Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Uma Jovem Católica

Sou uma jovem católica portuguesa.Neste blog partilho a minha caminhada em busca da santidade, da fé, da misericórdia, da caridade, do amor a Deus e ao próximo.Espero que ele vos possa ajudar a encontrar a Alegria do Evangelho!

Abraão: o desejo de ter um filho e a caminhada de fé de Sara

O Senhor disse a Abrão: «Ergue os teus olhos e, do sítio em que estás, contempla o norte, o sul, o oriente e o ocidente. Toda a terra que estás a ver, dar-ta-ei, a ti e aos teus descendentes, para sempre. Farei que a tua descendência seja numerosa como o pó da terra, de modo que só se alguém puder contar o pó da terra é que a tua posteridade poderá ser contada. Levanta-te, percorre esta terra em todas as direcções, porque Eu ta darei.» (Gn 13, 14-17)

À semelhança de Moisés, também Abrão não chegará a ver cumprida a promessa da posse das terras de Canaã Ele testemunhará apenas o início do cumprimento da segunda promessa que o Senhor lhe faz: de que teria uma descendência e que esta seria tão numerosa como os grãos de pó da terra ou como as incontáveis estrelas do céu numa noite de deserto...

 

É absolutamente claro, em todas as passagens da história de Abrão, que o seu maior desejo era ser pai. Mas, os anos passavam, Abrão e Sarai envelheciam e nenhum filho vinha. Abrão tinha 75 anos quando o Senhor lhe prometeu, pela primeira vez, uma descendência. Sarai, sua esposa, seria mais nova mas, ainda assim, já há muito que tinha passado a idade da fertilidade. É verdade que Deus tinha demonstrado o Seu poder de diversas formas e em sucessivos acontecimentos extraordinários, mas até um Deus Todo Poderoso tem limites à Sua acção!

Não é?

Abraao diagrama.jpg

Imagem da autoria de George Hawke, adaptada por mim

Por pensar assim, as Sagradas Escrituras vão relatar-nos as várias formas que Abrão usará para tentar "facilitar" o cumprimento desta promessa de Deus. Primeiro, trará consigo Lot, seu sobrinho, desde a terra de Ur dos Caldeus até à Terra Prometida, pensando que seria ele, se o amasse e o tratasse como seu próprio filho, o herdeiro do seu nome. Mas o Senhor ensinar-lhe-á que é necessário aprender a desapegar-se da sua vida passada, para crescer em santidade.

 

Mais tarde na sua vida, Abrão pensará que irá ser Eliezer, o seu escravo tornado amigo do peito, que vira nascer e crescer com tanta alegria na sua casa, a continuar a descendência da sua família. 

O Senhor disse a Abrão numa visão: «Nada temas, Abrão! Eu sou o teu escudo; a tua recompensa será muito grande.»
Abrão respondeu: «Que me dareis, Senhor Deus? Vou-me sem filhos e o herdeiro da minha casa é Eliézer, de Damasco.» E acrescentou: «Não me concedeste descendência, e é um escravo, nascido na minha casa, que será o meu herdeiro.»
Então a palavra do Senhor foi-lhe dirigida, nos seguintes termos: «Não é ele que será o teu herdeiro, mas aquele que sairá das tuas entranhas.» (Gn 15, 1-4)

Mas um escravo não é bom o suficiente. Mesmo que um escravo representasse, como na altura de Abrão, uma posse total sobre outra pessoa, alguém que nos pertence inteiramente e que nos é totalmente fiel e dedicado; mesmo essa totalidade de posse não se compara com uma relação filial. Mal podia imaginar Abrão que, já aqui, estava expresso o profundo e radical desejo de Deus de nos tornar Seus amados filhos, após sermos redimidos e salvos pelo sangue derramado de Jesus. 

Com o tempo, Abrão compreendeu que, alguém que saia das nossas próprias entranhas e que tenha o nosso próprio sangue, que possamos amar como filho e que nos ame como pai, é absolutamente diferente de alguém que nos sirva apenas por temor e dever, por mais dedicado que ele seja. 

"Abrão confiou no Senhor e Ele considerou-lhe isso como mérito" (Gn 15,6)

abraham and sarah.jpg

Imagem retirada daqui

Mas os anos passavam e continuavam a passar e... nada! A fé de Abrão, por esta altura, podia já ser grande e madura. Mas a de Sarai, sua mulher, ainda tinha muito que crescer. Sarai deixa-se vencer pelo desespero e pela dúvida destruidora de não se achar suficiente para Deus nem para o seu marido. Sarai deixa-se definir pela sua aparente esterilidade, o seu coração endurece-se e torna-se amargo. Assim, já que parecia que o Senhor nada fazia, ela própria faria as coisas acontecerem, com as suas próprias mãos!

Sarai, mulher de Abrão, que não lhe dera filhos, tinha uma escrava egípcia, chamada Agar. Sarai disse a Abrão: «Visto que o Senhor me tornou uma estéril, peço-te que vás ter com a minha escrava. Talvez, por ela, eu consiga ter filhos.» Abrão aceitou a proposta de Sarai. Ele abeirou-se de Agar e ela concebeu. (Gn 16, 1-2.4)

Quanta dor, quanta infelicidade, trará este acto à vida de Sarai ... Oh, como ela se vai arrepender! Quantas vezes me revejo a mim própria em Sarai, com a minha mania de querer fazer com que as coisas aconteçam pelas minhas próprias mãos, visto que o Senhor aparentemente se atrasa e eu já não consigo esperar mais ... 

 

Ismael é o primeiro filho de sangue de Abrão, que nasce 11 anos depois da primeira promessa de descendência do Senhor a Abrão. É quase como se as Escrituras nos dissessem: "Abrão já estava preparado, a sua Fé tinha crescido e amadurecido, e estava pronto para ser pai .... mas Sarai ainda não". E, num Matrimónio, sabemos que já não existem dois, mas um só.

Na verdade, passarão mais 13 anos, até ao dia em que três homens enviados por Deus passem à porta da tenda de Abraão e anunciem a chegada do seu filho primogénito. Serão precisos todos esses anos, para que Sarai conheça o Senhor e cresça em intimidade com Ele; que se deixe amar e satisfazer plenamente por Ele; que permita que seja Ele a moldá-la, com todo o Seu amor e misericórdia, até se tornar verdadeiramente numa mãe. Serão precisos esses 13 anos para que a fé de Sarai alcançe as alturas da fé do seu esposo.

Então, sim, estão ambos prontos e transformados: Abrão torna-se Abraão - que significa pai de muitos - e Sarai torna-se Sara - mãe de muitos.

Abrão tinha noventa e nove anos, quando o Senhor lhe apareceu e lhe disse: «Eu sou o Deus supremo. Anda na Minha presença e sê perfeito. Quero fazer uma aliança contigo e multiplicarei a tua descendência até ao infinito. Já não te chamarás Abrão, mas sim Abraão, porque Eu farei de ti o pai de inúmeros povos.» E Deus disse a Abraão: «Não chamarás mais à tua mulher, Sarai, mas o seu nome será Sara. Abençoá-la-ei e dar-te-ei um filho, por meio dela. Será por mim abençoada, e será mãe de nações, e dela sairão reis.» (Gn 17, 1-2.5.15-16)

jesus and abraham.jpg

Imagem retirada daqui

Isaac nascerá exactamente quando Abraão completar 100 anos. Fazendo as contas, Isaac só nascerá 25 anos depois da primeira promessa de descendência que Deus fez a Abraão, ainda nas terras de Ur dos Caldeus. Depois, Isaac terá já 40 anos quando finalmente casar com Rebeca, que só engravidará 20 anos depois, com os gémeos Esaú e Jacob.

Assim, Abraão terá de esperar 85 anos, desde a primeira promessa do Senhor, para ver nascer os seus netos. Quando Abraão finalmente morrer, aos 175 anos de vida segundo a Bíblia, ele terá apenas um filho, já com 75 anos, e dois netos com 15 anos de vida - um começo (aparentemente) pouco favorável para o cumprimento duma descendência numerosa e duma grande nação sucessora .... 

Mas o próprio Senhor nos responde:

Haverá alguma coisa que seja impossível para o Senhor? (Gn 18, 14)

São José, o carpinteiro

Já vos contei acerca de algumas das descobertas que fiz ao longo do meu plano de leitura bíblico, como a alegria de Jesus e o aspecto dos Anjos. Hoje, gostava de vos contar mais uma descoberta, desta vez sobre São José.

 

Qual é a primeira imagem que se forma na vossa mente quando pensam em São José?

 

Provavelmente, pensarão, como eu, num homem de meia-idade, magro, com cabelos brancos e barba comprida, a olhar terna e carinhosamente para o Menino Jesus no seu colo e com um bonito lírio numa das mãos, como símbolo da sua pureza  … 

 

S.Jose velhinho.jpgS.Jose velhinho 2.jpg

Imagem de S.José - retirada daqui.                                                                                     Imagem de São José - retirada daqui

 

Bem, pelo menos, era essa a imagem que eu tinha de São José …. E vocês?

 

 

Um dia, quando estava a ler o Evangelho segundo São Mateus, deparo-me, no capítulo 13, versículo 54-55, com uma pergunta que me pôs a pensar:

 

“Tendo [Jesus] chegado à Sua terra, ensinava os habitantes na sinagoga, de modo que todos ficavam admirados e diziam: «De onde Lhe vem esta sabedoria e o poder de fazer milagres?

Não é Ele o filho do carpinteiro?”

 

Umas páginas à frente, no Evangelho de São Marcos, no capítulo 6, esta história é-nos novamente contada, quase palavra por palavra ….

 

“Não é Ele o filho do carpinteiro?” 

 

Eu tinha lido anteriormente que o povo Judeu tinha por tradição que, quando os rapazes chegavam aos 12 anos de idade, começavam a aprender o ofício dos pais [1]. Sem dúvida que na casa de Jesus, modelo de cumprimento das Sagradas Escrituras, não terá sido diferente! Assim, ensinado por São José, Jesus também terá aprendido o ofício da carpintaria e esse terá sido o Seu principal modo de subsistência durante a maior parte da Sua vida.

 

Mas o que é que os carpinteiros faziam exactamente naquela altura?

 

Lá fui eu, novamente, pesquisar nesse mar imensurável de informações a que chamamos internet. Querem saber o que descobri? 

 

  • Primeiro, descobri que a palavra original nesses textos, em grego, “tekton”, teria sido melhor traduzida como artesão, em vez de carpinteiro, para englobar todo o seu significado. “Tekton” aparentemente indica um artífice que trabalha com madeira, mas também com pedra, ferro e cobre. [2]

 

  • Em segundo lugar, descobri (sem me admirar) que a profissão de carpinteiro (ou artesão, como preferirem) conferia à família uma posição social muito baixa na cultura Judaica e que os seus rendimentos seriam bastante pequenos e humildes. [2]

 

  • Depois, descobri que os principais objectos fabricados pelos carpinteiros naquela altura eram arados e jugos (ou juntas) de madeira (ouvem tocar algum sininho?), uma vez que grande parte dos hebreus eram agricultores e havia assim uma grande necessidade de juntas de bois e de arados para trabalharem nos campos. [1, 2]

 

jugo.jpg

Jugo de bois - imagem retirada daqui.

 

arado de madeira.jpeg

Arado de madeira - imagem retirada daqui.

 

Os carpinteiros também construíam objectos pequenos, como chaves e cadeados de madeira, e peças maiores, como portas e janelas, telhados, mesas, cadeiras e bancos, baús e outros móveis de arrumação. Além disso, eram frequentemente chamados para reparar objectos que se partiam ou que precisavam de novas peças. [1,2]

 

Que árvores eram usadas para fornecer a madeira? Principalmente ciprestes, carvalhos, freixos, sândalo e oliveiras ... ah, e claro, os cedros! A bíblia refere com frequência os famosos cedros do Líbano ... [1]

 

“Os justos florescerão como a palmeira

e crescerão como os cedros do Líbano.

Plantados na casa do Senhor,

florescerão nos átrios do nosso Deus.

 

Até na velhice continuarão a dar frutos

e hão-de manter sempre a seiva e o frescor,

para proclamar que o Senhor é justo.”

Salmo 92:13-16

 

cedro-do-libano.jpg

Cedro do Líbano - Imagem retirada daqui.

 

Quase todas estas árvores, como sabem, são árvores de grande porte. Os cedros, por exemplo, podem alcançar os 40 metros de altura …

E sabem quem eram os homens capazes de deitar abaixo estas grandes e pesadas árvores, cortá-las e transportá-las até à cidade? Sim, exactamente, os carpinteiros!  

 

Ora, que tem esta conversa toda a ver com a imagem do velhinho São José??

 

Durante muitos séculos, foi defendida a ideia que São José teria cerca de 80 anos quando casou com a Virgem Maria. Porquê? Porque assim, com um marido idoso, seria mais fácil defender a Virgindade Perpétua de Maria. [3]

Actualmente, a maior parte dos investigadores-historiadores que se dedicam ao estudo das Sagradas Escrituras, da cultura judaica e dos acontecimentos históricos no tempo de Jesus, concordam entre si que, tal como a grande maioria das raparigas naquela altura, a Virgem Maria teria provavelmente cerca de 14 a 15 anos quando se casou com São José e foi mãe de Jesus. [3]

 

.... Agora, conseguem imaginar uma rapariga de 15 anos a casar livre e deliberadamente com um homem de 80 anos? Acham mesmo que Deus teria inspirado uma história de amor entre duas pessoas com idades tão díspares, para serem os pais terrenos do Seu Único Filho?

 

Eu pessoalmente não consigo imaginar que Deus tenha escolhido um velhote de 80 anos para defender e proteger a Sagrada Família … Não consigo imaginar que Deus tenha escolhido um homem já velho para percorrer todos aqueles quilómetros, que separam Nazaré de Belém, apenas para se apresentar e registar no censo do Imperador romano. Nem consigo imaginar como um idoso poderia fugir da ira do rei Herodes, às pressas e no meio da noite, desde Belém até ao Egipto! Nem como um homem assim poderia trabalhar como carpinteiro, carregando pesados troncos de árvores, serrando e partindo a madeira, construindo telhados e móveis, a fim de sustentar a sua esposa e o seu filho …

 

Na verdade, actualmente, os investigadores-historiadores já conseguiram comprovar que, naquela altura da História, a maioria dos homens judeus se casavam por volta dos 16 a 20 anos de idade, e que essa terá sido provavelmente a idade de São José quando se casou com Nossa Senhora. [3]

 

O falecido Arcebispo Fulton J. Sheen (que eu admiro particularmente, lembram-se dele?), já tinha escrito no seu livro “O Primeiro Amor do Mundo” (The World’s First Love, Ignatius Press) em 1952, que:

 

“S. José foi, provavelmente, um homem jovem, forte, viril, atlético, bonito, casto e disciplinado, o tipo de homem que se vê a trabalhar numa oficina de carpintaria. Em vez de ser um homem incapaz de amar, ele deve ter ardido interiormente com amor ... Naqueles dias, jovens raparigas como Maria, já faziam votos de dedicação e de amor perpétuo a Deus, tal como alguns jovens rapazes, entre os quais José, que se tornou digno de ser chamado de “o justo”. Em vez de ser como um fruto seco para ser servido sobre a mesa do Rei, ele terá sido como uma árvore florida de promessas e de força. Ele não estaria no entardecer da sua vida, mas sim na sua manhã, borbulhando de energia, força e controlada paixão.”

 

St.-Joseph-the-Giver.jpg

São José, o Dador - pintura de Kimberly Cook (imagem retirada daqui)

saint_joseph.jpg

Imagem retirada daqui

 

st joseph.jpg

S. José a ensinar Jesus a arte da carpintaria - imagem retirada daqui.

 

Para mim, esta imagem de São José, como um jovem alegre, fisicamente em forma, com a força e coragem e o ânimo necessário para aguentar todas aquelas provas de resiliência … mas, simultaneamente capaz de ser fiel e casto, protector e guarda, um homem de oração e de serviço, humilde e obediente aos desígnios do Senhor …. Esta imagem de São José tem, certamente, infinitamente mais mérito e ofereceria uma glória muitíssima maior a Deus.

 

São José - o maior exemplo terreno de masculinidade e de paternidade. 

Rogai por nós.

 

 

 

Bibliografia:

[1] Artigo sobre a História da Carpintaria: http://www.wagnermeters.com/wood-moisture-meter/woodworking-history/

[2] Página com links para vários artigos sobre carpintaria na Bíblia: http://www.bible-history.com/links.php?cat=39&sub=418&cat_name=Manners+%26+Customs&subcat_name=Carpenters

[3] Artigo do sr. Fr Michael D. Griffin, no site do canal americano EWTN, sobre a vida de São José e do seu importantíssimo papel na Salvação da Humanidade (que recomendo vivamente a ler!): https://www.ewtn.com/library/MARY/THEOINTR.HTM