da Síria que, desejando chamar a atenção para o seu numeroso exército, exclamava:

"Tratem-me os deuses com todo o rigor, se o pó da Samaria for suficiente

para encher as mãos dos guerreiros que me seguem"

1 Reis 20,10

 

  • Hiperbólicas são também as expressões "a terra inteira, todos os povos" que, certamente, se referem a certas regiões ou nações apenas.

Presente em Gn 41,54 e 57;  Dt 2,25  ; 2 Cron 20,29;   Atos 2,5

 

  • Visando distinguir entre "amar mais" e "amar menos", o judeu empregava os termos "amar" simplesmente e "odiar", a fim de que a oposição mais se evidenciasse 

"Jesus disse: «Se alguém vem a Mim e não odeia

pai, mãe, esposa, filhos, irmãos e irmãs, até mesmo a própria vida,

não pode ser meu discípulo"

Lc 14,26

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Imagem retirada daqui

  • Em vez de dizer "tomar posse, dominar", o judeu às vezes preferia a expressão "lançar a sandália sobre...", que lembrava o gesto concreto ou o cerimonial da tomada de posse 

"Sobre Edom lançarei a minha sandália,

Sobre a terra dos filisteus cantarei o meu triunfo"

Salmo 60,10

Ver também - Dt 25,9 e Jos 10,24 e Rute 4,7

 

  • A expressão "sentir-se feliz, alegre" podia ser substituída pelos dizeres "ter a alma saciada de gordura", visto a gordura ser sinal de suficiência e plenitude.

"A minha alma será saciada de gordura e de medula

E os meus lábios alegres prorromperá o teu louvor"

Salmo 63,9

 

  • Quando alguém se julgava "em perigo de vida", dizia concretamente que "trazia a sua alma nas mãos", já que "ter nas mãos" é a atitude que imediatamente precede a entrega. 

"Minha alma está sempre em minhas mãos,

Mas não me esqueço da Tua Lei" 

Salmo 119,109

Ver também - Juízes 12,3 e Job 13,14

 

  • "Expor a própria vida" ou "estar decidido a morrer" era equivalente a "tomar a própria carne entre os dentes", ou seja, morder-se 

"Tomo a minha carne entre os meus dentes

Coloco a minha vida em minhas mãos"

Job 13,14

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Imagem retirada daqui

  • A ideia abstrata de posse ou de largueza, liberalidade, era expressa pelo termo concreto "mão", já que a mão é a parte do nosso corpo que directamente apreende ou distribui. Assim lê-se em

"Se a sua mão não atingir o valor de uma ovelha"

Lev 5,7

o que quer dizer, "Se as suas posses não lhe permitirem comprar uma ovelha"

 

  • Lê-se também 

"O rei Salomão deu à rainha de Sabá tudo o que ela desejava.... como a mão do rei Salomão"

1 Reis 10,13

isto é, "de acordo com a opulência de um rei tal como Salomão" 

 

  • Lê-se igualmente que

"A porção de Benjamin era cinco mãos mais abundante que as porções de todos eles (seus irmãos)"

Gn 43,34

frase em que "cinco mãos" significa "cinco vezes" 

 

  • A figura de linguagem "mão curta" ou "encurtada" designava frugalidade em dar

"A mão do Senhor seria curta demais? Verás sem demora se acontecerá ou não o que te disse!"

Num 11,23

falava Javé ao anunciar as codornizes do deserto

"Não, a mão do Senhor não é curta para salvar"

Isaías 59,1

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Imagem retirada daqui

  • "Poder, força" era um conceito expresso pelo vocabulário "chifre", pois é neste que parece residir a força de muitos animais.

"Deus é meu escudo e o chifre da minha salvação"

Salmo 18,3

(=força que me salva)

"Abaterei todos os chifres dos malvados

E os chifres dos justos serão exaltados"

Salmo 75,11

 

  • A ideia da fraqueza humana (tanto moral como física) era expressa pelos termos "carne, poeira e cinzas"

Ver    Is 31,3    Gen 18,27   Jó 30,19

 

  • A fortaleza era associada à ideia de montanha ou rochedo. Por isso

"Javé é a minha montanha, é o meu rochedo" Salmo 17,3

no qual o homem se abriga encontrando amparo

Ver também Salmo 18,15 e 61,3-8

 

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Imagem retirada daqui

  • A beleza e o encanto eram significados por símbolos muito materiais - a descrição do Esposo, no Cântico dos Cânticos 5,10-16, realça 3 características/qualidades: 

. Fortaleza e virilidade - comparação dos seus membros com peças de ouro, mármore e marfim ou com os imponentes cedros do Líbano

. Graça e beleza masculina - menção de cores, elementos aromáticos ou doces (flores e árvores)

. Pureza e fidelidade - traduzidas pelas imagens da pomba, da água e do leite

 

  • Também no Cântico dos Cânticos a figura da Esposa é caracterizada por:

. Beleza feminina - sinais de flores, palmas, objectos perfumados ou doces

. Seu encanto e pureza - comparada com uma pomba

. Fecundidade - à semelhança dos cereais e animais domésticos

 

  • A índole agradável, aceitável, de uma oferta feita a Deus era simbolizada pelo imaginário perfume da oferenda

"Noé construiu um altar para o Senhor, ofereceu holocaustos e o Senhor sentiu o seu agradável odor"

Gn 8,20-21

Ver também 1 Sam 26,19 e Ap 5,8

 

  • "Homem e animais" equivalem a "todos os seres vivos"

"O rei da Babilónia virá arruinar este país, exterminando os seus homens e animais."

Jer 36,29

Presente também Jer 50,3

 

  • "Homens e mulheres, crianças e anciãos" significava "todos os habitantes, toda a população"

Passaram ao fio da es­pada todos quanto nela encontraram, ho­mens e mulheres, crianças e velhos, e os bois, as ove­lhas e os jumentos.

Jos 6,21

Também presente em Jer 51,22

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Imagem retirada daqui

  • "Alma e carne" designava "homem inteiro"
  • "Céu e a terra" significava todo o Universo

 

  • "Sair e entrar" servia para exprimir toda a actividade de um indivíduo, até mesmo as tarefas de administração régia

Moisés dirigiu estas palavras a todo o Israel: 

«Tenho cento e vinte anos; já não posso sair e entrar».

Dt 31,2     

Ver também 2 Cron 1,10     1 Sam 18     13,16      29,6    2 Sam 3,25

3 Reis 3,7    15,17     4 Reis 11,8     19,27     Is 37,28    Ez 43,11     

Salmo 120,8    Jo 10,9     At 1,21    9,28

 

"Para entender o Antigo Testamento" da autoria de D. Estêvão Bettencourt, 1956

 

Compreendendo o Antigo Testamento (parte 1)

Num post anterior, em que partilhei convosco algumas dicas para ler e estudar a Bíblia, falei-vos acerca da importância de aprofundarmos o nosso conhecimento acerca do Antigo Testamento. No site da Alexandria Católica descobri 2 livros maravilhosos que nos ensinam a compreender o pensamento e a escrita dos judeus da época do Antigo Testamento: Para entender o Antigo Testamento e Páginas Difíceis da Bíblia - que eu comecei a ler no ano passado.

 

E se nesta Quaresma se dedicassem a compreender melhor os livros do Antigo Testamento?

Aceitam o desafio?

 

Neste sentido, pensei em ir partilhando convosco algumas citações destes 2 livros, de modo a suscitar o vosso interesse para os irem ler na íntegra ;)

Introdução

"O Antigo Testamento inicia-se com a declaração de que Deus «criou do nada todas as coisas». Portanto, «tudo o que não é Deus, vem de Deus». 

É realmente difícil, para não dizer impossível, esgotar o alcance doutrinal e vital desta afirmação, não obstante, tão simples. As criaturas visíveis, em cada fibra de seu ser, em cada fase de seu operar, nas suas atitudes, provêm totalmente de Deus (...) A palavra de Deus tudo cria, a bênção de Deus tudo fecunda. Por isso, no universo tudo é belo, tudo é bom (...). 

O espetáculo da imensidão e da complexidade do universo (...) submete o homem bíblico à adoração, à admiração, ao louvor, à gratidão para com o Criador. "

 

"Páginas Difíceis da Bíblia" da autoria de E. Galbiati e A. Piazza, 1959

 

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 Imagem retirada daqui 

Tema da Sagrada Escritura 

"A Bíblia, em última análise, trata de um só objecto - as disposições da Providência em vista da salvação do homem. Apresenta-nos em suas fases sucessivas (...) o mistério de um Deus que desce até ao homem, para elevar o homem ao consórcio de Deus.

Tal descida não é só uma vinda (...) tem um carácter de adaptação da Majestade do Criador aos moldes pequeninos do pensamento e da vida da criatura.

Essa descida de Deus ao homem é também o mistério de um Amor que, embora soberano e independente, se quer dar, derramando o bem sobre os homens, mas que é, de diversos modos, mal entendido e rejeitado - não obstante, mostra-se invencível na arte de procurar o homem ingrato."

 

Escrever na Antiguidade

"Escrever era difícil na Antiguidade: o material (papiro ou pergaminho) era raro, exigia muito tempo e grande habilidade por parte do autor. Em consequência, o magistério se exercia quase unicamente por palavra viva." 

 

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Imagem retirada daqui

 

Conceito de livro inspirado por Deus

(texto com algumas adaptações minhas)

 

O conceito real de um livro inspirado pelo Altíssimo é diferente daquele que a maioria dos cristãos tem. Os hagiógrafos não entravam "em transe", escrevendo palavra por palavra todo o ditado que Deus mandava, como uns robots telecomandados. Deus sugeria-lhes ideias e pensamentos - mas quem escrevia eram homens simples, dentro do seu contexto cultural e social, com a sua forma de escrever própria, largamente influenciada por tudo o que se fazia e como se fazia e como se entendia as palavras naquela altura. Na Antiguidade, havia uma forma de falar, de contar e de entender, muito diferente da nossa actual.

Não nos devemos admirar que:

- a Escritura se assemelhe a outras obras profanas da altura

- com as hipóteses de acréscimos ou interpolações feitas ao longo dos séculos

- nem com a não veracidade exacta de partes do seu conteúdo

 

Alguns profetas escreveram profecias acerca de Jesus, que nem para eles devem ter feito sentido. Mas a maior parte não era assim - só escreviam acerca do passado e do presente que conheciam.

De facto, muitas proposições estão segundo os moldes usuais que eram utilizados entre os homens da Antiguidade.

 

Se a Bíblia fosse um ditado meramente mecânico, o livro estaria emancipado de vestígios da personalidade do autor humano. (...) Deus, pela inspiração, ilumina a inteligência do hagiógrafo,  para que este,  com a lucidez do próprio Deus, compreenda tais e tais verdades e as transmita aos leitores.

A inspiração faz que, com a clarividência de Deus, o hagiógrafo examine a veracidade das noções que ele tem na sua mente, as escolha e formule de modo a se tornarem a expressão fiel dos pensamentos do Altíssimo

- pode não implicar directamente novos conhecimentos, mas sim uma maior certeza (do próprio Deus) acerca das verdades já conhecidas

- a inspiração bíblica suscita o hagiógrafo a escrever

- suscitando-a, porém, eleva-a a um plano superior, a fim de que produza um efeito não simplesmente humano, mas humano e divino

 

Deus penetra todas as capacidades e faculdades do escritor (inteligência, vontade, potências executivas) e percorre, simultaneamente com este, as etapas necessárias para a redacção dum livro, de modo que a obra daí resultante não apenas contém a Palavra de Deus, mas é a Palavra de Deus, que tomou a face, a veste, de palavra do homem.

 

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Imagem retirada daqui

As ideias ensinadas pela obra provêm primariamente de Deus, o Autor principal; todavia a forma literária, a veste, que serve para exprimir tais ideias, é condicionada pelo hagiógrafo - fica subordinada à educação e às categorias culturais dum escritor humano.

 

Assim, as afirmações da Sagrada Escritura só gozam da absoluta veracidade da Palavra de Deus quando entendidas no mesmo sentido que o hagiógrafo, seu porta-voz humano, lhe queria atribuir.

 

Com efeito, na Escritura depreendem-se os vestígios característicos de um homem de cultura esmerada e de trato nobre, como Isaías, um dos ilustres cidadãos de Jerusalém no séc. VIII a.C.; 

as impressões de um homem dos campos, dum simples pastor, como Amós;

as de um temperamento muito sensível e vibrante, como o de Jeremias;

os cálculos harmoniosos e simétricos dum cobrador de impostos, com afecto pelos números, como São Mateus;

a vivacidade de um jovem fogoso, pouco preocupado com o estilo, como São Marcos;

a terminologia e a firmeza de espírito dum médico de formação helenista, como São Lucas. 

 

"Para entender o Antigo Testamento" da autoria de D. Estêvão Bettencourt, 1956

 

Dicas para ler e estudar a Bíblia

Entre 2014 e 2015, eu escrevi alguns posts acerca do Plano de Leitura da Bíblia que na altura tinha decidido seguir, com o objectivo de ler a Bíblia, duma ponta à outra, no espaço de um ano. Sei que muitas pessoas descobriram este blog exactamente por terem andado à procura dum plano de leitura bíblico que incluisse os 73 livros da Bíblia Católica (em vez dos 66 das bíblias protestantes) - algo que é bastante dificil de encontrar....

 

Eu segui, mais ou menos, o plano que tinha delineado e sem dúvida que aquela decisão foi muito importante, tanto na minha relação com Deus, como com a Igreja. Mas hoje, queria partilhar convosco algumas sugestões e alguns tópicos para ponderarem antes de se aventurarem numa primeira grande leitura da Bíblia... principalmente para aqueles que nunca leram a Bíblia antes ...

 

Eu penso, com toda a sinceridade, que é preferível (e mais sábio) seguirem as leituras da missa diária, durante um ano inteiro, do que começarem logo por um plano de leitura da Bíblia. Por exemplo, através do site do Evangelho Quotidianopodem receber todos os dias no vosso email as leituras da missa diária, associada a um pequeno comentário a essa leitura, comentário esse que pode ser da autoria dum santo, dum papa ou de algum documento da Igreja Católica (como do Catecismo). É através deste site/aplicação que eu leio, todos os dias, ao pequeno-almoço, as leituras da missa diária (uma vez que não consigo ter disponibilidade para participar na Eucaristia durante a semana - que é obviamente a melhor opção). 

Esta é, acredito eu, a melhor forma de compreenderem a interligação existente entre o Antigo e o Novo Testamento; entre aquilo que Deus tinha já tentado dizer aos judeus, mas que eles não perceberam na totalidade, e que portanto Jesus veio esclarecer; também descobrirão coisas que os judeus tinham compreendido correctamente, mas que já se tinham .... esquecido, ou dado menor importância, e que Cristo veio (re)afirmar e (re)validar. E os comentários às leituras que a equipa do Evangelho Quotidiano escolhe são sempre, sempre, sempre maravilhosos, edificantes e inspiradores!

 

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Se, ainda assim, pretenderem ler e, principalmente, estudar a Biblia, tenho algumas dicas para partilhar convosco:

 

Comprem uma boa Bíblia - procurem uma Bíblia que tenha uma boa tradução, mas que inclua também muitos comentários e explicações.  A melhor Bíblia em português que conheço é dos Capucinhos (que podem ler online aqui) - é simplesmente fantástica! 

 

- Estudem acompanhados dum bom guia de estudo o melhor site de estudo bíblico católico que eu conheço (e que eu uso frequentemente) é o Agape Bible Study. Outro site muitíssimo bom é o St. Paul Center, onde podem encontrar guias de estudo em formato de texto ou então de vídeo

 

- Aprofundem o vosso conhecimento acerca do Antigo Testamento - no site da Alexandria Católica podem encontrar 2 livros maravilhosos, que nos ensinam a compreender o pensamento e a escrita dos judeus da época do Antigo Testamento: Para entender o Antigo Testamento e Páginas Difíceis da Bíblia 

 

Já começaram a planear a Quaresma? Ela está quase aí! E que tal oferecerem mais um pouquinho do vosso dia a Deus? Se deixarem de lado o Facebook, o Instagram ou a Blogosfera de certeza que terão tempo. Deixem que Deus vos fale, directamente ao coração, através da Sua palavra, todos os dias!

 

São José, o Justo

Vamos continuar a "montar o nosso presépio"? 

Hoje reflectiremos, com a ajuda do nosso querido Papa Bento XVI, acerca de São José, adequadamente chamado de «o Justo».

 

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A designação de José como homem justo (zaddik) (...) oferece um retrato completo de São José e, ao mesmo tempo, insere-o entre as grandes figuras da Antiga Aliança, a começar por Abraão, o justo.

 

O Salmo 1 representa a imagem clássica do «justo». O justo, segundo este salmo, é um homem que vive em intenso contacto com a palavra de Deus, que «põe o seu enlevo na lei do Senhor» (v.2). É como uma árvore que, plantada à beira das águas correntes, produz continuamente o seu fruto. Com a imagem das águas correntes, das quais se nutre a árvore, entende-se naturalmente a palavra viva de Deus, onde o justo faz penetrar as raízes da sua existência. Para ele, a vontade de Deus não é uma lei imposta a partir de fora, mas «alegria»; para ele, a lei torna-se espontaneamente «evangelho», boa nova, porque ele interpreta-a numa atitude de abertura pessoal e cheia de amor para com Deus, e assim aprende a compreendê-la e a vivê-la a partir de dentro. (...)

Esta imagem - do homem que tem as suas raízes nas águas vivas da palavra de Deus, não cessa jamais de dialogar com Deus e, por isso, produz sempre fruto - torna-se realidade concreta (...) em José de Nazaré. Depois da descoberta feita por José, trata-se de interpretar e aplicar a lei de maneira justa; e ele fá-lo com amor: não quer expor publicamente Maria à ignomínia. Ama-a, mesmo no momento de grande desilusão. (...) José vive a lei como evangelho, procura o caminho da unidade entre direito e amor. E assim está preparado interiormente para a mensagem nova, inesperada e humanamente incrível, que lhe virá de Deus.

 

Enquanto «entra em casa» de Maria, o anjo a José aparece só em sonho, mas num sonho que é realidade e revela realidade. Mais uma vez é-nos apresentado um traço essencial da figura de São José: a sua sensível percepção do divino e a sua capacidade de discernimento. (...)

A mensagem que lhe é comunicada é enorme e requer uma fé excepcionalmente corajosa. (...) Antes, Mateus dissera que José estava «considerando interiormente» a questão da justa reacção à gravidez de Maria. Podemos, pois, imaginar como terá então lutado, no seu íntimo, com esta mensagem inaudita do sonho: «José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo» (Mt 1,20). (...) 

 

Depois da informação sobre a concepção do Menino por virtude do Espírito Santos, é confiado a José um encargo: Maria «dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados» (Mt 1,21). Juntamente com o convite a tomar consigo Maria como sua esposa, José recebe a ordem de dar um nome ao Menino e, deste modo, de O assumir juridicamente como seu filho. (...)

 

Mateus completa a narração referindo que José se levantou do sono e fez o que lhe fora mandado pelo anjo do Senhor. (...) Mais uma vez e de maneira muito concreta, José é-nos apresentado aqui como «homem justo»: o seu permanecer interiormente alerta para Deus - uma atitude que lhe permite acolher e compreender a mensagem - torna-se, espontaneamente, obediência. Se antes procurara adivinhar com as próprias capacidades, agora sabe que coisa justa deve fazer.

 

Reflexão retirada do livro "Jesus de Nazaré - A infância de Jesus",

do Papa Bento XVI, 2012, pág. 37-43

A resposta de Maria ao anjo Gabriel

Estamos já na segunda semana do Advento. Este ano, o Advento "tem uma semana a menos", uma vez que celebramos o 4º Domingo do Advento na véspera de Natal, dia 24 de Dezembro. No dia seguinte celebraremos logo a vinda do Amor até junto de nós.

 

Então, está na altura de "preparar o presépio". Hoje, começaremos com Maria; depois falaremos de José e do Menino Jesus.

Neste sentido, partilho convosco uma reflexão do Papa Bento XVI, acerca da resposta de Nossa Senhora à anunciação por parte do anjo Gabriel.

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A resposta de Maria desenvolve-se em três etapas.

A primeira reacção à saudação do anjo é feita de perturbação e ponderação. A sua reacção é diferente da de Zacarias; dele é referido que ficou perturbado e «encheu-se de temor» (Lc 1,12). No caso de Maria, no início usa-se a mesma palavra (ela perturbou-se), mas o que se segue depois não é o temor, mas uma reflexão íntima sobre a saudação do anjo. Maria reflecte (entra em diálogo consigo mesma) sobre o que deva significar a saudação do mensageiro de Deus. Assim, vemos surgir já aqui um traço característico da figura da Mãe de Jesus, um traço que encontramos no Evangelho mais duas vezes em situações análogas: o confronto íntimo com a Palavra (ver também Lc 2,19 e Lc 2,51).

Não se detém no primeiro sentimento que a assalta, ou seja, a perturbação pela proximidade de Deus no seu anjo, mas procura entender. Por isso, Maria aparece como mulher corajosa, que conserva o autocontrolo mesmo diante do inaudito. Ao mesmo tempo, é apresentada como mulher de grande interioridade, que conjuga o coração e a mente e procura entender o contexto, o conjunto da mensagem de Deus. Assim, torna-se imagem da Igreja, que reflecte sobre a palavra de Deus, procura compreendê-la na sua totalidade e guarda o dom da mesma na sua memória.

 

Enigmática, para nós, é a segunda reacção de Maria. (...) O anjo comunica-lhe que foi escolhida para se tornar mãe do Messias. Então Maria fórmula uma pergunta breve e incisiva: «Como será isso, se eu não conheço homem?» (Lc 1,34). Considere-se de novo a diferença da sua resposta, relativamente à de Zacarias: enquanto este reagiu duvidando da possibilidade da tarefa que lhe foi atribuída (...) Maria não dúvida, não levanta questões sobre o facto «de que» se possa realizar a promessa, mas quanto ao «como» está se realizaria. (...) [Mas] o anjo confirma-lhe que não será mãe pelo modo normal depois de ser recebida em casa de José, mas através da «sombra da força do Altíssimo», por meio da vinda do Espírito Santo e, com veemência, assegura: «Porque nada é impossível a Deus» (Lc 1,37).

 

Depois disto, segue-se a terceira reacção, a resposta essencial de Maria: um simples «sim» daquela que se declara serva do Senhor. «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). (...) São Bernardo de Claraval afirma que, no momento do pedido a Maria, o céu e a terra como que suspendem a respiração. Dirá «sim»?! Ela demora.... Porventura lhe servirá de obstáculo a sua humildade? Só por esta vez - diz-lhe Bernardo - não sejas humilde, mas magnânima. Dá-nos o teu «sim»! Este é o momento decisivo, em que dos seus lábios, do seu coração, surge a resposta: «Faça-se em mim segundo a tua palavra». É o momento da obediência livre, humilde e simultaneamente magnânima, na qual se realiza a decisão mais sublime da liberdade humana. (...)

 

Penso que é importante ouvir também a última frase da narração da Anunciação: «E o anjo retirou-se de junto dela (Lc 1,38). A grande hora do encontro com o mensageiro de Deus, na qual toda a vida muda, passa; e Maria fica sozinha com a tarefa que verdadeiramente supera toda a capacidade humana. Não há anjos em seu redor, ela deve prosseguir pelo seu caminho, que passará através de muitas obscuridades, a começar pelo espavento de José perante a sua gravidez até ao momento em que se diz de Jesus que está «fora de si» (Mc 3,21 e Jo 10,20), até à noite da Cruz. (...) O anjo parte, a missão permanece e, juntamente com ela, matura a proximidade interior com Deus, o íntimo ver e tocar a sua proximidade."

 

Reflexão retirada do livro "Jesus de Nazaré - A infância de Jesus"

do Papa Bento XVI, 2012, pág. 33-37

Arte de Aproveitar-se das Próprias Faltas - 14

Provavelmente a última publicação com enxertos do livro "Arte de Aproveitar-se das Próprias Faltas"

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Imagem retirada daqui

Corrige-te compassivamente!

 

Se me propusesse, por exemplo, a evitar todo o pecado de vaidade, e não obstante caísse, mesmo gravemente, não havia de repreender o meu coração deste modo:

«Tu és verdadeiramente um miserável, um abominável, porque te deixaste seduzir pela vaidade depois de tantas resoluções! Que vergonha! não levantes mais os olhos para o Céu, cego, imprudente e infiel ao teu Deus!...» e coisas semelhantes.

 

(...) Corrigi (o vosso coração) com modos compassivos:

«Pois bem, meu pobre coração, eis-nos de novo caídos na cilada que tinhamos resolvido evitar! Ah! levantemo-nos de novo e livremo-nos dela para sempre; imploremos a misericórdia de Deus; esperemos que Ele nos sustenha para o futuro e reentremos nos caminhos da humildade! Coragem! Deus nos há-de ajudar e ainda faremos alguma coisa de bom ..."

Pe. José Tissot

 

 

Capítulo II do livro "A Arte de aproveitar-se das próprias faltas", da autoria do Pe José Tissot

Este livro pode ser encontrado na Alexandria Católica ou então fazendo o download aqui

Arte de Aproveitar-se das Próprias Faltas - 13

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Imagem retirada daqui

 

"Logo desde a manhã, disponde a vossa alma para andar tranquila, e tende o cuidado de, no decorrer do dia, a chamar muitas vezes e colocá-la em vossas mãos. 

Se vos suceder algum caso triste, não vos espanteis; humilhai-vos tranquilamente na presença de Deus e procurai pôr o espírito em atitude de quem está tranquilo e quieto.

Dizei à vossa alma: «Eia, demos um passo em falso; vamos agora devagarinho e tenhamos cautela connosco!» Fazei isto todas as vezes que cairdes." 

São Francisco de Sales

 

 

Capítulo II do livro "A Arte de aproveitar-se das próprias faltas", da autoria do Pe José Tissot

Este livro pode ser encontrado na Alexandria Católica ou então fazendo o download aqui